
OS OLHOS DE EMMA

Traduo de

LUIZ ORLANDO COUTINHO LEMOS

MITORK

Ttulo original ingls EMMA & 1

Copyright  1977 by Sheila Hocken

Direitos de publicao exclusiva em lngua portuguesa no Brasil
adquiridos pela

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 -
10:40 02-11-2006164

20921 Rio de Janeiro, RJ

que se reserva a propriedade literria desta traduo

Composto na Linotipia Cordeiro, rua Lencio de Albuquerque, 34 - Loja
e impresso nos Estab. Grficos Borsoi S.A., rua Francisco Manuel, 55
ZC 15 - Rio de Janeiro - RJ

Este livro  dedicado a John E. Coates

AGRADECIMENTO

Desejo agradecer ao Capito-de-Corveta Jack Waterman, sem cujo
amvel aconselhamento e ajuda este livro no teria sido possvel.

S.H.

d i

Sumario

1 Uma Criana Isolada   ...........................      9

2 Emma Chega      .................................    24

3 Treinamento    .................................     37

4 Novamente em Casa    ..........................      47

5 Anita .   .....................................     55

6 Don     ........................................     69

7 Independncia    ...............   ........ .....    79

8 Curso Noturno    ................................    90

9 Emma Salva Minha Vida      ......................   107

1O A Operao de Emma      .........................   122

11 Os Gatos    ....................................    131

12 Uma Esperana     ...............................   139

13 Hospital   .....................................    148

14 As Vendas So Retiradas   .......................   157

15  Primeira Vista   ..............................   166

16 Uma Nova Vida     ..............................    180

''I'l''''I'll''''I'll'll''''I'll''''I'll''I I-, I

capitulo um

Uma Criana Isolada

Eu no fazia idia de que no podia ver normalmente at por
volta dos sete anos. Vivia entre imagens e cores vagas que eram
embaadas, como se uma nvoa as envolvesse.
Mas pensava que era assim que todas as demais pessoas viam o mundo.
Minha viso foi-se tornando cada vez pior at que, no final da
adolescncia, quase s conseguia
distinguir a luz da escurido, e isso era tudo. Mesmo nos meus sonhos
as pessoas no tinham rosto. Eram vultos numa bruma. Em minha mais
remota lembrana, acordada
ou sonhando, a bruma estava sempre l, e vagarosamente ela foi se
fechando at tornar-se impenetrvel, e a at mesmo os vultos
embaados finalmente desapareceram.

Nasci em 1946 em Beeston, Nottingliam. Meus pais tinham viso
deficiente e tambm o meu irmo Graham, que  trs anos mais
velho do que eu. O problema nos olhos
 hereditrio: catarata congnita que provoca dano na retina.
Herdei isso do meu pai. A doena de minha me era diferente, foi
causada por rubola quando ela era
pequena, mas nenhum dos dois conseguia ver muito bem. A fatalidade que
atingiu a ns quatro - ningum era capaz de enxergar bem - pode
parecer estranha a uma pessoa
com viso normal. Se eu fosse a nica doente, uma criana com
problema de viso numa famlia em que todos enxergassem
perfeitamente, as coisas teriam sido certamente
diferentes. Mas em minha famlia ningum jamais falou em cegueira,
ou em no ser capaz de enxergar bem. Era tudo aceito como um fato da
vida e ningum tocava no
assunto. Talvez mame e papai mantivessem algum tipo de
conspirao do silncio sobre este tema para ajudar a Graham e a
mim, e se isso era verdade, foi uma coisa
boa. O que ajudaria dizer a um menino e a uma

menina que eles no eram iguais as outras crianas? ramos
poupados a fim de manter intacta nossa confiana.

Somente fazendo uma retrospectiva  que compreendo que muitas coisas
consideradas normais em nossa vida diria seriam consideradas como
estranhas por outra pessoa.
Na hora das refeies, derrubar um vidro de molho enquanto se
passava a mo pela toalha  procura do sal era um fato to
freqente que ningum dizia nada quando
acontecia.

Eu devia ter cinco ou seis anos, suponho, quando comecei a me questionar
a respeito de as outras crianas no baterem com a cabea nas
paredes ou rolarem as escadas
como freqentemente acontecia comigo. Cair e esbarrar em coisas tinha
sido sempre um acontecimento to comum em minha vida que eu aceitava
tudo como normal e quando
ainda pequena provavelmente me achasse um pouco desastrada. Eu me
encarregava de dar minhas prprias explicaes e desculpas. Ao
mesmo tempo, nada disso realmente
chegou a me aborrecer.

O que finalmente me fez sentir uma criana isolada foi o fato de ver
meus amigos assistindo  televiso. Em casa, a famlia no podia
sentar-se reunida para ver
um programa, porque cada um de ns tinha de ficar bem perto da tela
para poder enxergar. Certo dia percebi que outras pessoas, apesar de
sentadas bem afastadas da
tela, podiam ver perfeitamente.

Hoje em dia, minha lembrana desses dias distantes, contudo,  to
nebulosa quanto a luz do dia costumava ser para mim naquela poca.
Imagino que as pessoas com
viso normal tenham poucas lembranas vvidas de sua infncia,
mas eu no consigo sequer lembrar da imagem do meu pai e da minha
me, a no ser em termos de tato
e sons. E da mesma forma como no tenho qualquer memria visual de
meus pais, ou, pelo menos, de nada que seja significativo, tambm
no posso lembrar-me de impresses
visuais da casa onde morvamos, que ficava numa pequena cidade chamada
Sutton-in-Ashfield, perto de Mansfield. Mudamos para l pouco depois
de eu nascer. Como casa,
eu a conhecia pelo aroma do po no forno e das tortas e pelo calor e
rudo do fogo de carvo crepitando e assoviando na grelha. Nada
mais.

Meu pai ficava fora muito tempo, viajando por todo o pas vendendo
tecidos. No h dvida de que sua viso deficiente era uma
grande desvantagem, mas ele jamais
admitia isso; s dis]o

cutia os problemas para nos contar as coisas engraadas que aconteciam
com ele.

Lembro dele chegando em casa certa noite, depois de uma longa viagem de
trem, e contando-nos que tinha ido ao carrorestaurante tomar ch.
Depois de encontrar um
lugar no meio daquela multido de passageiros, viu algO que lhe
pareceu um cinzeiro. Curvou-se para a frente e jogou dentro o toco do
cigarro, mas, para divertimento
dos outros passageiros e embarao dele, o cinzeiro que ele descobrira
no passava de uma torta de frutas.

No demorou muito para meu pai admitir que os negcios iam mal em
conseqijncia da deteriorao de sua viso. Essa constatao
foi um golpe que alterou por completo
nosso estilo de vida. Naquela poca, porm, as crianas Po
compartilhavam dos assuntos dos pais, e Graham e eu no fomos
informados exatamente sobre o que acontecera.
Tomamos conhecimento do primeiro sinal de mudana certo dia quando, ao
voltarmos da escola, mame pediu-nos para ajud-la a arrumar a
bagagem. Ela no disse nada
sobre a sbita incapacidade de papai ganhar o sustento da famlia.

- O que aconteceu, mame? Para onde vamos? - perguntei.

- Compramos uma loja - respondeu ela. - Vamos nos mudar para Nottingham.

Nottingham! Isso era muito excitante para Graham e para i-nim - mudar
para uma grande cidade, longe do lugarejo onde vivramos tantos anos.
Nossos pais tinham conhecimento,
mas ns dois no, que aquilo significava um retrocesso em nossa
vida, porque iramos morar numa casa de um dos bairros mais pobres e
miserveis da cidade, St. Ann's
Well Road. E o que nem Graham nem eu percebemos na hora foi que seria
muito mais difcil para ns conviver com outras pessoas e outras
crianas depois de passarmos
tanto tempo com aquelas que conhecamos e com as quais estvamos
acostumados.

Em lugar dessa reflexo, havia a alegria da mudana. A loja ficava
numa esquina. Minha me, que enxergava muito melhor do que meu pai,
cuidou do estoque de tecidos,
marcou os preos nas etiquetas e deu cincia a ele de todos os
preos. Estvamos acostumados a que ele permanecesse muito tempo

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fora de casa, viajando, mas agora ele estava sempre em casa e tinha mais
tempo para passar conosco.

Papai no podia fazer muito na loja - um tremendo golpe em seu orgulho
- e finalmente teve de se adaptar ao estilo de vida dos cegos: comeou
a fazer vassouras no
Instituto MidIand para Cegos. Felizmente, ele no demorou muito tempo
fazendo vassouras, porque logo depois de entrar para o Instituto ps
as mos pela primeira
vez, numa guitarra. Ele demonstrou possuir um talento inato desde o
incio, no apenas para arranhar algumas canes populares bem,
conhecidas mas tambm para escrever
suas prprias melodias e letras. E agora ele ganha a vida apresentando
um programa de msica country e western chamado Flor de Laranjeira
Especial, na Rdio Nottingham.
Tambm viaja pelas Ilhas Britnicas tocando suas msicas em alguns
clubes. E no h mais o perigo de o acidente com a torta de frutas
repetir-se, porque ele deixou
de fumar.

Graham e eu logo descobrimos que as crianas daqui eram mais
indelicadas do que as que conhecramos em Sutton-in-Ashfield. Elas me
chamavam de todos os tipos de
nomes, mas como mame sempre nos ensinara, ns as ignorvamos.
Provavelmente por causa disso, meu irmo e eu ficamos mais unidos.

Graham era terrvel com suas pequenas chantagens comigo. Eu sempre lhe
pedia que lesse para mim, quando estvamos na cama,  noite. E ele
dizia:

- Vou ler para voc um captulo de Enid Blyton se voc jogar
crquete comigo amanh.

-  Oh, no, criquete no - eu protestava. - Voc sabe que no
gosto de jogar crquete.

Tinha pavor de ser atingida pela bola, que  muito dura. No fim,
contudo, atrada por Enid Blyton e sua histria de Shaduw, c, Co
Pastor, eu acabava cedendo e dizia:

- Est bem, jogo uma partida, se voc prometer no usar aquela
bola dura.

A barganha perdurava com Graham respondendo que no seria realmente um
jogo de crquete se no fosse com a bola dura, e eu dizia que no
jogaria a menos que ele
usasse uma bola macia, de tnis. Eu geralmente conseguia fazer com que
prometesse jogar com uma bola macia e ento ele lia o captulo para
mim.

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Minha me tambm costumava brincar muito comigo. Eu tinha um ursinho
que s tinha um olho (parece que por ironia) e lembro-me de que estava
sempre com pena dele.
Mame e eu nos divertamos muito com ele. Ela me levava quando
saa para fazer compras e, se amos  loja Woolworth's, eu queria
sempre tocar nos brinquedos. S
conseguia v-los como vultos, mas no conseguia dar-lhes uma
identidade, a menos que os tocasse, o que talvez fosse um problema para
minha me, pois a regra geral
para crianas naquela poca era: "No mexam!" Mas ela devia ter os
vendedores da loja a seu lado, porque eu sempre acari,ciava as bonecas e
os bichinhos de pelcia
ou as caixas dos jogos d*e armar. E mesmo at hoje ainda no
conheo de verdade um objeto por completo se no puder toc-lo.

Um incidente aparece em minhas mais remotas lembranas. Minha me
levou-me para passar o dia em Skegness, um popular recanto  beira-mar
muito freqentado pelos
moradores de Nottinghani. Eu estava num carrossel, alegremente girando
em meu espao fechado, e quando o brinquedo parou continuei no meu
cavalinho colorido e no
me levantei. Isso porque estava acostumada com o fato de minha me
sempre vir me apanhar. Eu no conseguia localizar as pessoas; em vez
disso, esperava que viessem
me pegar.

Sendo assim, permaneci no carrossel. A prxima coisa de que me lembro
 ter sido levantada por uma senhora com voz arrogante. Poucos minutos
depois encontrava-me
completamente perdida, aterrorizada e gritando muito. Depois de algum
tempo, em meio s lgrimas, percebi uma figura vindo em minha
direo. Quando o vulto se aproximou
identifiquei ser uma mulher e de imediato pensei que fosse minha
"salvadora". Mas ento, em parte pelo sotaque, identifiquei que era
minha me e falei:
- Oh, mame, pensei que voc fosse uma mulher.

Esta frase logo se tornou   parte da linguagem particular de nossa
famlia.

Quando eu era um pouco      mais velha tinha um triciclo, embora nunca
me deixassem sair     do jardim com ele. Mas quando Graham ganhou uma
bicicleta, eu queria
desesperadamente uma igualzinha  dele. Infernizei a  vida dos meus
pais. Mas, como em tudo mais, mame jamais       difia para mim de
modo direto: "Voc no pode
ganhar uma        bicicleta porque no enxerga direito." Ela inventava
todo tipo de desculpas. Era como se no

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quisesse admitir, nem mesmo para si, que minha viso no era boa;
aquilo era algo que ela desejava manter enterrado para que nunca fosse
revelado. Acho que meu pai
mantinha~se em silncio por achar-se desapontado pelo fato de eu ter
herdado o seu problema de viso. Acredito que quando nasci ele deve
ter esperado com todas as
suas foras que meus olhos fossem normais. Mas eu seguira o padro
da famlia e acho que ele procurava fechar-se em si mesmo por causa
disso, e o resultado  que
me dava menos ateno. Conhecendo suas prprias dificuldades,
sabia que as coisas no seriam mais fceis para mim.

Considerando porm, tudo isso, o fato  que, at onde me
importava, meu irmo podia ter uma bicicleta e eu no, e no
entendia por qu. Ento, certo dia, apanhei
"emprestada" a nova e reluzente Hercules do meu irmo. Como consegui
subir e andar e o que aconteceu fazem-me tremer at hoje, Mas apanhei
a bicicleta e sa pedalando
pelo porto na direo da rua. E l fui eu sem ao menos me dar
conta de que o trfego seguia pelo lado esquerdo da pista. Nunca me
ocorrera que os carros e os demais
veculos circulassem numa determinada pista. Entretanto, como por um
milagre, nada me atingiu, e sem saber como parar numa descida no
muito inclinada, sa da pista,
subi no meiofio e fui bater de encontro a uma parede.

Eu simplesmente no sabia o que fazer, A roda da frente estava
retorcida e o suporte da lanterna empenado. Meu corao disparou,
deixei a bicicleta onde ela cara
e aos tropeos consegui encontrar o caminho de casa, onde me escondi
no andar de cima por um perodo que me pareceu de horas.

Pouco tempo depois ouvi vozes na cozinha, Era Graham, quase chorando,
que dizia a minha me:

- Mame, minha bicicleta sumiu. Algum a roubou! Minha me,
ento, parecendo exausta e aborrecida:

- No tenho tempo para pensar nisso agora. Graham. voc viu Sheila?

Finalmente reuni coragem suficiente, desci e contei toda a verdade.
No posso lembrar o que mame disse mas pareceu aliviada em ver que
eu estava bem e no deu mostras
de se importar com a bicicleta. Mas Graham estava aos prantos e saiu
correndo para apanhar a bicicleta.

Meu pai, ento, apareceu e mame contou-lhe minha terrvel saga.
Ele tambm ficou assustado, em vez de zangado.
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- Sheila, o que houve com voc? Podia ter morrido. Em seguida houve um
silncio e fiquei imaginando o que viria a seguir. Finalmente ele
completou: - Vai custar
muito dinheiro do meu bolso para consertar a bicicleta.

Pode-se pensar que houve descaso da parte deles em no tentar operar
meus olhos. A resposta  que o estgio da cirurgia de olhos naquela
poca no estava to evoludo
quanto hoje em dia, e a famlia no fora bem atendida pelos
mtodos ento disponveis. Meu pai fizera uma srie de
operaes sem sucesso. Meu irmo Graham voltara
do hospital com um olho completamente perdido em conseqncia de uma
cirurgia (embora o outro olho dele fosse melhor que os meus dois
juntos). Por outro lado, fiz
uma operao mas no obtive xito e meus pais, espe~ cialmente
com a experincia feita por Graham na mente, decidiram-se contra
outras tentativas.

Quando eu tinha cinco anos, surgiu a questo da minha educao. Eu
era uma pessoa registrada como cega e as autoridades educacionais eram
inflexveis quanto ao fato
de que eu deveria ser enviada para uma escola especial. Meus pais eram
totalmente contra esta medida. O mtodo usado nas escolas para cegos,
quando meu pai freqentara
uma em sua infncia, era que, independente do grau de viso da
criana, ela deveria ser tratada como uma pessoa cega. Ou seja,
aprender braile, Meu pai no foi encorajado
a usar o que ainda lhe restava de viso. As coisas, e digo isso com
prazer, mudaram muito desde ento, e qualquer criana com um
mnimo de viso seja  hoje encorajada
a desenvolver sua utilizao nessas escolas. Quando meus pais se
conheceram, ele s conseguia ler em braile e foi ela quem o ensinou a
ler visualmente com o uso
de letras de frma bem grandes. Papai, por ter sido enviado a uma
escola especial, teve uma infncia isolada e mais tarde encontrou
dificuldade para integrar-se
no mundo das pessoas com viso normal.

As autoridades educacionais de Nottingham, porm, tinham suas
prprias idias. A princpio tentarami persuadir e depois
ameaaram com ao legal, se eu no fosse
"voluntariamente" enviada a uma escola para cegos. A resposta de minha
me a isso foi:

- Bem, se eu conseguir que aceitem Sheila numa escola primria comum,
ento ela estar sendo educada e assim ser. No h nada que
os senhores possam fazer.

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As coisas no correram bem, mas tivemos um golpe de sorte.
Descobriu-se que o diretor da escola primaria que minha me procurou
era cego de
uma vista. Portanto,
ele entendia o problema um pouco melhor, mas acima de tudo teve
compaixo. Concordou em aceitar-me e ver como eu me desenvolveria.
Jamais deixei de agradecer  minha
estrela da sorte pela deciso que ele tornara, o que fez uma grande
diferena em minha vida.

Ento ingressei na Bluebel Hill Junior School, mas lembrome pouco
dessa instituio, exceto que era um lugar velho, barulhento e cheio
de gente. Do que realmente
me lembro  de como fiquei aterrorizada com a multido de crianas
no ptio. Elas pareciam estar correndo por toda parte e gritando ao
mesmo tempo. Era muito assustador,
como um sbito acesso a um mundo inesperado e louco, e na hora do
recreio eu costumava ficar sentada fora do caminho, ouvindo o barulho
medonho e, com o pouquinho
de minha viso, observando aqueles vultos que no paravam de se
mexer. Eu era uma garota pequena, com o vestido azul de veludo, que
imaginava fazer parte daquele
grupo da escola mas que na verdade no fazia.

Aos 11 anos, fui transferida para a Pierrepont Secondary Modern. Nessa
poca eu j ia  escola sozinha e a caminhada diria era um
pouco como enfrentar um "paredo
da morte". Alm de saber que esbarraria em todos os objetos estranhos
que estivessem no caminho, como engradados de leite deixados nas portas
das casas, e mesmo
os degraus, havia no final da rua um grupo de garotos que s vezes
esperava para zombar de mim quando eu passasse, sendo que um dos nomes
mais delicados de que me
chamavam era "cegueta". Posso ouvi-los agora "Olha a ... cegueta. .." O
estranho  que esses meninos tinham um co mestio que corria para
mim e eu para ele. Eu
costumava brincar com ele e s vezes ele me acompanhava at a
escola. Acho que foi assim que comecei a pensar que em alguns casos os
animais so mais gentis do que
os seres humanos... e uma companhia melhor tambm.

Desnecessrio dizer que houve dificuldades na escola. A atitude era:
"Ou voc progride sem ajuda extra de nossa parte ou ento ter de
ser enviada a uma escola especial."

Um dos meus maiores problemas era no poder enxergar ,o quadro-negro,
mesmo se me. sentasse na fila da frente. Certo dia, que guardo vivo na
memria, nossa professora
de ingls,
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Srta. PelI, deu-me licena para levantar e chegar mais perto do
quadro. O que estava escrito era uma longa regra de anlise
gramatical, muito difcil de entender
de qualquer modo. Eu, ento, tinha de ler uma linha de cada vez,
tentar me lembrar do que lera e voltar at minha carteira para anotar.
O problema  que a turma
estava se tornando cada vez mais irrequieta e aborrecida, pois cada vez
que eu ia ao quadro ficava na frente do exerccio que os alunos
estavam copiando. Logo a
sala se encheu de reclamaes: "Estou fazendo o exerccio, a
senhora no pode tirIa da frente?" "Ela est na frente,
professora." "Ela est atrapalhando." A Srta.
Pell era muito bondosa. Disse ento a todos*
- Vocs vo ter de esperar um instante.

Mas a tenso estava aumentando e depois de trs idas ao quadro-negro
eu desisti e passei a ouvir suspiros de alvio em vez de gritos de
protesto. O silncio s era
quebrado pelas canetas roando no papel enquanto eu permanecia quieta,
preferindo me tornar analfabeta a ter de passar por aquilo novamente. A
nica compensao
 que eu comeava a desenvolver uma memria bem treinada.

Contudo, para cada professor ou aluno intolerante, havia igual nmero
de pessoas que se importavam comigo. E estas permaneceram muito mais em
minha mente. Lembro-me
de um professor de Geografia que percebeu a minha impossibilidade de ver
as partes menores e os diversos sirais e smbolos dos mapas e
diagramas. Quando ficou claro
para ele o que estava aconte        ,cendo, ou melhor, o que no
estava acontecendo, ofereceu-se para me ensinar fora da escola. Foi
muita gentileza dele e o resultado
dessa dedicao apareceu nos exames de fim de ano, quando consegui o
segUndo lugar em Geografia.

Dessa forma, tendo chance, eu me encarregava de fazer o resto, e a
questo de eu ter de ser transferida para uma escola de cegos nunca
chegou a ser colocada de forma
sria, muito embora minha viso estivesse se tomando cada vez pior.
Eu conseguia ir me ;nantendo e a maioria das notas obtidas foi boa,
especialmente nas matrias
em que as aulas eram expositivas e eu podia confiar na memria. Tive
resultado especialmente bom em Histria e Cincias, em que
tnhamos de fazer nossas experincias
elementares. Eu tinha pouca dificuldade para lembrar dos artigos da
Magna Carta ou dos nomes das esposas de Henrique VIII; nem tive
problema, por estranho que parea,
em manipu
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lar o bico de Bunsen. Mas em matrias como Geografia, a menos que eu
tivesse um professor me dando aulas extras, eu no era boa. Em
Matemtica eu era quase nula;
minha habilidade no dava para fazer as divises muito grandes. Isso
porque no conseguia seguir, junto com os demais alunos, a
instruo passo a passo transmitida
com auxlio do quadro-negro. Pode-se imaginar os problemas que
enfrentei com os pontos decimais.

Quando se aproximou o Dia de Visitao dos Pais, a Srta. Thompson,
nossa professora de Cincias, resolveu que os alunos deveriam dissecar
algumas flores e colocar
as diversas partes delas num papel com os respectivos nomes. J
tnhamos feito isto em Biologia e, devido a sua ntrincada natureza,
era algo em que eu no me sara
bem. Uma pessoa muito compreensiva, a Srta. Thompson chegou-se a mim e
disse:

- Sheila, sei que isso no ser fcil para voc. Gostaria que eu
lhe desse outra atividade para o Dia dos Pais?

- Sim, por favor - respondi imediatamente.

No desejava ficar de lado enquanto os outros alunos dissecassem suas
flores, recebendo o olhar dos pais, que certamente pensariam: "Ah,
aquela deve ser a menina
que no consegue enxergar direito."

Infelizmente, no achei a idia da Srta. Thompson muito boa. No dia
da sua aula ela me falou:

- Encontrei algo para voc fazer e l atrs tem uma mesa para
voc trabalhar. - Levou-me at a mesa e ento explicou:
- Aqui esto alguns potes vazios de gelia. Quero que voc ponha
gua neles. Cada um dever receber uma quantidade diferente de
gua. Depois voc poder bater neles
com o lpis e mostrar os diferentes sons de cada um.

Fiquei aterrorizada. Nada me faria ficar mais destacada dos outros do
que isso.

- A senhora no pode arranjar nada diferente para eu fazer? No
poderia limpar as gaiolas dos hamsters?

Ela pareceu um pouco desapontada e respondeu:

- Pensei muito para conseguir esta tarefa, Sheila. Pensei que gostaria
de faz-la.  algo que voc pode fazer. Pode ouvir o resultado do
seu trabalho e tambm sentir
a gua.

- Sim, mas me parece algo to infantil, especialmente porque os demais
esto fazendo algo realmente importante.

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Mas suponho que ela estivesse muito orgulhosa da sua idia. E no me
deixaria fazer outra coisa. Ento tive de encher os potes de gelia
e depois ficar batendo neles
para fazer barulho. Todo o tempo pude sentir os olhares dos pais sobre
mim. Com uma piedade que eu no desejava.

Fiz amigos na escola, mas no to depressa quanto as outras
crianas. Principalmente porque no podia participar das
brincadeiras delas. Eu tentava me juntar aos
outros, mas nunca conseguia me manter nos jogos. Embora fosse quase
impossvel para mim jogar tnis, eu estava sempre inscrita neste
esporte. Fazia todo o esforo,
de p naquele mar verde com o traje branco, esperando desesperadamente
que a bola batesse na raquete depois de ultrapassar a rede. Mas no
consigo me lembrar de
ter obtido bons resultados. Outra grande dificuldade era encontrar quem
quisesse jogar comigo. E eu invariavelmente terminava com um
adversrio que no gostava de
tnis. Mas acho que Wimbledon no perdeu nada com isso!

Fora da escola a vida tambm era complicada. Tinha amigos mas, como
eu, eles eram adolescentes e nesta fase poucas pessoas esto prontas a
atender as necessidades
de uma amiga cega que precisa ser cuidada e levada pelo brao. Quando
saam  noite, talvez para ir ao Nottingliam Palais, na Parliament
Street, ou ao Jepson's,
outro salo de baile, eu queria ir com eles; mas, se eu fosse,
significava ter de fazer tudo que eles quisessem fazer e ir a todos os
lugares aonde fossem. O senso
de restrio era enorme mas no havia escolha, porque eu no
sairia sozinha. Quando ia a bailes, ficava completamente petrificada se
um rapaz me convidasse para
danan      , Sentia-me to assustada que cometia erros ou no
conseguia seguir seus passos. Por outro lado, quando ningum me
convidava para danar, eu ficava no
canto do sof, ansiosa, porque assim, sozinha, no conseguia ver
direito, alm de uma embaada sensao de luz e cores, em vez
dos pares danando. Meu pensamento
constante era: "E se todos forem embora com suas namoradas e namorados e
me deixarem aqui?" s vezes pensava tambm: "Ningum me tira para
danar porque sou cega."
Eu ficava sempre muito confusa e sentia-me como uni goivo com suas
ptalas fechadas. Lembro-me de uma ocasio particularmente
terrvel em que um rapaz chamado Philip
deixou-me no meio do salo depois que a msica terminou e ouvi todos
se afastando. Senti a desconfortante sensao de

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um vazio abrindo-se  minha volta  medida que os passos dos
danarinos os levavam para fora do salo. Fingi estar arrumando o
cabelo, mas por dentro estava aterrorizada,
at que uma das minhas amigas salvou-me daquela situao. Depois
disso desisti de ir a bailes, porque era sempre um sofrimento. Comecei a
odiar tudo aquilo, o que
me obrigou a abandonar o grupo de pessoas da minha idade. Como
resultado, tambm no tinha oportunidade nenhuma de encontrar
rapazes. Mesmo quando eu os conhecia,
eles me ignoravam e naturalmente isso me preocupava muito porque eu
tinha receio de jamais vir a me casar.

Mas, se a vida era mais difcil do que precisava ser devido a minhas
obstinaes e ao meu orgulho e a minha simples recusa de ser
considerada diferente das pessoas
com viso normal, havia compensaes em viver num lar com pais que
conheciam as dificuldades da cegueira e, mais que isso, sabiam que a
melhor forma de conviver
com elas era no se entregar. Eu era muito feliz por isso. Se no
conseguia fazer alguma coisa por no enxergar, minha me me ensinava
como fazer. Eu precisava ento
aprender e fazer sozinha. Por exemplo, enfiar linha na agulha. Mame
me ensinou isso de um modo bem simples. Um mtodo que uma pessoa que
enxerga bem jamais pensaria
em dnsinar a um cego. O mtodo consistia em apanhar a agulha (a parte
onde fica o furo pode ser identificada porque  mais grossa que a
ponta) e segurar a linha
entre o polegar e o indicador; depoi empurrar a agulha entre os dois
dedos. Finalmente a linha entra pelo buraco da agulha. O sucesso no
 logicamente imediato.
P- preciso tentar algumas vezes, 2O que sejam. Mas finalmente
consegue-se o resultado esperado.

Aprendi tambm a costurar desenvolvendo a capacidade de sentir as
coisas. Pregar um boto, por exemplo, era fcil e todas as outras
coisas mecnicas tornaram-se
possveis para mim, graas a minha me, que me ensinou a usar o
sentido do tato.

- Sinta - ela dizia.

Isso se aplicava at a sentir onde estava a poeira na hora de varrer o
cho, e sentir uma segunda vez, e uma terceira, para certificar-se de
que a poeira estava
toda na p de lixo. Acontecia a mesma coisa quando ia passar roupa a
ferro. As pregas e dobras podem ser sentidas. Suponho, porm, que se
eu fosse uma criana cega
numa famlia com viso perfeita, jamais me deixariam chegar perto de
uni ferro eltrico com medo de que
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me queimasse. Em minha famlia, no havia alternativa. Cada um
deveria fazer o quanto pudesse, e assim fui criada.

Certa vez perguntei a mame se ela tivera idia alguma vez, antes de
eu nascer, de que eu no teria a viso perfeita. E fiquei espantada
quando ela disse que no
soubera o que poderia acontecer, mas que desejara correr o risco. Vendo
meu horror, ela ento me perguntou se eu gostava da vida que levava e
se realmente valia
a pena viver, apesar de todos os problemas. E  claro que respondi
afirmativamente. Ela correra um risco, mas percebi que estava com a
razo e que eu tinha condies
de viver normalmente, apesar da cegueira, como as outras pessoas da
minha famlia.

Quando cheguei ao ltimo perodo na escola, a deciso sobre meu
futuro tinha de ser  encarada. O que eu realmente desejava fazer era
trabalhar com ces, porque sempre
os adorei. Nos fins de semana costumava     trabalhar nos canis
existentes prto de casa, sempre dando um     jeito para disfarar a
minha dificuIdade em enxergar
direito.    Aconteceu num sbado. Eu estava exercitando um co
pastor    alsaciano enorme e de repente, ele se soltou da coleira. Eu
no tinha a menor noo de para
onde ele tinha ido e fui invadida por um pnico imenso. E se ele
tivesse sado do quintal e fosse atropelado? Comecei a sacudir
freneticamente a guia do cachorro
e chamei por ele, chamei por ele. Para espanto meu, e alvio tambm,
ele atendeu e voltou imediatamente. Apesar disso, quando fui
entrevistada pela orientadora vocacional
e disse-lhe que desejava trabalhar com ces, ela nem deixou que eu
acabasse de falar. A idia foi desconsiderada como impossvel.

A primeira pergunta que ento me fez deixou-me surpresa:
- Sheila, pode me dizer onde  o Mar do Norte?

Mar do Norte? Alm das aulas de Geografia. eu estivera em pessoa em
Skegness, que fica no Mar do Norte. Mas no pude responder. Acima de
tudo, no conseguia entender
o motivo da indagao. Depois eu lhe perguntei.

- Bem, diga-me ento onde fica Birmingham.

Isso eu sabia. E tambm a resposta  pergunta seguinte:
- Sabe me dizer onde fica Edinburgh?

Depois de dizer a localizao de Edinburgh, reuni bastante coragem
para lhe perguntar o motivo da pergunta.

21
        - Bem, se voc for trabalhar como telefonista, e vou
recomend-la, deve ter uma noo de onde ficam diversos lugares.

Fiquei espantada. Telefonista! Este era o ltimo emprego do mundo que
eu desejava. Sabia que as opes para algum com problemas de
viso como eu eram restritas,
irias mesmo nos momentos de maior depresso jamais pensei em viver o
resto da vida fazendo e desfazendo ligaes telefnicas. Mesmo
assim, quando as aulas terminaram,
fui enviada ao Centro de Treinamento do Governo em Long Eaton para ser
treinada como telefonista. Sob o comando de um instrutor extremamente
brusco e rgido, chamado
Ted, aprendi as tcnicas do trabalho numa mesa telefnica. Em
seguida, com ajuda do Centro, consegui um emprego numa grande loja de
roupas de Nottingham. Nesta poca
ainda podia enxergar o suficiente para distinguir as luzes do, painel,
mas detestava cada minuto que permanecia no trabalho. Embora fosse
fcil aprender onde colocar
os diversos plugues, como fazer ligaes, dar recados e decorar os
nmeros dos ramais, a atmosfera do lugar era terrvel. Mesmo assim,
agentei aquilo durante um
ano, antes de me transferir para uma firma mais. agradvel em que as
pessoas eram mais amveis.

Ao voltar para casa certa tarde, mal acabara de fechar a porta quando
mame me chamou.

 voc, Sheila? Tenho novidades.

O que ? - perguntei, procurando o cabide para pendurar o casaco.

- Fiquei sabendo de um emprego que serve para voc. Mal conseguia
esperar para me fornecer todos os detalhes. Sabendo como ela se
preocupava pelo fato de eu andar
sozinha por Nottingham, percebi o    motivo do seu contentamento.

A colocao era numa empresa chamada Industrial Punips. Queriam uma
telefonista. O mais interessante era que a firma n(> ficava no centro
da cidade   e o trajeto
at l era mais fcil. No dia seguinte telefonei para  o Sr.
Dickson. A principio no pareceu muito entusiasmado e minhas
esperanas comearam a se esvair quando
ele disse que muitas pessoas haviam procurado a empresa atrs do
emprego. Achava, inclusive, conveniente no fazer mais nenhuma
entrevista. Contei-lhe ento que
era uma pessoa cega registrada e sua atitude mudou imediatamente.

- Por que no me contou isso logo? Venha ainda hoje e conversaremos.
Pode chegar aqui s cinco e meia?

22

Para surpresa minha, consegui o emprego imediatamente, mas somente mais
tarde vim a saber o motivo. O Sr. Dickson tambm tinha um defeito: uma
de suas pernas era
mais curta que a outra e ele caminhava com certa dificuldade. Na
verdade, mostrou-se muito compreensivo e no apenas nessa ocasio.
Era um homem maravilhoso, sempre
imbudo de paciIncia para ouvir os problemas dos outros.

 medida que o tempo corria, meus olhos tornavam-se piores, de maneira
imperceptvel. E aos 17 anos j no conseguia enxergar nada a
minha frente, tanto em casa
quanto na rua. Nesta fase j no conseguia ler e tinha de me valer
do braile. Percebi ento como tudo no vocabulrio normalmente usado
reflete o mundo das pessoas
que enxergam. A linguagem  relativamente pobre, em termos de
descrio precisa de sensaes que no sejam visuais, e por
isso os cegos ficam praticamente privados
de descrever suas percepes corretamente. O campo de referncia a
que me acostumara estava retraindo-se. Agora, no apenas as palavras
mas tambm as noes de tempo
e espao eram inexatas e arbitrrias e nem sempre correspondentes
s de uma pessoa com viso. Para aqueles acostumados a fazer isso, a
colocao da toalha no cabide
ou de uma xcara na prateleira  algo automtico. Uma pessoa cega
tem de pensar "seis passos at a porta, cinco passos pelo corredor
at o banheiro". Cada distncia
precisa ser mentalmente planejada.

Foi nessa poca, quando meu leque de possibilidades tornava-se mais e
mais limitado e meu futuro parecia ser um vcuo cada vez mais escuro,
que Emma entrou em minha
vida e transformou-a por completo. Um mundo novo abriu-se a minha
frente.

23

capitulo dois

Emma Chega

Para dizer a verdade, eu tinha vergonha de ser cega. Recusava-me a usar
a bengalinha branca.  preciso lembrar queeu era uma adolescente e
no podia suportar as
pessoas olhando para mim e percebendo que eu no era como elas.
Pensando bem, devo ter sido um perigo nas ruas, Os motoristas
provavelmente devem ter passado momentos
de aflio; de repente deparavam comigo caminhando no meio dos
carros, obrigando-os a parar instantaneamente. Fora isso, houve todos os
tipos de desastres no caminho
de ida e de volta do trabalho.

Certo dia, aconteceu algo que fez muita diferena em minha vida. Desci
do nibus para tomar outro que me deixaria perto de casa. Estava
andando cautelosamente, como
sempre fazia, at a parada do segundo nibus. Esbarrei em alguma
coisa.

- Sinto muito - disse automaticamente e tentei andar novam,ente, mas
voltei a me chocar.

Na terceira vez, percebi que estava me desculpando a uni poste. Esta foi
apenas mais uma das coisas idiotas que constantemente aconteciam comigo,
mas h muito eu
aprendera a no me incomodar com esses fatos ou a consider-los
engraados. Desviei-me do poste e segui para o ponto do nibus.
No havia ningum na parada e eu
tinha de descobrir sozinha que o nibus. estava se aproximando.

Geralmente, quando acontecia isso, j que detestava demonstrar que era
cega pedindo ajuda, eu procurava identificar o ru-do. As vezes fazia
sinal para caminhes
ou furges e, depois que eles passavam sem me dar confiana, eu
ficava ali como estpida, engolia meu orgulho e pedia auxlio a
algum que estivesse no ponto.

24

Mas nesta tarde no havia ningum na parada; era como se todos de
Nottingham tivessem decidido, subitamente, no andar mais de nibus.
Obviamente escutei muitos
nibus passarem, se  que eram mesmo nibus. Mas como resolvera
no fazer sinal com medo de bancar a boba, deixei todos irem embora.
Fiquei ali, parada, durante
meia hora sem fazer sinal para nada. Reselvi caminhar at o ponto
seguinte, na esperana de encontrar algum l.

Segui caminhando pela calada      o melhor que pude; esta  outra
assustadora experincia, difcil  de descrever a quem nunca foi
cego; porque, apesar de se estar
cercado de rudos, no se tem uma imagem mental coerente do que
est ao redor, e caminha-se orientado apenas pelos sons.     Os
rudos eram do trfego e dos passos
das pessoas. s vezes, pelo tipo de som, eu podia dizer se estava
passando perto de edifcios ou diante de espaos abertos. Mas no
tinha absolutamente nenhuma concepo
visual de como era a rua, muito menos do que estava do outro lado dela:
as casas, as lojas, as pessoas e assim por diante; aquilo poderia ser o
fim do mundo ou outro
universo. Haveria crianas brincando, pessoas conversando, mulheres
comprando po ou batata? Como seriam essas pessoas? Quem seriam elas?
Eu no fazia a menor idia.
Caminhava encerrada num mundo cinzento, uma caixa de' sons, um pequeno
quadrado colocado em torno de mim.

Finalmente cheguei ao outro ponto de nibus. Mas ali tambm no
havia ningum e nenhum nibus tampouco parou. Camnhei, ento,
at a parada seguinte e depois at
a outra, e at a outra. Neste ponto eu j estava completamente
perdida e no sabia se estava parada num ponto de nibus ou ao lado
de um poste. No fim das contas,
resolvi andar oito quilmetros at o terminal, na cidade, porque
sabia que se chegasse l tomaria o nibus certo. E foi isso o que
aconteceu, mas a essa altura eu
j estava mais de duas horas atrasada no horrio de chegar em casa.
E sentia-me muito mal quando l cheguei.

Acredito muito no Destino. Aquela foi a maior influncia em toda minha
vida e tenho certeza de que o Destino tinha escrito que meu professor
assistente estaria em
minha casa quando eu finalmente chegasse l. Os professores
assistentes visitam os cegos. Aparecem com regularidade para auxiliar,
resolver algum problema e para
entregar diversas formas de ajuda, como

25

relgios em braile, marcadores de tempo e outros objetos. O Sr. Brown,
que costumava visitar minha famlia (j que ramos todos
registrados como cegos), acompanhou
todo meu desenvolvimento. Era como um tio. Mame sempre lhe
encomendava fios de l, que podiam ser comprados mais baratos
atravs dele do que na loja. Quando era
pequena ele me levava pequenos presentes e de um desses, uma boneca com
culos, eu gostava demais.

O Sr. Brown estivera esperando por mim cerca de uma hora. Expliquei o
motivo da demora e contei-lhe todos os detalhes do pesadelo que fora
aquela viagem de volta.
Ele imediatamente perguntou:

Por que voc no passa a usar um co-guia?

Aquelas foram as palavras mais importantes da minha vida at aquele
dia. Contudo a sugesto era espantosa. A idia de ter um co-guia
simplesmente nunca me ocorrera,
o que era estranho considerando-se minha ligao aos ces e a
esperana que alimentava de conseguir um emprego onde pudesse tratar
deles, Talvez devesse isso ao
fato de minha viso ir piorando gradativamente e tambm por fingir,
para mim mesma, que nunca a perderia por completo e que ainda
conseguiria enxergar, se quisesse.
No queria admitir que estava me tornando cega. Na verdade, no
acreditei no Sr. Brown quando ele disse que eu deveria recorrer a um
co-guia. Eu pensava, ento,
que as pessoas tinham de ser especiais para se qualificarem a ter um
coguia, que apenas umas poucas escolhidas poderiam fazer uso dessa
ajuda. Por isso nunca parei
para considerar esta possibilidade. Mas o Sr. Brown prosseguiu:

-   Voc realmente precisa de um co-guia e est na idade ideal
para ter uni.

Eu no conseguia assimilar a idia. Seu impacto era tremendo, como
se algum tivesse pego o mundo e mudado todas as disposies e
direes.

- O que devo fazer? - perguntei.

Ele respondeu de modo firme e com voz encorajadora.
- Bem, vou lhe dizer. Trarei os formulrios para voc e depois ns
os preencheremos juntos. Escreverei para voc o que for preciso.

Quando ele foi embora, fiquei sentada, pensando. Lembrei, ento, dos
livros que tinha lido sobre os ces usados como guias. Percebi que
aquilo significaria no ter
de passar novamente pela

26

terrificante experincia por que tinha passado aquela tarde,
perambulando de um ponto a outro perdida na escurido da cegueira e
sem saber onde estava. Eu poderia
sair  noite: poderia

ser independente!
      1 Poucos dias mais tarde o Sr. Brown voltou com os formu
1 lrios: pginas e mais pginas de perguntas. Qual a minha altu
ra? Em que trabalhava? Em que tipo de casa morava? Quais os meus
hobbies? Queriam saber at o meu peso. Enviamos os formulrios e
chegou a resposta do centro de
treinamento de Leamington Spa informando que enviariam um treinador de
co-guia para avaliar minha personalidade e selecionar um animal
adequado para mim. Fiquei
entusiasmada, mas nervosa tambm, porque no fundo da minha cabea
estava indagando: "E se acharem que no sirvo?" Esta possibilidade era
chocante. Quando o treinador
chegou, foi comigo ver onde eu trabalhava e o que fazia. Samos para
uma caminhada juntos a fim de que ele pudesse observar meu ritmo de
andar e ver se eu tinha
alguma caracterstica estranha. Examinou a casa onde morvamos, que
praticamente no tinha jardim nos fundos e que no era cercada, e
disse, quando expliquei que
pensvamos em mudar:

- Vocs precisam ter um jardim bem cercado para o co. Por ltimo,
disse-me que havia uma lista de espera pelos ces-guias e que levaria
de nove meses a um ano para
que eu tivesse o meu.

Isso foi em novembro de 1965. O tempo de espera converteu-se numa
agonia, numa frustrao constante. Sempre que chegava uma carta, eu
a apanhava e tentava arranjar
algum que a lesse para mim o mais rpido possvel. Durante esses
meses tive tempo de descobrir a Associao dos Ces-Guias. Fora
criada em 1934, mas a primeira
idia de usar ces para guiar pessoas cegas nasceu na Alemanha
durante a    guerra 1914-18, quando um mdico, tendo sob seus cuidados
alguns pacientes que haviam
ficado cegos em combate, certo dia deixou seu pastor alsaciano cuidar de
um dos soldados. E ficou espantado pelo modo como o animal realizou a
tarefa. A idia espalhou-se
pelo Atlntico e voltou  Inglaterra. Contudo, por incrvel que
parea, o uso de ces como guias sofreu oposio na Inglaterra
porque consideravam-no antinatural,
at mesmo cruel, pois os ces eram postos para trabalhar dessa
forma. Felizmente, surgiu a Associao depois de um rduo trabalho
e dos esforos de volun
27

trios. Atualmente, h quatro centros de treinamento para os ces
e seus proprietrios: em Bolton, Exeter, Forfar e Leamington Spa;
alm de sedes em Ealing, perto
de Londres, e um Centro de Reproduo e Treinamento de Filhotes
perto de Warwick.

Fiquei sabendo tambm que alguns cegos so rejeitados devido a
diversos fatores, e isso preocupou-me. Mas a carta que eu aguardava com
tanta ansiedade chegou mais
depressa do que eu pensava ser possvel. O ms de maio estava quase
acabando i

e eu normalmente teria ainda mais cinco semanas de espera.
1

Poderia comparecer ao centro de treinamento, em Leamngton Spa, a 19
de julho? Se eu poderia? Estava preparada para acampar na porta do
centro, a fim de no chegar
atrasada.

1                Finalmente chegou o dia P? de julho. Era um dia,
segundo minha imaginao, radiante: agradvel e ensolarado.
Obviamente no poderia ir sozinha de
Nottingham a Liamington Spa., Mas sentia-me muito feliz. Geoff, um dos
representantes da firma onde eu trabalhava, ofereceu-se para me levar em
seu carro. Eu j
estava pronta e com as malas fechadas muito antes de ele me chamar, s
nove horas. Seguimos pela rodovia Ml tomando o rumo sul. Geoff
esforando-se ao mximo para
descrever a paisagem. Eu no gostava de viajar, pois no havia nada
a fazer, a no ser ir de um lado para outro. As descries de
Geoffi, contudo, no permitiram
que eu sentisse aquele enfado. Na verdade, porm, no conseguia
imaginar todas as coisas que ele me descrevia. No possua uma
imagem mental do que era um campo
porque no me lembrava de jamais ter visto um, muito menos uma vaca.
Lembro dele dizendo-me:

- Como voc acha que eu sou? Voc deve ter uma. idia de como sou.

- Sim, formo uma imagem quando ouo as pessoas, da mesma forma como
voc deve fazer a imagem de unia pessoa que escute pelo rdio. Mas
quando voc olhar a foto dessa
pessoa que ouviu no rdio as duas imagens no vo coincidir, no
?

- Claro, voc tem razo. As imagens no coincidem respondeu.

- Bem, no me culpe se formei uma imagem errada sobre voc ... Acho
que tem cabelos pretos, ondulados, e sei que tem cerca de um metro e
setenta, porque posso calcular
quando voc est de p e fala.

1            28

- Muito bem        ele disse sem fazer qualquer comentrio. Depois
perguntou:      Voc sente o rosto das pessoas para formar uma imagem?

Eu respondi que no, mas no disse o motivo. Seria como revelar a
todo mundo que eu no enxergava,

Mais ou menos na metade da viagem Geoff perguntou se'       e)J gostaria
de parar para tomar caf. Eu realmente no queria parar. Por um lado
desejava chegar a Leamngton
o mais depressa possvel; por outro, detestava ir a lugares estranhos
onde sabia que haveria muitas pessoas, porque sempre me sentia
embaraada. Mas finalmente concordei
em pararmos, principalmente porque achei que Geoff queria tomar caf.
Samos da estrada e entramos num grande estacionamento. Geoff foi
atencioso, o segurou meu
brao, no percebendo como era irritante ser levada assim por todo o
caminho. Ao deixarmos o estacionamento, Geoff disse:

- Degraus, Sheila.

Foi timo saber daquilo mas ele no disse se a escada s      uba
ou se descia. Achei que subia. Errei. Acho que devia ter perguntado para
me certificar.

Ele me conduziu, ou melhor, me impeliu pelas portas. Tive a impresso
de que estvamos num salo muito grande, cheio de mulheres e
conversando. Podia sentir os perfumes
e o cheiro de caf. Imaginei que fossem 11:00. Deviam estar todas ali
para o almoo.

Fiquei sozinha enquanto Geoff saa para apanhar o caf. Entrei em
pnico. Sentia-me desesperadamente s e com vontade de sair
correndo. Ento outro embarao surgiu.
Senti vontade de ir ao toalete. Mas no queria pedir a Geoff. Embora a
situao no fosse nova para mim, sempre a achava humilhante. Isso
me lembrou a escola primria,
minha mo levantada: "Por favor, professora, posso sair um instante?"
Quando tive coragem bastante para tocar no assunto com Geoff, ele foi
muito bondoso e imediatamente
concordou:

- Ah,  claro. Vou pedir a algum que leve voc.

Ou ele no percebeu meu embarao ou disfarou muito bem.
Levantou-se e foi providenciar a acompanhante. Pelo jeito ele deve ter
pedido a gentileza  mulher mais
forte do salo, pois no dia seguinte eu ainda tinha uma mancha roxa no
brao. Ela me segurou pelo brao e me puxou da cadeira com fora
bruta.

29

- Venha, querida. Vou levar voc, Coitadinha, no pode enxergar.

E literalmente me empurrou pelo salo. Esbarrei em tudo que havia 
frente durante o trajeto: mesas, cadeiras e at num copo e num pires,
que saram voando. Eu me
sentia como um touro furioso numa loja de porcelanas. Mesmo quando
estava no toalete, ela insistiu em montar guarda do lado de fora,
perguntando de vez em quando:

- Voc est bem, querida? Ou:

- Tem certeza de que no precisa de ajuda?

Eu no sabia se chorava ou se ria. Mal podia esperar, depois de
libertada da mo de ferro daquela mulher, para entrar no carro e
percorrer a ltima parte da viagem
para Leamington.

O centro de treinamento, Geoff me informou quando chegamos l, era
grande, uma casa ao estilo dos Tudor e cheia de rvores ao redor.
Ficava no centro de um imenso
terreno. Enquanto aguardvamos que algum viesse nos atender, tive
um breve instante de receio, "E se eu no conseguir fazer o que eles
ensinarem no curso? E se
disserem que no tenho condio de ter um co-guia? O que
acontecer?" Era uma sensao estranha. E eu tremia ligeiramente
quando a recepcionista chegou. Ela instantaneamente
dissipou aquele pnico.

- Ol, Sheila, estvamos aguardando voc. Segure meu brao que
vou mostrar o seu quarto.

Desta vez no houve empurres nem puxes. Geoff despediu-se e a
recepcionista levou-me por uma srie de corredores, subindo vrias
escadas. Parecia um lugar enorme.
Enquanto caminhvanios, ela me explicava a disposio do centro e
o caminho para a sala de jantar, saguo, o banheiro, os toaletes e
assim por diante. Finalmente
chegamos ao meu quarto.

- Pronto - disse a recepcionista - nmero dez.

Parou e pediu para eu colocar a mo na porta. Para surpresa minha,
senti "nmero dez" em braile.

- Todas as portas so numeradas ou marcadas como esta. De modo que
voc no ter problema para se locomover.

Eu estava meio atordoada. Finalmente um lugar em que as pessoas
realmente entendiam a situao de um cego. Compreend isso melhor
ao sentir o "nmero dez" na porta
do quarto. Eles
30

querem realmente que todos se sintam  vontade, pensei enquanto meus
dedos percorriam aquela inscrio.

Em seguida a recepcionista introduziu-me no quarto e descreveu a
disposio do seu interior. Eu,  lgico, precisava
"fotograf-lo" atravs do tato e da estimativa
de distncia entre os obstculos. Bem atrs da porta ficava uma
poltrona e depois o guarda-roupa. Fui passando a mo pela parede e
encontrei minha cama e depois
o rdio e a mesa. No canto ficava a pia com gua quente e gua
fria. Na mesma parede estava a penteadeira. Descobri um espelho sobre a
penteadeira e a recepcionista
deve ter percebido a expresso que fiz.

- Ah, sim - disse ela - o espelho. Voc vai querer saber por qu.
Bem, acontece que se no tivermos coisas normais como espelho e
lmpadas nos quartos ficaria um
pouco estranho para as pessoas que enxergam, principalmente as que
trabalham aqui. Desejamos que voc conviva com as pessoas que enxergam
e aceite esse tipo de coisas.

Maravilhoso, pensei, integrao...

Havia apenas mais um mvel a examinar e era o mais mportante. Junto
 penteadeira ficava a cama do cachorro. Parecia slida. Passei a
mo no interior: havia colcho
e lenol. Era muito confortvel. Quando acabei de examin-la, a
recepcionista falou:

- Bem, Sheila,  isso. Vou deixar voc desfazer as maIas. A
refeio ser servida daqui a meia hora.

Ouvi a porta sendo fechada e comecei a desfazer minha bagagem. Para ir
ao guarda-roupa eu precisava evitar a cama do cachorro. Toda vez eu mo
detinha e a tocava,
ficava imaginando que animal dentro em breve estaria dormindo ali.

Uma batida na porta interrompeu meus pensamentos. Ouan~ do a abri,
algum disse:

Ol, sou Brian Peel. Sou o seu treinador. o

Ele no treinava apenas os ces, mas tambm ensinava as pessoas a
usar os animais. Seu aperto de mo era amistoso. Senti logo que
amos nos dar bem.

- Se quiser descer comigo, posso lhe mostrar onde ficam o saguo e a
sala de jantar.

Fomos at o saguo e ele explicou a geografia do salo.

- Todos se encontram aqui pela manh, para comearmos  o dia de
treinamento. H cadeiras por toda a volta. Se voc
31

as seguir para a direita achar o rdio e a televiso. Do outro
lado h livros e jogos em braile... H a mesa de caf ... se
voc lembrar que a mesa fica onde o
carpete termina, no esbarrar nela.

Enquanto caminhvamos para a sala de jantar, surgiu em minha mente
certa ansiedade por estar longe da famlia. Eu detestava fazer as
refeies com pessoas de viso
normal. Isso sempre me provocava algum tipo de embarao. Elas se
ofereciam para cortar a carne para mim e achavam que seria melhor se eu
comesse com uma colher em
vez de usar garfo e faca. Ou dizam: "Querida, se eu soubesse que
voc no enxergava teria feito sanduches". Nessas ocasies, eu
me sentia to desmoralizada e nervosa
que mal conseguia comer quando finalmente o prato era colocado diante de
mim. No sabendo o que havia no prato, muito menos onde exatamente
estava a comida, eu acabava
espetando o garfo no ar, errando as batatas ou seja o que fosse e
mordendo o garfo vazio.

No centro de treinamento era tudo totalmente diferente. Brian sentou-se
a meu lado e ps o prato na minha frente.

- Aqui est. Peixe, batata frita e ervilhas. As batatas em frente, as
ervilhas  direita e o peixe esquerda.

Assim, eu no apenas sabia o que    iria comer mas tambm onde
encontrar o alimento. Conversamos durante a refeio.
- H outra pessoa aqui para ser treinada? - perguntei.
- Voc  a primeira a chegar -       Brian me informou. Chegaro
mais trs esta tarde.

Ento, antes que muitas batatas e ervilhas fossem saboreadas, fiz a
pergunta que estava nie inquietando:

- Quando receberemos os ces?

- Dentro de um dia ou dois, quando soubermos um pouco mais sobre voc
e voc conhecer um pouco os ces. Sabe como . Algumas pessoas
nunca tiveram um bichinho de
estimao em casa. E no saberiam como cuidar de um co-gua.
Portanto, primeiro ensinamos como tratar do co. Depois,  lgico,
voc no pode trabalhar com um
animal se no souber como ele  treinado e a que comandos
obedecer.

- Entendo. - Houve uma pausa. Em seguida perguntei: Voc j escolheu
o co que ficar comigo?

- Acho que sim - respondeu Brian - mas dentro de dois dias terei a
confirmao. Veja bem, eu conheo os animais
32

mas no conheo os alunos, embora todos tenham preenchido os
formulrios. Procuramos fazer com que o co se adapte o melhor
possvel ao futuro dono. Por exemplo,
se o dono for jovem e puder andar depressa, queremos um co que possa
andar depressa tambm. Se o dono  mais velho, procuramos um co
que caminhe mais devagar.
De um modo geral tentamos combinar  as caractersticas. O seu co,
ou seja, o que eu penso que ser seu, foi treinado por uma mulher que
morava numa casa em que
no havia homens. Esse animal, uma cadela,  um animal  de mulher.
Quer dizer, convive melhor com mulheres do que com homens.  muito
sensvel tambm e como voc
j cuidou de ces antes, achamos que vocs duas se daro bem.
Mas, apesar disso, voc, como todos do curso, ter de se acostumar a
ela.

Depois da refeio, voltamos ao saguo e encontramos os outros
alunos, que haviam chegado enquanto estvamos comcndo. Dois deles eu
fiquei conhecendo muito bem.
Dotty (Dorothy era seu nome), que tinha cerca de 34 anos e fora ao
centro apanhar seu segundo co-guia. O outro era Harry, um homem de 49
anos que ficara cego durante
a guerra. Estava ali para apanhar o terceiro co-gula.

Durante a tarde, Brian comeou a nos dizer o que devamos esperar
durante o ms em que ficaramos ali. Contou-nos como treinava os
ces e como seramos treinados
para us-los. Tendo a meu lado duas pessoas que j haviam
participado do curso, eu me senti como um recruta, pouco  vontade.
Sem motivo. Brian explicou que mesmo
as pessoas que j tiveram cesguias deviam voltar ao centro e ser
retreinadas com seu novo co. As tcnicas de treinamento estavam
sendo constantemente aperfeioadas
e, alm disso, o co precisava ficar um ms com seu novo dono para
transferir sua obedincia e afeio para ele, coisas que
normalmente o animal tinha em relao
ao treinador.

 noite, Dotty e Harris falaram sobre seus primeiros cesguias e
achei maravilhoso ouvir suas histrias. Na hora de dormir subi para
meu quarto mas me senti muito
s. No quarto ,io dado do meu, Dotty estava ouvindo rdio. E por
isso decidi bater em sua porta.

-  Sheila. Posso entrar?

- Claro, a cadeira est atrs da porta. Sente-se. Sentei-me e tentei
puxar conversa, mas Dotty no me pareceu muito comunicativa. Na
verdade, achei-a perturbada.

33

- Quer que eu v embora?
- No, por favor. Fique. Tentei alegr-la.

- Voc no est ansiosa para ver seu novo co? Mal consigo
esperar para ver a minha. - Ao ouvir isso, para espanto meu, ela rompeu
em lgrimas. - Oh, querida, qual
o problema?
O que eu disse de errado?

- Est tudo bem  ela respondeu entre soluos. - Vai passar. Mas
no quero outro co.

Fiquei aturdida com a resposta dela.
- No quer outro co? No entendo.

- Voc entenderia se j tivesse tido um co. - Acontece que Paddy,
seu primeiro animal, no pde mais continuar com ela, porque estava
doente, e foi mandado para
a casa de amigos, perto da casa de Dotty. - P- to terrvel - ela
continuou - deixar Paddy para trs e vir buscar outro co. Sinto
como se estivesse traindo Paddy.

Tentei consol-la.

- Mas se Paddy j no podia continuar trabalhando, acho que ficar
contente em ver um outro em seu lugar...

- No sei.

- Para seu prprio bem, voc precisa transferir sua afeio.
- Sim. Sei que voc tem razo. Mas  mais fcil falar do que
fazer. No momento no me sinto capaz de amar outro co.

No havia nada mais que eu pudesse fazer. Desejei-lhe uma boa-noite da
maneira mais afetuosa que pude.

Na manh seguinte, toda a tristeza havia desaparecido. Por volta das
sete e meia fui acordada por um grande coral de latidos, no muito
longe dali. Foi o mais maravilhoso
som que ouvi em muitos anos. Qual deles, dentre esses, ser o meu
co? Foi o que pensei ainda meio adormecida. Que latido ser o dele?
Corri para tomar caf. Queria
chegar logo para comear a receber instrues. Quando estvamos
todos reunidos no saguo, cada um de ns recebeu uma guia branca
para os ces e logo comearamos
a aprender a us-la. Havia um modelo de plstico no tamanho natural
de um co, que usvamos para demonstrao. Ns o chamvamos
de Fred.

- Seus ces - Brian comeou - esto acostumados a trabalhar com
treinadores especializados que enxergam. E que

34

no chegam perto deles vacilantes, tentando encontrar o lugar de
colocar a guia.  aqui que entra o Fred. Vocs podem treinar nele
primeiro.

Depois que todos ns, um de cada vez, encontramos a extremidade
correta de Fred, Brian continuou a ensinar como devamos nos
posicionar junto ao animal: o co deve
ficar sempre  esquerda.

- Esses exerccios - prosseguiu - podem parecer triviais. Mas vocs
recebero um co muito bem treinado. O mnimo que podem fazer 
tentar dar a impresso de que
so donos completamente treinados.

Colocada ao lado de Fred, aprendi como instru-lo.

- Vamos dizer que voc esteja dizendo ao seu cao para ir para a
frente. Indique sempre com o brao direito a direo que voc
deseja. Isso ajudar o co.

Minha primeira tentativa foi inacreditavelmente dbil.   Brian
comeou a rir.

- Se voc fosse comear pela direo que indicou, teria de pular
por cima da cabea do seu co. Comece outra vez.     No. No
fique atrs dele, voc vai pisar no
rabo do cachorro.

E assim por diante. Era bom ter Fred como modelo          para praticar.
Pelo menos sua cauda de plstico no sentia o       peso do meu
p.

Nossa prxima lio foi aprender a seguir o co. Brian tazia o
papel de co porque Fred ainda no tinha recebido as rodinhas.
Segurando a guia simulada e com Brian
 frente, samos pelos jardins do centro. Era muito difcil
segui-lo e parar e prosseguir. Eu me sentia como se tivesse dois ps
esquerdos e no final do primeiro
dia de treino estava convencida de que jamais teria um co-guia. Mas
estava determinada a melhorar e a sensao da guia j era
importante para mim.

No saguo, depois do caf da manh, no dia seguinte, havia muita
expectativa e excitao porque todos ns sabamos que dentro de
pouco tempo conheceramos nossos
ces. Brian fez-nos uma explanao final e depois pediu que
voltssemos aos nossos quartos.

- Haver menos disperso l e vocs precisam conhecer seus
ces e vice-versa, com calma.

Subi ao nmero dez; j era capaz de ir sozinha at l sem
precisar de ajuda. Sentei-me na beirada da cama, esperando, com
35

a porta aberta e com tempo suficiente para ter um pensamento
inquietante: e se meu co no gostar de mim? E se ficar rosnando
para mim? Em seguida ouvi os passos
de Brian aproximando-se, no corredor. E tambm o som das patinhas
dela.

- Aqui estamos, Sheila - disse Brian ao entrar no quarto. - Aqui est
sua cadela; chama-se Emma.  uma labrador cor de chocolate.

Ao mesmo tempo ouvi o rudo da cauda dela abanando. Brian saiu e
fechou a porta.

- Enuna - chamei-a. Ela veio correndo, imediatamente, e quase fui
arremessada da cama. Depois fui lambida. - Ol, Emma.

Eu quase no acreditava naquilo. Ela continuou me lambeiido e
esfregando o nariz gelado em minhas mos. Senti que ns duas amos
nos dar bem. Ela gostou de mim,
pensei. Ela gostou de mim. Tive vontade de sair danando pelo quarto.

Tentei sentir o formato de sua cabea, mas ela no parava de pular
na minha frente, agitando-se e fazendo barulhinhos em minha mo. De
vez em quando o nariz molhado
roava no meti rosto. Mas finalmente ela se acalmou e sentou a meu
lado. E pude ento sentir como ela era. O plo grosso e rijo, o que
me lembrou um ursinho de pelcia.
Era pequena para um labrador; no era gorda, mas de compleio
grande. Tinha a cauda grossa e as orelhas macias como veludo. E era
muito esperta.

Emma no me deu muito tempo para que eu a acariciasse. Comeou a
investigar minhas coisas. Debaixo da penteadeira estavam meus sapatos.
Ela foi at l e os trouxe
para mim, um de cada vez. A mensagem era bem clara. "Estou aqui, sou
Emma. Sou sua cadelinha e este  meu presente, um sapato." Eu no
conseguia me lembrar de outro
momento mais feliz em minha vida. E a partir daquele instante, a
afeio de Emma jamais vacilou. A partir de ento ela jamais saiu
de perto de mim e eu, por minha
vez, tornei a responsabilidade de cuidar de todas as necessidades dela.

36

 capitulo tres

Treinamento

Meu primeiro passeio com Emma aconteceu naquela tarde, e ento ficou
claro para mim por que era necessrio que ficssemos durante um
ms treinando com os ces. Embora
Erama tivesse se afeioado a mim e nos dssemos bem, no fazia
nada do que eu lhe dizia. Obedecia apenas a Brian. A dedicao e a
obedincia a mim viriam apenas
com o treinamento.

Coloquei a guia em Emma e comeamos a caminhar por uma tranqila rua
prxima ao centro. Brian estava perto de ns. Ele deu o comando para
seguir em frente e antes
que terminasse de dizer a frase ns j estvamos andando
velozmente. Eu estava galopando, firmemente agarrada  guia.

Nunca vou conseguir control-la - disse eu.

Logo voc. se habituar - Brian respondeu. - Com a continuao
voc se adaptar. O problema  que voc se acostumou a andar
muito devagar.

Um co-guia faz em mdia seis quilmetros e meio por hora.
Enquanto uma pessoa com viso normal caminha a uma velocidade que
varia entre trs e quatro e meio quilmetros
por hora. Qual a minha velocidade anteriormente, no sei. Mas
certamente no era competitiva nem com a das pessoas mais lentas.
Finalmente consegui chegar a um ritmo
mais acelerado e comecei a pensar que devia aproveitar aquilo quando,
sem motivo aparente, Enuna parou. Quando percebi eu havia descido a
calada. Emma sentara-se
no meio-fio e eu ouvi o riso de Brian.

- No continue sem o co, esta  a lio um - Brian lembrou. -
Se voc continuar andando quando ela parar, acabar sendo
atropelada. Quando ela parar, voc pra
tambm.

- Bem, eu no sabia que ela ia parar. E voc no me disse nada.

37

-- No, voc tem razo. Mas ensinamos vocs a seguir o co.

Brian tinha 28 anos naquela poca, era muito agradvel e tinha bom
humor. Eu o imaginava com boa aparncia, cabelo louro e de culos.
Gostava dele especialmente
porque se recusava a fazer concesses  nossa cegueira. Esperava que
fssemos independentes. Em vez de nos mimar e dizer "ali, ali", quando
saamos do meio-fio,
ele transformava aquilo numa piada, o que era o melhor remdio. Pelo
menos para mim. Isso fazia com que eu levantasse e pensasse: "Certo. Vou
mostrar a voc que
posso ser boa com este co-guia."

Desta vez ento, voltei para trs de Emmia, segurei a guia novamente
e disse:

- E agora?

- Voc tem de atravessar a rua. Primeiro preste ateno para ouvir
se h carros passando. Se estiver tudo tranqilo, d a Emma o
comando de ir em frente.

Foi o que fiz quando percebi que no havia carros passando. Mas no
aconteceu nada.

- Ela sabe que  voc quem est atrs dela, no eu. Voc
precisa encoraj-la, para que ela tenha vontade de lev-la.

- Emma, querida - falei. - Voc  muito esperta.

E depois de algum tempo com esta persuaso, e de dizer as palavras "em
frente" de tempos em tempos, ela finalmente atra
vessou a rua.

Atravessar a rua com um co-guia  um trabalho de equipe: qualquer
coisa que se faa  feita em conjunto. Conheci pessoas de viso
normal que tinham uma idia errada
sobre isso. Geralmente pensavam que os ces no eram inteligentes e
usavam a guia somente para mostrar que seus donos eram cegos, um tipo de
pedido de ajuda, ou
ento pensavam que os ces eram superdotados e que os cegos eram uns
idiotas levados para um passeio ZD

da mesma forma que outras pessoas saem com seus cachorrinhos. A
importncia da parceria, ou mesmo sua existncia, passa
desapercebida para todo mundo, de um modo
geral. Minha funo, ao atravessarmos a rua, era ouvir e a de Errima
olhar. Somente quando eu no ouvia nada  que dava a ordem para ela
atravessar. Mas se eu me
enganasse e ela visse algum carro se aproximando, esperaria at que a
rua ficasse desimpedida.

38

Os ces--guias so ensinados a parar e sentar em todo meiofio e
aguardar a prxima ordem. Os quatro comandos bsicos so
"direita", "esquerda", "para trs" e "em
frente". E a pessoa deve se posicionar de modo a permitir que o co
possa obedecer corretamente ao comando. Por exemplo, quando se d o
comando de ir em frente,
deve-se apontar para a direo indicada com o brao. P- importante
tambm conversar com o co. E Brian lembrou-me disso, em nosso
primeiro passeio, depois que atravessamos
a rua.

- No deixe de conversar ou Erama pensar que voc dormiu.

O que devo dizer? - perguntei estupidamente.

No importa, desde que voc torne a conversa interessante. Conte a
ela, por exemplo, o que voc comeu no caf da manh.

E l fui eu, galopando pelas ruas de Leamington e falando em bacon e
ovos com uma cadela labrador cor de chocolate. Brian recomendou:

- Vocs esto trabalhando juntas. Se voc parar de falar, ela vai
parar de trabalhar. Precisa manter o interesse dela. Ela  uma cadela
e h muitos aromas agradveis
e interessantes ao redor, coisas passando que voc no pode ver.
Ento, a menos que converse com ela, Emma se distrair e vai parar
para cheirar o Poste.

Eu estava rouca quando terminamos o primeiro passeio juntas.

De-vo muito a Brian, no apenas pelo treinamento mas por unir Emma e
eu. A avaliao de tudo que ele sabia sobre ns duas resultou numa
dupla perfeita, como o tempo
provaria.

Lembro que certo dia perguntei a ele de onde Emma viera.
O que eu realmente queria saber era de onde os centros traziam os
ces. Brian explicou que eles vo para Leamington, ou para qualquer
outro centro, depois de receberem
um treinamento inicial quando filhotes. A Associao de Ces-Guias
tem um grande Centro de Reproduo e Treinamento de Filhotes em
Toligate House, perto de Warwick.
L h algumas cadelas reprodutoras e machos que depois de algum
tempo so doados como animais de estimao, j que uma
permanncia prolongada no canil no  recomendvel.
E viver numa casa com uma famlia  a melhor soluo. Ao mesmo
tempo, a associao controla os cruzamen
39

tos. Quando nascem as ninhadas, so escolhidos os animais que sero
treinados. Com cerca de dois meses de vida o filhote passa por diversos
testes para ver se 
corajoso, amistoso e capaz para ser treinado como co-guia. Os ces
aproveitados representam sessenta por cento do total e atualmente h
cerca de 20O cesguias em
todo o pas. Os restantes quarenta por cento vo para a
Associao, que os vende ou doa a criadores ou a outras pessoas. Mas
a taxa de rejeio  elevada. Os ces
esperam trs semanas para receber a aprovao final. Em caso
negativo, so devolvidos a seus donos. Em todos os casos os animais
escolhidos so geralmente fmeas,
porque o macho tem formao e natureza diferentes e no  to
tratvel quanto a fmea, que em qualquer caso  esterilizada para
se tornar um co-guia. Cerca de setenta
por cento dos animais usados so labradores como Emma, embora eu
prefira pensar que ela  nica, mesmo entre os Iabradores. Outras
raas usadas so o pastor alsaciano,
colly, golden retriever e cruzamentos de todas essas.

Uma vez feita a seleo, os filhotes so entregues a pessoas
chamadas de treinadores de filhotes, que moram perto dos centros de
treino e que ficam em suas casas
com caes-gulas potenciais durante aproximadamente um ano. Nesse
perodo, devem ensinar aos animais o bsico. Os ces aprendem a se
comportar e ser asseados, a evitar
os mveis, no pedir comida e a obedecer a ordens como "sentar",
"parar", "deitar" e "vir". E assim por diante. Aprendem a caminhar com a
coleira, mas no ao lado
dos treinadores, porque devero caminhar na frente das pessoas cegas a
quem serviro como guias. De um modo geral, os treinadores de filhotes
devem levar os animais
a toda parte para que eles no se assustem com o trfego, nibus
ou trens. Ou com rudos sbitos que possam ouvir. So instrudos
especificamente para levar os ces
s compras. Durante esta fase os filhotes crescem e acostumam-se 
vida na cidade e ao mesmo tempo devem se manter corajosos e amistosos.

Nesse ponto, Brian me informou, so enviados aos centros para
receberem o treinamento como guias, o que leva aproximadamente cinco
meses. Os treinadores de filhotes
fazem um trabalho maravilhoso. Eu no poderia fazer isso: ficar com um
co por um ano e depois entreg-lo; e depois receber outro e v-lo
partir e assim por diante.
Realmente admiro aqueles que fazem tanto para moldar a primeira
ligao bsica entre o co e o cego.
40
Naturalmente que, ao saber disso, eu quis que Brian me dissesse quem
treinara Emina quando ela era filhote. E ele respondeu:

- Algum chamada Paddy Wansborough. Ela  uma mulher formidvel.
Deu nove ou dez ces  associao depois de trein-los quando
eram filhotes. Ema foi entregue
a Paddy muito pequena. Recebeu o treinamento bsico por um ano e
depois foi doada  associao.

Decidi que uma das primeiras coisas que faria ao voltar para casa seria
entrar em contato com Paddy Wansborough. No dia seguinte, sa com
Emina novamente.  medida
que

o treinamento prosseguia, eu me acostumava mais a ela. Usvamos um
micronibus para nos levar a passeio por Leamngton. Isso era uma
parte vital do aprendizado porque
nos ensinava como usar o transporte pblico. Quando estvamos dentro
do nibus, com os ces deitados embaixo dos bancos, ouvi um grito de
Brian.

- Estou vendo duas patas marrons do lado de fora. Devem ser de Emina,
pensei.

Ele prosseguiu:

Voc quer que algum pise nela? No, claro que no.

Ento faa alguma coisa.

ZD

Fiquei imaginando se minha impresso sobre Brian fora errada. Mas
embora ele estivesse gritando muito comigo, devia saber o que eu estava
pensando.

- Ningum vai dizer essas coisas a voc, Sheila. Se no aprender
aqui, Emina sofrer, no voc.

Minha confiana em Emina crescia a cada dia, mas s senti que ela
tinha transferido sua afeio de Brian para mim no dcimo dia de
minha estada no centro. At ento,
ela dormira sempre na caminha dela, que ficava ao lado do meu leito. Mas
naquela noite, na hora de deitar, ela se recusou a ir para sua cama. Em
vez disso, enrolou-se
no cho, na direo do ineu travesseiro, e ficou ali, o mais perto
de mim que pde. Senti ento que tinha conseguido conquist-la.
ramos uma equipe, cada uma de
ns precisando da companhia da outra. Acordei na manh seguinte com
uma sensaco estranha. Parecia estar embaixo de um rolo compressor.
Enima tinha-se sentado em
cima de mim, tocandome com o focinho e dizendo, no tenho a menor
dvida, que j

41

era hora de descermos. Estava cheia de vida e exuberncia, e no
podia esperar mais. Quando me levantei senti que ela estava pulando de
alegria, por antecipao,
e ficou balanando a cauda perto da porta.

Uma das engenhosas maneiras de o centro nos familiarizar com o programa
do dia era usar mapas tcteis. Caladas, prdios e tudo mais era
feito em madeira, formando
um mapa de Leamington, de modo que podamos sentir com as Inaos,
previamente, o caminho que faramos mais tarde. Podamos localizar
tudo. As faixas de pedestres
e as paradas de nibus, inclusive. Enuna encontraria essas coisas para
mim, mas era preciso que eu estivesse na rua certa e o mapa ajudava
bastante a mantermos a
rota determinada. Nossos passeios tornavam-se cada vez mais complicados
e Brian procurava lugares onde houvesse obras para certificar-se de que
dominvamos bem o
desvio dos obstculos. As viagens de nibus e sadas para compras
tambm faziam parte do curriculum e eu realmente adorava fazer compras
com Emina. Ela no apenas
encontrava a loja mas tambm levava-me at o balco. Comecei a
esquecer que era cega. Ningum mais me deixava nervosa. Todos se
interessavam muito por Emina.

Mas as coisas nem sempre iam to bem. Eu no estava muito segura
para desviar de obstculos. Emma sempre reagia rapidamente e de um
modo geral eu no era to rpida
para acompanh-la. Ela via o obstculo, avaliava-o e tomava uma
deciso instantnea sobre que direo seguir. Antes que eu
entendesse o que tinha acontecido, ela
j tinha mudado de curso, de um lado para outro, deixando-me confusa.
Brian parecia estar sempre por perto quando eu cometia erros, mesmo
quando pensava que ele
estivesse acompanhando algum outro aluno. Subitamente eu ouvi um grito a
meu lado:

- Quando ela pular, pule tambm.

 mais fcil falar do que fazer. Em ocasies como essas, Emma
perdia a confiana e sentava imediatamente. Era como se dissesse:
"No adianta eu fazer minha parte
se voc vem atrs e acaba numa pilha de lixo." A nica forma de
faz-la voltar a trabalhar era me desculpando e prometendo agir melhor
da prxima vez.

Foi durante o curso de obstculos que aprendi uma das averses de
Emina. Chegou nossa vez e estvamos nos sain42

do bem. De repente Emina saiu correndo como um foguete e senti que eu
estava sendo carregada para o alto de uma inclinao toda gramada.
Quando finalmente paramos,
eu perguntei, quase sem flego:

- 0 que aconteceu, afinal? Por que ela fez isso?
- Foi o Napoleo.

- Napoleo? Quem  Napoleo? - pensei que Brian havia perdido o
juzo.

- Bem,  o gato. 0 gato Napoleo - respondeu Brian.
- Ali!

Mas ainda no tinha entendido por que Enima subira naquela
inclinao.

Brian, ainda rindo muito, explicou que Enima no suportava gatos. Ela
sabia correr atrs deles, mas se visse um saa disparada na
direo oposta, que desta vez era
a inclinao gramada. Brian congratulou-me por minha vivacidade e
velocidade ao segui-la. E disse que pensaria em ns duas se ficasse
sabendo de alguma expedio
ao Monte Everest. Fiquei pensando que o nico modo de curar Eirmia da
averso que sentia por gatos seria arranjar um. E coloquei isso na
minha lista de coisas a
fazer quando chegasse em casa.

 noite, quando estvamos sentados no saguo, Brian foi at l
e rimos novamente, lembrando de Enima e do gato. Depois fiz-lhe uma
pergunta cuja resposta deixou-me
mais encantada ainda  medida que o curso prosseguia. Como os ces
eram treinados para fazer as coisas espantosas que conseguiam fazer para
ns? Eu conhecia um pouco
sobre treinamento de ces pela experincia que tivera com eles. Mas
jamais podia imaginar que esses ces possuam certas habilidades.
J  muito treinar um co para
que ele se sente no meio-fio. Mas como trein-lo para desobedecer?
Perguntei a Brian:

- Por exemplo, disse a Enima para ir em frente ontem mas no tinha
escutado que uni carro estava se aproximando. Ela no avanou porque
tinha visto o automvel.
Como vocs treinam os ces para fazer isso?

Brian respondeu:

- Uma vez tendo-se um co basicamente treinado, vai-se  rua com ele
e espera-se que venha um carro. Depois ordena-se que ele atravesse a
rua. 0 co, naturalmente,
obedece. Mas o

43

treinador continua parado e o carro, dirigido por outro instrutor, freia
e faz muito barulho. E o co volta para a calada. Pela
repetio desse tipo de treino,
o animal fica condicionado a associar o veculo em movimento com
perigo e por isso, a despeito do instinto de obedecer, ele se recusa a
andar quando recebe a ordem.
Lgico que somente ces inteligentes respondero satisfatoriam
ente. E  por isso que temos de ser minuciosos com os testes que
fazemos. Testamos o carter e a aptido
do animal antes de comear.

- E os obstculos?

Brian explicou que ensinar um co a no levar seu dono para cima de
obstculos significa associar os obstculos com desprazer, para usar
uma palavra branda, e angstia.
Comea-se por algo.simples como um poste. 0 co leva o treinador em
direo ao poste,  imediatamente detido, bate-se no poste para
chamar ateno, e mostra-se o
caminho certo. Da prxima vez um NO bem forte  gritado quando se
bate no poste e mostra-se o caminho certo novamente. Ento, atravs
da repetio, o co finalmente
entende a mensagem e ao mesmo tempo aumenta-se a variedade de
obstculos, procurando-se incluir os mais freqentes encontrados
numa calada: pessoas.

Parecia algo simples, mas sei que existe um trabalho muito difcil por
trs de tudo. Os treinadores, Brian contou-me, trabalhavam com uma
venda     quando consideravam
que o co havia atingido um certo nivel de desempenho. Faziam isso
durante 15 dias, aproximadamente, para criar reais condies de
trabalho para o cao e dar-lhe
confiana.

Era interessante ouvir Brian dar essas explicaes e particularmente
com o que veio no ltimo perodo do curso: a desobedincia.
Estvamos nos aproximando do final
de nosso ms em Leamington e samos mais uma vez no micronibus.
As patas de Enima, desta vez, estavam bem escondidas debaixo do banco.
Brian disse-nos que iramos
 estao ferroviria para um ltimo teste.

Eu sempre detestara estaes ferrovirias por causa do barulho,
dos diversos e mltiplos obstculos e do senso geral de alvoroo
que, para quem  cego,  terrvel.
Esses lugares eram to odiados por mim que jamais ia a uma estao
ferroviria, muito menos andava de trem, mesmo tendo algum que
enxergasse como companhia. Mas
Brian foi inflexvel.

44

- Voc precisa se acostumar. Pode precisar andar de trem algum dia ou
ir esperar algum que chegue de trem. E agora voc tem Emma para
gui-la. Ela sabe fazer seu
trabalho muito bem. No haver problemas.

No fiquei convencida. Fomos para a estao. Coloquei a guia em
Ema. Brian disse:

- Certo. Vou estacionar o carro. Voc vai entrando, Enima conhece o
caminho. Daqui a pouco estarei com vocs.

Enima levou-me atravs das portas, desceu alguns lances de escada,
passou aqui e ali por pessoas, desviando delas; chegou finalmente 
plataforma e sentou-se. Eu
no fazia a menor idia do lugar onde me encontrava. Fiquei parada,
esperando por Brian. Pouco depois ele chegou.

- Certo, Ema, est sentada na beira da plataforma. H uma pequena
distncia entre o lugar onde voc est e a linha. Agora diga a ela
para ir em frente.

Fiquei petrificada e podia sentir minha espinha latejar.
- Voc s pode estar brincando - respondi.

- No, v em frente. Diga para ela ir em frente.

Fiquei parada, sem saber o que fazer. Este foi realmente uni teste
terrvel. Ser que tenho coragem? Eu estava to assustada que me
sentia mal. Naquele momento no
sentia a menor vontade de ter um co-guia. Tudo que ouvira contar
sobre esses ces, todo o treinamento que havamos feito, tudo que eu
sentia por Emina, tudo passou
por minha cabea, mas no significava nada. Eu queria apenas,
naquele momento, deixar a guia sobre o plo de Enima e ir embora, sair
dali, fugir, qualquer coisa.
Mas num i-nurmrio rouco dei conta de mim dizendo:

- Em frente.

Imediatamente ela se levantou e quase que com o mesmo movimento empurrou
seu prprio corpo contra minhas pernas. Depois comeou a me empurrar
para trs, afastando-me
da beirada da plataforma.

Nunca me senti to envergonhada na vida. Que vontade de me esconder.
Como pude ser to hesitante, to vil com Emina? Estava completamente
humilhada. Brian disse:

- Muito bem. Eu disse que Emina cuidaria de voc, qualquer que fosse
sua atitude. Pode dizer qualquer coisa a ela; se houver algum perigo
diante de voc ela a afastar.

45

E assim era. Conseguimos. A sensao de liberdade era incrvel.
Venci meus sentimentos de vergonha porque senti que
1

Emma os entendia e os desculpava. Naquela tarde caminhei com ela num
desfile em Leamington. A rua principal da cidade estava i 1

lotada. Caminhei com uni grande sorriso, acenando para aquelas
11          pessoas que ali estavam e pensando: no me importa que
vocs
1

vejam que sou cega. Tambm posso enxergar: tenho Enuna e
1           ela  tudo de que preciso.

46

capitulo quatro

Novamente em Casa

Logo chegou o dia de irmos para casa, Emma e eu. Por estranho que
parea, foi um dia triste. Estava chovendo. torrencialmente, e a
atmosfera refletia o que eu sentia
por dentro. Mesmo no podendo ver a chuva, estava muito abatida e
deprimida. Detestava a idia de ter de ir embora do centro, de
afastar-me de todos aqueles amigos
que ali fizera. E alm disso, eu no queria voltar para casa, embora
agora tivesse Emma e tentasse me convencer o tempo todo de que as coisas
certamente seriam diferentes
quando eu voltasse para Nottingham. Eu receava que por algum motivo
pudesse ser engolfada pelos velhos hbitos, apesar da presena de
Emma. Eu ainda no compreendera
que ela mudaria minha vida por completo. Ainda precisava colocar minha
confiana nela.

Cheia de apreenses, deixei Leamington com Errima, presa pela guia.
Chegamos a Nottingham. Estavam nos esperando e fomos para casa. Uma vez
l, tirei a guia e deixei
Emma solta: ela adorou. E todos gostaram dela. Ela percorreu a casa
inteirinha, cada
cmodo, cada cantinho; eu podia ouvi-la remexendo tudo, empurrando os
tapetes,
parando para cheirar as cadeiras e os ps da niesa. Ouvia tambm a
cauda de Erama agitando-se no ar. Ali, ela obviamente percebeu, seria o
lugar em que ela moraria
a partir daquele dia. Era um animal completamente diferente da Errima
responsvel que eu conhecera presa  guia, e pela primeira vez vi
que havia duas partes distintas
em seu carter: uma delas quando estava trabalhando, tomando conta de
mim; e a outra quando estava solta, totalmente alegre, cheia de graa
e energia, e to longe
de qualquer senso de responsabilidade quanto uma criana. Minhas
apreenses comearam a desaparecer.

47

Na primeira noite que passamos em casa, Emma dormiu nos ps da cama;
ela decidira que no havia outro lugar melhor para ela e pela manh
acordou-me com a insistncia
habitual. Lembrei-me ento de que naquela manh estvamos
comeando uma nova vida, juntas. Sairamos por Nottingham sozinhas.
Levanteime e comecei a me vestir. No
era hbito meu fazer isso, porque sou normalmente lenta, sonolenta.
Mas naquele dia no podia esperar. Queria descobrir como Emma e eu,
colocadas em teste, nos sairamos.

Depois do caf resolvi visitar alguns velhos amigos, Norman

t5

e Yvorme, que eu no via h muito tempo, embora no morassem
longe. A deciso de sair era um reflexo da liberdade que eu sentia.
Com Emma poderia percorrer Nottingham
inteira!

Eu estava com o endereo da casa deles na mente depois de fazer uma
consulta telefnica. No havia problema: o que eu precisava fazer
era sair do porto, dizer a
Emma para virar  direita, para o alto da rua, dobrar  direita
novamente, ir em frente at o fim, virar  esquerda e pedir-lhe para
achar o primeiro porto. E l
fomos ns.

Vinte minutos depois de sair estvamos chegando  casa de Norman e
Yvorme e eu estava tocando a campainha. Havamos conseguido. Para
qualquer pessoa que passasse
por aquela rua de Nottingham cheia de rvores e com as casas bem
afastadas umas das outras, construdas na dcada de 20, no havia
nada de extraordinrio naquela
cena: uma moa com um co esperando que abrissem a porta. Mas dentro
de mim havia uma grande sensao de triunfo: aquilo era um marco.

- Boa menina, Emma - fiquei dizendo para ela. Estava muito orgulhosa de
Emma.

Nornian e Yvorme ficaram muito contentes ao me ver e mais surpreendidos
ainda ao conhecer Erama, Fizeram muita festa com ela. Algumas horas mais
tarde voltamos para
casa. Encontramos a avenida principal pela qual deveramos seguir e
caminhamos por ela. Mas de repente percebi que tinha falhado. Com a
empolgao de que tudo seria
diferente com Emma, esqueci de contar quantas ruas tnhamos
atravessado. No caminho de ida para a casa dos meus amigos no houve
necessidade de contar as transversais
porque iramos at o final da avenida, que acabava num T. Mas para
voltar para casa era preciso ter contado. E
48

fiquei sem ter noo de onde mandar Emma dobrar  esquerda. Depois
de todo um ms de treinamento eu me esquecera de uma

 das rearas bsicas: contar as ruas transversais.

0 que fazer agora? Pensei: desta vez no h instrutor nenhum para me
salvar. Emma, sem saber de nada, estava me conduzindo com seu passo
acelerado e eu me sentia
como se estivesse numa corrida sem fim. No era s isso. Senti que
tinha abandonado Emina. Parecia ter-me esquecido dela devido  minha
indeciso. Ms tinha certeza,
tambm, de que ela jamais cometeria um erro que nos colocasse em
perigo. Eruma no estava nem um pouco amedrontada e, ignorando minhas
ordens, entrou numa das transversais.
Tentei det-la.

- No, Enuna. No! Volte, volte!

Mas ela no me dava a menor ateno. Eu por minha vez no a
largava e ento era obrigada a segui-la. Depois de algum tempo, ela
dobrou  esquerda novamente e sentou-se.
Instintivamente estendi a mo. Reconheci as luminrias e a porta de
madeira, que tinha algumas bolhas na pintura. Era a porta dos fundos de
minha casa. Se eu esquecera
de contar as transversais, Erama certamente havia lembrado de faz-lo!

Passado algum tempo que tnhamos voltado de Leamington, escrevi a
Paddy Wansborough, a maravilhosa mulher que ensinara as primeiras
lies a Ema. Quando digo "escrevi",
na verdade quero dizer falei, porque enviei a ela uma fita gravada
contando o que Enuna significava para mim como guia, depois de ter sido
treinada por ela. Ali
comeava uma correspondncia por fita cassete e tambm uma amizade
que perdura at hoje.

Atravs das fitas dela fiquei sabendo muitos detalhes sobre Enuna.
Paddy a recebera com dois meses de vida e enviou-me uma foto dela com
essa idade. Embora tivesse
de confiar na descrio que outras pessoas faziam da foto, era
maravilhoso ter uma fotografia de Emma da poca em que ela foi
retirada da ninhada para comear a
ser treinada como co-guia. Erama j tinha um ano e meio quando a
conheci e, portanto, eu no sabia de muitas coisas sobre sua vida. Mas
escutar as fitas de Paddy
era a melhor forma de suprir essa falta. Ela disse que Enuna sempre
pareceu uma cachorrinha ativa, interessada em fazer coisas, e que
parecia ter sempre algo em
mente. Isso confirmava a impresso que eu formara sobre ela.

49

Numa das fitas, Paddy contou-me uma histria que achei mais divertida
do que ela deve ter achado quando o fato aconleceu. Paddy tinha plantado
algumas cebolas no
quintal. Depois de terminar a plantao, foi para casa e deixou Emma
brincando no gramado, Cerca de    meia hora mais tarde Enima entrou em
casa parecendo muito
satisfeita. Quando Paddy olhou pela janela, viu ento uma pilha de
cebolas cuidadosamente arrumada junto  porta dos fundos. Emma tinha
cavado cada broto com muito
carinho e energia, e estava agitada por t-los devolvido  sua dona!

Logo que comeamos    a nos corresponder, Paddy convidoume a
visit-la em Yorkshire. Estavam organizando uma festa para arrecadar
fundos para o treinamento de ces-guias
e ela acertadamente achou que eu gostaria de levar Emma. Ao longo de
nossas conversas atravs de fitas cassete, senti que j conhecia
Paddy, mas fiquei imaginando
se Emma se lembraria dela. Assim que descemos do trem ouvi a voz de
Paddy nos gritando:
- Ei, Sheila. Como est?

Foi o bastante para Emma ficar agitada. Ela pulava em Paddy, fazia
festa, mas voltava sempre para perto de mim. Como se dissesse: "Estou
alegre por estar aqui, mas
no esqueci que sou sua."

Emma e eu comeamos a ir juntas para o trabalho, assim que retornei
 atividade. Nessa poca morvamos em CarIton, num dos extremos de
Nottingham, e eu trabalhava
no outro extremo, Bulwe11. Precisava apanhar dois nibus, tendo de
passar por Market Square, bem no centro da cidade, no percurso entre as
duas condues. 0 ponto
do primeiro nibus era no final da nossa rua, de modo que esta parte
do caminho era fcil. Erama corria pela rua com sua cauda levantada;
eu podia senti-la enquanto
andvamos. Com o passar do tempo, fui aprendendo como podia saber o
que ela estava fazendo atravs da guia. Podia saber se as orelhas dela
estavam deitadas ou em
p, se estava com a cabea voltada para a esquerda ou para a direita
e todos os pequenos movimentos que ela fizesse.

A partir de ento Emma passou a adorar andar de nibus. No era
propriamente pelo nibus, contudo. Um fator importante era a
admirao com que era recebida toda
vez que entrvamos num nibus, desde aquela primeira vez ."Oh, que
adorvel! Que
50

cor linda!" E assim por diante. Eu podia sentir Erama adorando aquela
sensao de glria. Ela escolhera o segundo banco  direita. Por
alguma razo especial, era
esse o lugar que sempre escolhia nesse nibus. Sentei-me e ela entrou
debaixo do banco. Por estranho que parea, este,era o nico nibus
em que ela demonstrava ter
sua preferncia: tinha de ser sempre no mesmo lugar. Depois que j
amos trabalhar juntas por trs semanas, estvamos nos aproximando
do nibus certa manh quando
comecei a ouvir um grande tumulto dentro do veculo. Ao me aproximar
mais, escutei uma mulher dizendo:

- 0 senhor no pode sentar a. Estou lhe dizendo que este banco 
de Erama. Vamos, daqui a pouco elas chegaro.

Em outros nibus, Emma simplesmente procurava um lugar vazio, de
preferncia, pelo menos no inverno, junto aos aquecedores. Mas j
que normalmente viajvamos no
horrio do rush, os nibus estavam geralmente cheios, com
exceo do primeiro. Nos nibus lotados, Erama usava uma tcnica
especial. Puxava-me pelo corredor, afastando
as pessoas, se houvesse passageiros em p, at escolher o lugar em
que desejava que sentssemos, Depois de feita a escolha, ficava
olhando para quem estivesse ocupando
o banco at que o homem ou a mulher que ali estivesse me cedesse o
lugar. Para ser justa, devo dizer que todos geralmente ofereciam o
assento rapidamente, antes
que houvesse algum tumulto. Isso,  claro, agradava a exibicionista
Enuna. Depois de se certificar de que agradara, voltava-se para mim,
punha a cabea nos meus
joelhos e olhava-me, imagino, especialmente devotada e de modo um tanto
pattico. A partir deste momento tinha conquistado o nibus.

Mas vamos voltar quela manh. Quando entrei no escritrio, havia
um comit de recepo. Embora todos dissesssem "Ol" para mim,
estavam mais interessados em ver
como era Emma. Novamente ela respondeu quela festa com muito
contentamento. E quando retirei sua guia, percorreu toda a sala. com a
cauda abanando, para ver todos.

Ela foi um verdadeiro sucesso. Depois que cada um voltou ao trabalho,
Emma inspecionou sua cestinha e brincou algum tempo com um boneco de
borracha que eu levara
para mantIa ocupada. Depois acalmou-se. 0 telefone j comeara a
tocar e logo seria como nos velhos tempos, com a grande diferena de
que agora eu tinha aquela
reconfortante amiga que dormia de
51

baixo da minha mesa. A manh correu tranqilamente e enquanto eu
esticava a mo para acariciar sua cabea, pensei como Emma era
calma. Mas onde deveria estar a cabea
dela minha -mo no encontrou nada. Corri a mo ao redor. Nada.
Enuna tinha desaparecido! Imediatamente levantei-me e fui ver se a porta
do escritrio estava aberta.
Sim, estava. Chamei por ela mas no obtive resposta. Uma grande
ansiedade tomou conta de mim. Ser que ela tinha sado? E se tivesse
ido para  a rua? E se estivesse...
perdida... E se ... Ento escutei o   som de patinhas caminhando
tranqilamente no corredor. Graas a Deus. Emma entrou e eu
perguntei:

- Onde voc esteve?

A resposta dela foi colocar alguma coisa sobre meu colo. No quis
acreditar no que meus dedos tocavam. Era uma bolsa. Fiquei horrorizada:

- Emma! Onde voc apanhou isso?

A resposta desta vez foi um gesto costumeiro: ela comeou a pular
sobre as patas da frente e a abanar a cauda. A mensaoem era clara: "Que
tal isso para mostrar como
sou inteligente? Apanhei a bolsa de algum!" Como um relmpago
passou por minha cabea a idia de um assaltante de quatro patas.
Tomei a carteira dela e a guardei,
esperando que algum aparecesse procurando uma carteira roubada. E que
aceitasse minhas desculpas.

A dona da bolsa finalmente sentiu falta dela e perguntou se algum a
tinha visto. Mas ninguem acreditou que eu no tivesse ensinado a Emma
aquela travessura, o que
me deixou intranqila, antevendo o que poderia acontecer no expediente
da tarde e pensando se permitiriam que eu continuasse trabalhando para a
Industrial Pumps.
Foi um alvio sair com Emma do escritrio e lev-la para um
passeio no parque. Isso era algo que eu decidira fazer todos os dias.
J que ela trabalhava duro, era
justo que Livesse alguns momentos de liberdade sempre que possvel.

Sentei-me num banco para comer os sanduches e a deixei solta. Emma
saiu correndo pela grama. Logo em seguida ouvi um latido ao longe e a
reconheci. Mas de vez em
quando ela voltava aonde eu estava, tocava minhas mos com o nariz e
depois saa correndo outra vez. Era algo que ela nunca deixava de
fazer quando amos ao parque.
Ela me tranqilizava: "Estou aqui, no esqueci de voc."

52

Naquela tarde eu me sentei na mesa telefnica e. entre um chamado e
outro, esperava ansiosa pela presena de
Emma, temendo que ela me trouxesse outro presente.
Mas ela se deitou e dormiu e depois daquela vez nunca mais chegou com
lembranas para mim, pelo menos no escritrio. Talvez aquilo fosse
um jeito de Emina marcar
sua presena e agradecer as boas-vindas. Fosse l o que fosse,
fiquei satisfeita que tivesse terminado,

Na primeira semana correu muito bem. Ir e voltar do trabalho tornava-se
cada vez mais fcil. Eu j no precisava dizer direita e esquerda
para Emina porque logo
ela aprendeu a me levar corretamente ao ponto do nibus. Comecei a
apreci-la mais ainda. E isso era algo que provou ser verdade 
medida que o tempo passava: para
Emina bastava fazer um percurso uma s vez; depois ela j sabia a
rota sem nenhum auxlio. Mas descobri tambm que h certas
desvantagens em se ter um co intelioente.

Por volta da metade da segunda semana, ao sairmos para o irabalho, eu
simplesmente disse a Enima que amos para o escritrio. Eu sabia que
ela era capaz de fazer
isso sem qualquer orientao. Descemos do primeiro nibus e
chegamos  Market Square. Ia tudo bem. Mas na hora de atravessarmos a
primeira rua da praa, Emma sentou-se
em vez de seguir. Prestei ateno ao rudo do trfego e quando
percebi que no vinha nenhum carro disse para ela ir em frente. Mas
ela no saiu do lugar. Continuou
sentada. Eu no conseguia entender o que estava acontecendo. Pensei
que tivesse me enganado quanto ao trfego. Quando no ouvi mais
nenhum rudo de carro, disse-lhe
novamente para ir em frente. Em vez disso, ela ficou de p, dobrou 
direita e foi me levando pela calada.

-  Emina      perguntei, j desesperada, enquanto era quase que
arrastada     onde vec est me levando? Onde fica a parada do
nibus? Pare.

t Mas ela parecia no me escutar. E se escutava no dava a

menor importncia. Continuamos por aquela rua, depois fizemos unia
curva fechada  esquerda e atravessamos outra rua. Depois ela se
sentou novamente. Eu no fazia
a menor idia de onde estvamos. Tinha perdido por completo meu
senso de direo e estava muito confusa quanto ao caminho que
deveria seguir para o ponto de nibus.
Perdera meus pontos de referencia, que so provavelmente equivalentes
aos das pessoas que enxergam ao

53

irem de um ponto a outro:  direita da St. Mar'ys Church, depois da
casa de W. H. Smith,  esquerda do Royal Oak e assim por diante.

Eu no estava apenas desapontada com Emma, mas levemente frustrada e
preocupada com ela.

- Emma, vamos chegar atrasadas ao servio - eu disse em tom de
reprovao.

Como dizer ao patro que foi Emma a culpada pelo atraso? Pensando bem,
deve ter sido engraada a cena para quem a tenha
0

presenciado.
- Por favor - falei ao ouvir passos se aproximando pode me dizer como
chegar ao ponto do nibus 43?

Houve um instante de silncio durante o qual pensei: a pessoa no
sabe informar; estamos mesmo perdidas, Em seguida, uma voz de homem
disse, parecendo-me um tanto
preocupada:

- Ponto do 43? Voc est no ponto do nibus 43. Seu cachorro
est encostado no poste do ponto.

Senti-me aliviada, atnita e completamente confusa. Pegamos o nibus
e eu esqueci o incidente. At a manh seguinte. Desta vez Emma
dobrou  esquerda em vez de virar
 direi
ta. Atravessou outra rua e dobrou  direita; atravessou outra rua,
caminhou alguns metros e sentou-se. Estvamos novamente no ponto do
nibus 43. Eu estava irritada,
mas acostumando-me quilo. No escritrio perguntei a Carol, uma
amiga que tambm passava pela Market Square, se havia alguma obra no
percurso que eu mentalizara.
Ela disse que no e que tambm no havia nenhum prdio novo nem
qualquer tipo de obstruo.

Eu me sentia completamente perdida. Pensei e repensei e ento cheguei
 nica explicao possvel: Enuna, depois de aprender um
caminho, cansou-se de segui-lo todos
os dias. E ento criou variantes. A partir de ento ela descobriu
uma srie de rotas novas pela Market Square, independente de qualquer
orientao minha. E a cada
dia escolhia um desses trajetos. Logo me habituei a isso e comecei a
levantar 10 minutos mais cedo para o caso de Erama cometer algum engano,
Mas isso, logicamente,
jamais aconteceu.

54
                        capitulo cinco Anita

Agora eu sabia que Emma me dera uma certa liberdade, no apenas para
ir aonde eu quisesse, mas tambm para fazer o que desejasse, Os
limites no eram to grandes
quanto se pode imaginar, Muitos assuntos sempre me interessaram e decidi
inscrever-me num curso sobre "a arte de escrever". As aulas eram 
noite e foi nesse curso
que conheci Anita.

Durante um dos intervalos ouvi uma voz tema e educada dizendo:

- Ol, voc  uma cachorrinha muito bonita. Depois para mim:

- Voc se importa se eu conversar com ela? Nunca tinha visto um
co-guia antes. Ela tem uma cor realmente muito bonita. Aquela moa,
com um forte sotaque de Yorkshire,
final
mente apresentou~se como Anita. E ali comeou uma grande amizade, tudo
por causa de Enuna. Anita estava com 19 anos, a mesma idade que eu, e
tinha ido a Nottingliam
 procura de emprego. Fiquei sabendo mais tarde que ela era atraente e
tinha o cabelo escuro e curto. A medida que as semanas passavam, eu
esperava as aulas com
ansiedade para encontr-la no curso. Ela estava interessada em
escrever contos, enquanto eu tentava escrever poemas. Ns sempre
conversvamos muito no intervalo.
Certa noite perguntei a ela o que fazia nos fins de semana.

- Vou para Ilull - respondeu - mas no prximo fim de semana vou
cavalgar.

Cavalgar! Meu corao deu um salto. Era uma coisa que eu sempre
desejara tentar. Algo que muitas de minhas amigas praticavam e cujas
histrias eu ouvia fascinada.
Mas mame tinha proibido terminantemente que eu montasse. Eu j
podia ouvir o

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que  ela diria: "Claro que no, Sheila. No, no vou perder nem um
  minuto pensando nisso."

Mas agora Anita, ao falar nesta atividade proibida, deu-me uma idia;
e mame no precisaria jamais ficar sabendo de nada. -- Que
maravilha - exclamei. - Voc me
leva com voc? Pelo tom de sua voz, percebi que Anita tinha ficado
realmente muito surpresa.

- Levar voc? Voc quer mesmo ir, Sheila? Quer dizer, voc no
tem medo? Bem ... porque vocC no consegue enxergar direito.

Esta era unia reao para a qual eu no estava nunca preparada,
por estranho que possa parecer. Nunca pensara em minha cegueira como um
obstculo.

Nunca pensei nisso - respondi.

Bem, vou arranjar um lugar para voc, ento. Ligo para o seu
trabalho amanh.

Esperei pela ligao ansiosaniente. Anita s telefonou no final da
tarde e sua voz j anunciava que alguma coisa sara errada.
- Sheila. no sei como lhe dizer. Conversei com o pessoal

da hpica. Eles no aceitaram que voc monte. Liguei para outros
lugares e foi a mesma coisa. Todos recusaram-se terminantemente. Acho
que pelo fato de voc no
enxergar.

Houve uma pausa enquanto eu absorvia aquilo. Em seguida ela
acrescentou:

Cancelei minha reserva tambm. Anita, por que voc fez isso?

Porque se no aceitam voc eu tambm no quero ir. Por  que
discriminar s porque voc no enxerga?

A gentileza dela me fez despertar para o fato de ningum me   aceitar.
O gesto era tpico de Anita - uma pessoa amvel e altrusta. Mesmo
assim, senti-me culpada
por estragar o fim de semana dela e disse-lhe isso.

- No, Sheila, no me importo. Vamos colocar voc sobre um cavalo
de qualquer maneira. Nem que seja preciso fingir que voc enxerga.

Dentro de instantes a niesa telefnica soou novamente. Era Anita,
desta vez com um tom de alegria na voz.

- Consegui fazer reservas para ns duas. Fiquei excitada. E
apreensiva.

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- Como vamos fazer? Como esconder o fato de que no enxergo? Vo
perceber e voc ficar numa situao difcil. E mais: tenho de
levar Errima. Todos vero que ela
 um co-guia por causa das correias.

- Deixe tudo comigo - respondeu Anita. - Vamos pensar em alguma coisa.
Tenho certeza de que encontraremos algum para tomar conta de Errima.

Eu no podia resistir  insistncia dela. Ela estava fazendo
aquilo por mim. Quando chegou o fim de semana, vesti uma suter e,
como no tinha roupas adequadas para
andar a cavalo, pus uma cala velha. Minha me no gostou da roupa
que eu estava usando, mas no discuti. Emma e eu encontramos Anita,
conforme o combinado, e depois
que tomamos o nibus ela me contou o que tinha planejado.

- J resolvi tudo. Vamos encontrar uma amiga minha que ficar com
Emma do lado de fora da pista. Depois ns duas entramos de braos
dados e vamos direto at o seu
cavalo. A ento deixo bem claro que estou ajudando porque voc
nunca montou antes. Quando voc tiver montado lhe direi o que fazer. E
ficaremos conversando o tempo
todo depois que comearmos a cavalgar, para que voc saiba onde
estou.

A idia me pareceu boa. Mas no pude deixar de sentir um pouco de
pnico. Ao mesmo tempo sabia que no podia voltar atrs. Pensei:
"Tenho de fazer isso por Anita."

Encontramos a amiga de Anta e eu lhe entreguei a guia de Errima, que
nos seguiu at junto das pistas. L perto, ento, uma sensao
estranha me invadiu. Podia ouvir
todos os tipos de vozes. linha certeza de que algum se aproximaria e
diria: "lv'oc no enxerga! O que est querendo ao tentar montar
um de nossos cavalos?"

Mas estavam todos muito ocupados para reparar em mim, e acabei montando
um cavalo depois de tatear  procura do estribo. Anita trouxera o
animal at perto de mim
e dissera que se chamava Rocky. Sentei-me em cima dele, sentindo-me
pouco  vontade.

- E agora, o que fao?

- No se preocupe - disse-me ela, ainda junto de mim. D-me sua
mo.  assim que se segura a rdea. Assim! No, o polegar para
fora. Isso! Agora segure firme e quando
estiver

57

pronta para comear toque os flancos do cavalo de leve com os
calcanhares ... No toque com fora...

E comeamos a cavalgar, Anita logo atrs de mim, comentando:

- Aquela rvore ali no  maravilhosa?...         Que tal o Rocky?
Ele  muito altivo, no? Que beleza aquela colina l, voc no
acha? - E assim por diante, a fim
de me tranqilizar com sua presena.

Tudo ia bem e eu me sentia relaxada enquanto trotvamos. Imaginava ser
Marian cavalgando tranqilamente na floresta para encontrar Robin Hood
quando, subitamente,
alguma coisa deve ter assustado Rocky. Ele se empinou um pouco e depois
partiu a todo galope. Fiquei petrificada. Larguei a rdea e me agarrei
 sela, debruando-me
sobre o dorso do cavalo.

O vento cortava meu rosto. Escutei Anita gritando: -- Puxe a rdea
para trs. Sente-se direito.

Mas todas as instrues dela no adiantaram. Eu continuava sendo
carregada em meu mundo de trevas, sacudindo muito e deitada sobre o
dorso do animal.

Em seguida, to subitamente quanto comeara a disparada, Rocky
deteve-se. Abaixou a cabea e comeou a pastar. Este era o nico
rudo que ouvia. Senti medo. Tinha
perdido completamente a noco de direo. Eu no devia ter vindo
cavalgar. Pensei: "Agora vo descobrir que sou cega e culparo Anita
por isso."

Naquele instante ouvi o som de outro cavalo aproximandose. E depois a
voz de Anita:

- Vamos, Sheila. Faa com que ele ande. Toque os flancos do cavalo com
os calcanhares. No fique a parada. Finalmente, depois de certa
insistncia e persuaso de
Anita,

que continuou dando-me instrues, fiz com que Rocky andasse. Quando
voltamos para deixar os animais nos estbulos, ningum suspeitou de
que eu fosse cega. S escutei
palavras de elogio.

Tnhamos conseguido! E apesar do comportamento inesperado de Rocky,
devo admitir que gostei muito da experiencia. E a partir de ento,
sempre que podamos, Anita
e eu amos cavalgar.

Certo dia Anita convidou-me para ir a seu apartamento. Enquanto
tomvamos ch ela falou:

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- Sabe, Sheila, no gosto deste apartamento.  muito pequeno e
apertado. Gostaria de morar num lugar maior, mas est tudo to caro.
Outro dia fui ver um apartamento
adorvel. Uma sala grande e o quarto separado. No como este aqui,
em que sou obrigada a fazer a cama de sof e onde a cozinha     do
tamanho de um armrio. Se
eu encontrasse algum que quisesse dividir o aluguel comigo, poderia
mudar. Mas acho que   isso no passa de um sonho ... como conseguir
publicar meus      contos!

Ns duas rimos. Mas as palavras dela plantaram     uma semente em
minha cabea. Eu decidira que gostaria de sair de casa e ser
independente, agora que tinha Erama
para me guiar. Em casa fazia minhas tarefas domsticas e sabia que
poderia faz-las em qualquer outro lugar. Contudo, independncia
nunca passara de um sonho para
mim.

O que Anita diria se eu sugerisse dividir o apartamento com ela? Pensei
por um instante e depois perguntei:

- o que voc acha de dividir o apartamento comigo? A reao dela
foi melhor do que eu tinha esperado.
- Oh, Sheila, que idia maravilhosa!

Mas achei melhor certificar-me de que ela compreendia todas as
implicaes de tal convivncia.

- Voc acha mesmo que pode ser uma boa idia? E quanto a Emma, por
exemplo?

- Voc no pode vir sem ela. Acho que no h nada de inal nisso.

- Bem, o que eu quero realmente dizer ... O f ato de eu no
enxergar no faz nenhuma diferena?

Diferena? No,    claro que no. Voc consegue fazer as
coisas em casa. Por que  no faria morando comigo?

Era uma idia genial.  Contudo, eu no queria que ela tomasse uma
deciso da qual   mais tarde viesse a se arrepender. E para mim
significaria tantas mudanas que
achei melhor no decidir nada apressadamente.  Sugeri que
pensssemos naquilo durante a noite. Anita concordou, mas ao me ver
saindo com Emma, disse:

- Estou certa de que sei qual ser a resposta.

fiavia, porm, uma possvel complicao que eu esqueceTa de
mencionar durante nossa conversa: Tiss. Tiss era meu gatinho. Uma das
primeiras coisas que eu quis fazer
ao voltar com

Enima de Leamington foi comprar um gato, com a esperana ZD

59

de que Enuna aos poucos fosse perdendo sua averso pelos felinos.
Fomos at a loja de animais e, depois que o homem descreveu todos os
gatinhos que havia l, achei
que um gatinho ruivo devia ser lindo. E a ento aquela bolinha
peluda foi colocada em minhas mos: quentinha e muito pequena, o
corao agitado. Enuna deve ter
olhado para ele de modo curioso. Mas no precisou correr e ele no
demonstrou nenhuma reao ao v-la. Ento ele foi o primeiro.
Era adorvel, mas depois de maior
tornou-se estranho. Era um gato esquizofrnico.

Tiss (um nome que me ocorreu) foi para nossa casa e era um gatinho
amistoso. Ele acostumou-se a Ema e ela ao novo companheiro, s que no
incio ela pensava que
ele fosse uni brinquedinho animado. Ela o agarrava e o jogava de um lado
para ZD

outro. Ele, porm, lambia as orelhas e o focinho de Emma. com sua
minscula lngua, e ronronava para ela. Os dois sentavam-se na beira
da lareira. Eu os imaginava
como o retrato da felicidade.

Depois ento Tiss comeou a mostrar o outro lado da sua
personalidade: ficava esperando, deitado sobre o brao da cadeira, e
quando Emma passava ele pulava sobre
a orelha dela. Enuna nunca protestou; parecia achar que era outra
brincadeira de Tiss. Ele nunca ia dormir sem ela e se enroscava em cima
dela dentro da cama de
cachorro.

Agia to silenciosamente que eu nunca sabia onde estava e tinha medo
de pisar nele. At que resolvi colocar-lhe uma coleira com um sininho.
Brincadeiras  parte,
Tiss demonstrava gostar muito de Etrima, que, apesar da averso que
sempre mostrara pelos gatos, parecia fazer uma exceo para ele.

Tiss, por tudo isso, era um assunto em que pensar quando decidi mudar
para um apartamento com Anita. Mas finalmente pensei: "Por que no?"
Anita disse que no se
importava de dividir a casa com uma cadela labrador e um gatinho ruivo.
E ento comeamos a ir s imobilirias e a andar pelas ruas de
Nottingham a fim de encontrar
um apartamento.

Primeiro, eu precisava conversar com trnha me. Ela se preocupava
muito comigo e por isso no esperei uma reao muito
entusistica. Calculei, porm, que aprovasse
minha deciso porque um dos seus princpios era que uma pessoa cega
devia integrar-se ao mundo at onde fosse possvel. Ela estava
lavando loua quando cheguei em
casa. Expliquei tudo a ela e, em parte por ela ter dificuldade em ouvir
e tambm devido ao rudo da
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gua e da loua, achei que no tinha ouvido o que dissera. Depois
ela me perguntou:

- Tem certeza de que deseja fazer isso?
- Sim, mame, tenho certeza.

- A minha dvida  se voc poder se arianjar sozinha. E uma
grande mudana.

- Sim, estou certa de que poderei me arranjar. E esta  uma
oportunidade de realmente tornar-me independente. Naquele momento,
Graham chegou do trabalho. Ele traba
lhava como afinador de pianos, embora seu grande desejo fosse tocar
guitarra. Quando soube do que eu estava falando, disse:
- Acho timo. Voc vai conseguir, no , Sheila?

Minha me ficou calada e senti que ela estava dividida entre a natural
ansiedade materna e o desejo de me ver praticando tudo aquilo que ela
mesma sempre me ensinara.
Finalmente se conformou:

- Bem, filha, voc sabe melhor do que ningum o que pode fazer. E se
precisar de alguma ajuda ou de alguma coisa, no se preocupe. O seu
lugar estar sempre aqui.

Realmente no foi fcil encontrar um apartamento. As dificuldades
no advinham da falta de unidades para alugar. Mas sim do fato de eu
ser cega. Muitas vezes fomos
tratar do aluguel de um apartamento e a fisionomia do futuro
proprietrio, como Anita depois me contava, se transformava ao
perceber que eu no enxergava. Que tipo
de problemas eles esperavam de mim? Ser que eu tropearia em tudo e
destruiria os mveis, inundaria o banheiro e arrancaria o revestimento
das paredes? Ou ser
que colocaria fogo no apartamento? Os que no se importavam com minha
situao apunham obstculos por causa de Emma e Tiss. Parecia
no haver sada. Ento, depois
de quase trs meses de procura e de muitas decepes, encontramos
um pequeno apartamento. Ficava na Peel Street, uma srie de grandes
casas de campo do sculo XIX,
j um pouco arruinadas; ficavam perto da antiga Victoria Station de
Nottingham. A estao fora derrubada para dar lugar a um shopping
center. Era um apartamento
de trs peas que cheirava a mofo e que estava mobiliado com um
mnimo de cadeiras, que rangiam ao serem usadas., e mesas muito
velhas. A cozinha parecia ter sido
aproveitada do que em outros tempos tinha sido um armrio. Ficamos en
61

cantadas com a pia e o fogo, que Anita descreveu para mim como uma
verdadeira relquia da arca de No.

Anita era muito prtica na administrao da casa. Logo que nos
mudamos ela disse:

- Acho que devemos dividir tudo igualmente. E precisamos ter algumas
reservas, especialmente para comida. Vou apanhar uma latinha e ns
duas colocaremos nela a mesma
quantia.

Estvamos decidindo este importante assunto quando recebemos nossa
primeira visita. Era Graham, que havia comprado algumas roupas para mim.
Ele deu sua opinio.

- No est mal. Nada mal, mesmo. Mas precisa de um toque mais
alegre. E vocs tambm no tm relgio.

- Sim, eu tenho - respondi. - Est no quarto.

- Mas aquele  o seu despertador em brale. Estou falando de um
relgio que outras pessoas possam usar. Anita tambm vai precisar
ver as horas.

No dia seguinte, Graham voltou com um relgio de cozinha e o pendurou
na parede para ns. Era um presente para dar um toque especial 
casa. Era uma caracterstica
dele escolher sempre algo que me ligasse ao mundo das pessoas que
enxergavam.

Havia outros apartamentos no prdio e pouco depois da mudana
comeamos a conhecer alguns vizinhos. Mas por diversos motivos nunca
conseguimos fazer amizade com
o bombeiro que morava no apartamento de baixo, no trreo. Em parte a
culpa era minha. Anita costumava sair muito nos fins de semana com os
pais e tambm com o namorado,
em Hu11. Eu ficava sozinha. No incio isso me deixava nervosa, mas
logo acostumeime a ficar s, com a ajuda de Emma. Parecia para mim uni
grande passo no sentido
de me tornar mais independente. Num dos primeiros fins de semana em que
Anita saiu, antes que eu estivesse completamente acostumada ao lugar,
resolvi levar a cesta
de lixo para esvaziar no lato que havia do lado de fora da casa. Os
lates ficavam alm do jardim da frente. Para chegar a eles era
preciso passar por um corredor
onde havia um porto. Ficavam dispostos em fila junto ao jardim da
casa do bombeiro. Enima desceu comigo, embora no estivesse na guia.
Ela teria me salvado se estivesse
presa. Mas no achei necessrio, j que no iramos a lugar
algum. Um tijolo estava cado no meio do cor
62

redor. Na guia, Enima teria feito com que eu o evitasse. Solta, porm,
ela limitou-se a parar e olhar. Tropecei no tijolo e joguei todo o lixo
em cima do bombeiro,
que acabara de sair de casa. Ele ficou coberto de pontas de cigarro,
cascas de banana e outras coisas.

Nosso relacionamento no melhorou nada no sbado seguinte. Anita
tinha ido passar o fim de semana fora novamente. Achei que a cozinha
precisava de uma boa limpeza,
principalmente a cesta de lixo, a grande responsvel pelo incidente da
semana anterior. Coloquei duas chaleiras com gua para ferver e depois
coloquei gua e desinfetante
na lata de lixo, deixando-a de molho por cerca de uma hora. debaixo da
pia. Quando fui esvazi-la, pareceu-me muito leve. Enfiei a mo l
dentro. Nada de gua. Como
eu poderia saber que havia um furo no plstico? Ou que a gua
escorreria pelo cho e cairia na cozinha do bombeiro? As coisas entre
ns nunca voltaram a ser as mesmas.

O engano mais srio que cometi ocorreu num outro fim de semana. J
morvamos no apartamento h algum tempo. Eu estava muito habituada a
percorr-lo. Alm de Ema
e Tiss, a populao animal da casa tinha aumentado; Anita havia
comprado dois ratinhos. Cliamavam-se IIk e Moke. Suponho que o dono da
loja de animais tenha vendido
os dois como ratinhos mansos e, se tivesse certeza disso, eu o teria
processado com base no Cdigo Comercial. Era impossvel colocar a
mo na gaiola deles para apanh-los
sem ficar arranhada. Tiss os irritava. Quando Anita saa, eu me
encarregava de alimentar os pequenos monstros.

Nesse sbado, coloquei a gaiolinha sobre a mesa na cozinha e tive o
cuidado de arrumar alguns livros sobre ela, a fim de evitar que Tiss
subisse na gaiola e os assustasse.
Na manh de domingo, levantei-me e fui com Enuna at a cozinha fazer
ch. Sabia que tinha deixado os ratinhos em cima da mesa e tateei 
procura deles. Ento senti
algo mexendo-se perto da minha mo. Quase desmaiei de susto. Continuei
procurando a gaiola e ento ouvi o som novamente: pequenas unhas.
Fiquei petrificada. Ali
devia haver um rato.

Fiquei nervosa. Pensei que tivesse deixado um deles escapar quando fui
colocar a comida. O que Anita diria?! E se o ratinho tivesse fugido?
Como conseguiria apanh-lo?
Fiquei tremula, ainda vestida com a camisola, sem condies de tomar
qualquer ati
63

tude. Ento tive uma idia. Por mais que detestasse aquilo, era
preciso agarr-lo. Eu sabia que havia uma latinha -ali  mo.
Apanhei-a e coloquei-a na ponta da
mesa. Fiquei esperando, sem fazer rudos, durante alguns minutos. Foi
pura sorte. Ouvi um movimento, Depois senti o ratinho. Seria 11k? Ou
Moke? No me importava.
De qualquer forma, eu o senti dentro da latinha. Rapidamente o empurrei
para o fundo da lata e pus minha mo sobre a abertura dela. Antes que
ele pudesse me arranhar,
eu o coloquei na gaiola novamente e fechei a portinhola.

Precisei tomar muito ch para me recuperar. Mas pelo menos tinha
conseguido repor o ratinho no seu lugar. Quando Anita chegou,  noite,
uma das primeiras coisas
que fez foi inspecionar llk e Moke.

- Sheila -- exclamou ela. - O ratinho!

- Sim - respondi de modo alegre, meu corao disparado (ser que
deixei os dois sarem quando abri a gaiola?).

O que aconteceu, Sheila? H trs ratinhos. Trs?

Sim, trs. Os dois branquinhos que eu comprei e um cinza.

Um cinza! Logo entendi o que acontecera. Muito confusa, o

expliquei tudo a ela. Achamos muita graa daquilo tudo. Era o
contrrio do que acontecera aos Trs Ratinhos Cegos, da conhecida
cantiga de ninar.

De um modo geral, porm, as coisas corriam bem, especialmente quando
Anita estava em casa. Ela era uma pessoa muito divertida, fcil de se
conviver. Eu me sentia
muito feliz por ter meu prprio apartamento, o que muita gente que
enxerga no consegue. Ramos muito e eu sempre achava divertida as
expresses de Yorkshire que
de vez em quando ela usava. Num novembro muito frio, escolhi um vestido
muito fino.

- Voc no pode usar isso - disse Anita.
- Por que no?

- Voc pegar a tosse-rainha se sair com essa roupa. Z,

- Tosse-rainha? O que  isso?

- Sua me nunca lhe contou? A tosse-rainha  trs vezes pior do
que qualquer tosse e pode-se morrer por causa dela, Impressionada com a
idia e com a possvel fora
da tosse
rainha, resolvi vestir algo mais quente.

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Imagino que quando Anita me convidou para morar com ela deve ter pensado
que haveria desvantagens em viver comigo. De minha parte, era difcil
admitir que no pudesse
fazer tudo que uma pessoa com viso normal faz. E eu estava disposta a
mostrar que a situao no era to ruim quanto podia ter sido
imaginada. Na verdade, acho
que devo ter surpreendido Anita ao fazer tudo que eu conseguia fazer
mesmo sendo cega. Isso exigia muito trabalho e concentrao. Mesmo
assim ns persistimos. s
vezes, em meio ao rudo do aspirador de p, eu ouvia o riso dela.
Desligava o aparelho e perguntava:

- De que voc est rindo agora?

-  que voc j aspirou essa parte do tapete seis vezes e pertinho
de voc est uma outra parte cheia de poeira.

E assim eu ia trabalhando, esperando algumas orientaes, at que
todo o tapete estivesse limpo.

O armrio de mantimentos era uma constante fonte de diverso depois
das compras. Se fosse minha vez de ir ao mercado, eu s comprava o que
fosse necessrio para
as prximas 24 horas, porque muitas latas e pacotes confundiam-me.
Toda tarde eu comprava o que desejvamos comer no jantar, caf da
manh e hora do ch. E tentava
manter os alimentos separados no armrio: uma prateleira para os
legumes, um pedao de outra prateleira para as latarias, outra parte
para a rao de Emma e assim
por diante. s vezes meu planejamento no funcionava. Acho que certa
noite Emma deve ter adorado o bife  caarola. E at hoje no
sei onde foi parar a latinha de
comida para cachorro que eu devia ter dado a ela. Pacotes e vidros eu
identificava pelo cheiro,  lgico. De modo que, se quisesse comer
marmelada, era obrigada
a retirar todos os vidros do armrio, abri-los e cheirar. Com
gelia, picles e outras coisas era fcil, embora desse trabalho; mas
isso tambm desenvolveu muito
meu olfato. Mas para encontrar coisas como sal e acar, era preciso
enfiar o dedo e provar - e assim mesmo s vezes havia surpresas.

Uma das atividades que realmente fascinava Anita era me ver cozinhar.

- No consigo entender como voc consegue cozinhar dizia ela.

Na verdade no era to difcil quanto podia parecer. Eu tentava
explicar que, enxergando ou no, grande parte do servio  feito
pelo tato. Para sentir se as batatas
esto cozidas basta

65

enfiar um garfo nelas. Se a carne estiver assando, usa-se um espeto, que
 enfiado no assado de vez em quando.  claro que as pessoas que
enxergam no confiam totalmente
nisso, mas era uma forma de eu explicar como conseguia cozinhar. Eu
usava o fogo guiada pelo tato e alm disso tinha um relgio em
braile adaptado ao forno. A
nica coisa de que no gostava era fazer frituras, porque a gordura
espirrava e tambm,  claro, porque no podia usar um espeto para
ver se j estava no ponto.
Outro sentido muito usado por mim era o olfato, que talvez fosse de
maior serventia para evitar que a comida queimasse do que propriamente
para co.nhar. Depois
que j estvamos no apartamento h algum tempo, acho que convenci
Anita de que era capaz de trabalhar normalmente.

Eu precisava confiar em Anita na hora de me vestir. Tnhamos
praticamente o mesmo manequim e s vezes eu usava algumas roupas dela.
Ela me ajudava bastante.  muito
difcil apanhar a roupa certa se no se pode ver a cor do tecido.
Pode-se apenas sentir pelo tato qual o tipo da fazenda e o feitio.
Quando ia comprar roupas, antes
de morar com Anita, geralmente dizia: "No importa a qualidade, o
importante  o tamanho". Mas com o auxlio dela, era maravilhoso
poder usar roupas que eu sabia
estarem bem. Ela me acompanhava s lojas ou, se eu fosse com Enima,
levava as roupas para casa sem compromisso. Vestia tudo novamente e
pedia a opinio sincera de
Anita. "No, essa roupa no fica bem em voc", ela podia dizer.
Ou: "Acho que no. Faz voc parecer ter 9O anos." Ento eu voltava
 loja para trocar. Acho que eu
estava usando roupas de que Anita gostava, em vez de usar       roupas
que preferiria se pudesse enxergar. Mas achava isso muito bom. Porque
Anita, alm de ter a
minha idade, estava  atualizada com as revistas de moda e pela primeira
vez na vida me sentia tambm como parte do mundo moderno.

Da mesma forma como      me ajudava com as roupas, Anita dizia se meu
cabelo estava bem ou no. Ela era o meu espelho. Mas acima de tudo, o
mais importante era
que ela me tratava como um integrante da raa humana. Tinha grande
senso de honestidade e jamais aconteceu de fazer alguma concesso
embaraosa pelo fato de eu no
enxergar.

Dito isto, havia algo em que eu precisava tomar cuidado com ela. Era
quando saamos para fazer compras. Erruna gos66

tava muito que Anita se encarregasse de me guiar, porque assim ela
ficava livre da guia e podia ficar presa numa coleira como qualquer
cachorro. Mas nem sempre essa
situao era boa para mim, porque s vezes eu ia de encontro a um
poste de iluminao, sentindo dor em conseqncia da pancada. E
Anita dizia ento:

- Oh, Sheila, sinto muito. Eu estava olhando aquela vitrine. Nem reparei
no poste.

Depois de algum tempo, voltei a confiar inteiramente em Enima, mesmo
quando saamos as trs,

Certa vez, no apartamento, fiquei pensando em como nascera um vnculo
entre Emma e eu, e no apenas da minha parte. Quando Enima veio para
mim, era esplndida em
seu trabalho, apesar de sua independncia em escolher os trajetos que
fazamos. Mas eu tinha a impresso de que ela no precisava de
mim. Tomava conta de mim na
rua, mas dentro de casa, quando morava com meus pais, nunca latia quando
algum batia na porta. No tinha um instinto protetor para comigo.
Mas depois que mudamos
para o apartamento, e quando, aps a agitao da mudana e da
troca de ambientes, ela viu que continuvamos juntas, seu
comportamento em relao a mim mudou gradualmente.
Passamos a ficar muito tempo sozinhas e logicamente Emma passava comigo
24 horas por dia. Ela me seguia por toda parte em casa
- o que jamais fizera antes - e nunca me perdia de vista, mesmo no
banheiro. Alm disso, comeamos a caminhar com o mesmo ritmo, e ao
mesmo tempo parecamos desenvolver
o ins
i tinto que permitia que cada uma soubesse o que a outra estava

pensando - uni tipo de telepatia. Pode parecer impossvel, mas 
absolutamente verdadeiro.

A Industrial Pumps mudara-se para Colwick e habituei-me a fazer as
compras para o fim de semana na hora do almoo, s sextas-feiras,
numa pequena rea chamada Netherfield.
Emma sabia sempre quando era sexta-feira. Eu no precisava dizer nada,
ela simplesmente me levava at Netherfield, enquanto que nos outros
dias dvamos nosso costumeiro
passeio. Mas, numa certa segunda-feira, precisei levar meu relgio ao
concerto e o relojoeiro mais prximo era em Netherfield. Nunca havia
ido l e por isso pedi
orientao a Carol. Por ser uma segunda-feira, pensei que Emma
achasse que amos fazer nossa caminhada de sempre. E sei l por que
no disse a ela aonde iramos,
que nosso

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plano tinha mudado. Samos do escritrio e pegamos a rua principal.
Mas em vez do percurso que normalmente fazamos s segundas-feiras,
ela resolutamente cruzou
a potne e me levou at o shopping center de Netherfield. Caminhou por
dois quarteires, entrou numa loja e sentou-se. Fiquei perplexa.
Estvamos na joalheria. Como
ela podia saber que iramos l, se era uma segunda-feira? Mais
espantoso ainda, como ela podia saber que iramos quela loja? Eu
no tinha dito nada a ela sobre
isso.

- Como voc sabia, Erama? - perguntei. Pude ouvir sua cauda batendo no
cho. - Est bem, eu desisto. Nunca mais vou deixar de contar as
coisas a voc. - -- E assim
o fiz.

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captulo seis Don

Enquanto morvamos no apartamento, nossa estao de rdio local,
a Rdio Nottingham, entrou no ar. Um dos programas apresentados, Clube
das Quartas-Feiras, era dedicado
especialmente aos cegos. Seu apresentador, George Miller, era um
reprter cego. Sempre achei surpreendente que algum que no
enxergasse pudesse fazer esse tipo
de trabalho. Contudo, George no apenas vivia do jornalismo mas
desempenhava suas funes de modo magnfico. Certo dia ele entrou
em contato comigo para saber se
eu podia ir ao Clube das Quartas-Feiras para falar sobre os
ces-guias. Eu disse que sim, mas no estava gostando muito da
idia de me sentar diante de um microfone
e falar uma srie de coisas sobre os ces-guias. Achei que isso
no interessaria  audincia. Um jeito melhor de mostrar o que os
cesguias podem fazer seria apresentar
uma demonstrao prtica com Enima e eu. Sugeri, ento, que
fosse feita uma aposta como eu iria de qualquer ponto de Nottingham a
outro mais depressa que uma pessoa
que enxergasse.

George sorriu e disse que pensaria no assunto. Dois ou trs dias
depois ele me telefonou e disse que concordava com a idia e que Tony
Church, o produtor do programa,
seria a pessoa contra quem eu faria a aposta. Ele deixou bem claro, no
entanto, que todo mundo na Rdio Nottingliam achava que eu estava ruim
da cabea e que Enima
e eu tnhamos tanta chance de vencer a corrida quanto um cavalo com
apenas trs patas poderia ganhar uma corrida no jquei.

Tony Church escolheu um trajeto que revelaria no dia da corrida. Emma e
eu comparecemos  estao. Na porta da emissora, Tony estava 
nossa espera com o gravador
e o microfone.

69

- Bem, senhores, esta  a famosa Emma. Ela vai ganhar de mim, no
 mesmo?

- Sim,  isso mesmo - respondi, enquanto imaginava Enima olhando para
ele de modo penetrante, confirmando minha resposta.

- Muito bem, ento - continuou Tony. - Voc conhece Trinity Square?
Trinity Square? Essa foi grande.

- Sim - respondi - conheo muito bem.

- Em que parte de Trinity Square voc gostaria que ter-minasse a
corrida?

Pensei por um instante e depois respondi:
- No ponto do nibus 49.

- Est bem assim - concordou Tony.

E partimos. Era preciso atravessar algumas ruas de muito movimento a fim
de chegar a essa praa. Logo no incio ouvi a voz de Tony, que
estava gravando um comentrio
sobre o evento. Depois a fala dele foi abafada pelo rudo do
trfego.

Erama e eu estvamos caminhando e ela parecia mais gil e esperta
que nunca. Finalmente chegamos a Trinity Square e  parada do nibus
escolhida para o trmino da
corrida. Tony s conseguiu chegar alguns minutos depois. Sem flego
e admirado, ele me cumprimentou: - Parabns. E minhas desculpas.
Voc estava certa e ns, errados.

S quando ouvi a gravao da corrida, no estdio da rdio, 
que percebi o que acontecera: a corrida fora no s interessante
para os ouvintes mas me ensinara tambm
o modo como Emma trabalhava. Em primeiro lugar, fiquei surpresa com o
nmero de obstculos que ela fez com que eu evitasse e que eu
desconhecia. Ela me atravessara
por uma faixa de pedestres. Eu tinha parado no meio-fio enquanto Emma
ficara sentada. amos esperar at no passar renhum carro. Lembro
que nesta hora Emma levantou-se
antes que eu desse a ordem de seguir e atravessamos a rua. O que eu
no sabia era que um nibus parara na faixa de pedestres e que o
motorista acenara para Emma
atravessar. Quando chegamos do outro lado da rua, Tony vinha ofegante.
Mas o nibus comeou a andar naquele instante e ele foi obrigado a
ficar na calada aguardando
uma chance para continuar a corrida. Ele ento correu daquele lado da
rua, tentando manter-se junto a ns. Quando finalmente atravessou a
rua e nos alcanou, seguiu
atrs de Emma, o que no deu resultado.
70

Depois, ao tentar atravessar outra rua, aconteceu a mesma coisa
novamente. O trfego nos deixou passar, mas no esperou por Tony.
Quando chegamos a Trinity Square,
estvamos bem na frente dele e Enuna, segundo a gravao, ainda
teve tempo de parar e olhar uma vitrine que a interessou. Na loja havia
um grande cartaz: "Vende-se."

Aquele programa para a Rdio Nottingham foi o incio de minha
amizade com George Miller. Ele era uma pessoa extremamente amvel,
cheio de alegria e interesse pela
vida. A partir de ento, costumava me telefonar para conversarmos
sobre o Clube das Quartas-Feiras. Sentia-se muito contente em ajudar
outras pessoas cegas e achava
que todo aquele esforo valia a pena. As vezes me telefonava e falava
sobre alguma notcia a respeito de cegos; ou me consultava sobre os
ces-guias.

Certa noite George telefonou dizendo que estava com um amigo, algum
chamado Don Hocken. Perguntou se eu gostaria de falar com ele. Don
estava na mesma sala e podia
ouvir a conversa graas ao alto-falante adaptado ao telefone de
George, que assim ficava com as mos livres para usar a mquina em
braile. Don comeou cumprimentando-me
e, caso seja possvel uma pessoa se apaixonar imediatamente ao
conhecer outra, foi isso o que aconteceu comigo. Quando Don falou-me
sobre seu trabalho (ele era pedicuro),
temo que tenha dado uma risada: imaginei algum eternamente condenado
a cortar as unhas dos outros. Ele me explicou melhor o que fazia.
Segundo ele, o trabalho era
um pouco mais complicado que isso. O mais importante de tudo  que ele
no pareceu se incomodar com meu riso, embora eu viesse a saber mais
tarde quanto sua profisso
significava para ele e como Don se interessava por seus clientes.

Don gostava muito de ces e ouvira George falar sobre Emma e por isso
conversamos algum tempo sobre ela; e o coitado do George quase no
teve tempo de dizer nada.
Depois que desligamos, eu no conseguia esquecer o suave e profundo
som da voz de Don nem a conversa que tivramos reprisando-a
mentalmente. Fiquei sabendo algum
tempo depois que Don conhecera George como paciente, no dia da primeira
consulta, no sabendo que o outro era cego, achou que seu modo
hesitante de andar era devido
 bebida. Comearam ento a amizade e George tinha ajudado Don com
alguns de seus escritos.

71

Alguns dias depois George telefonou outra vez e Don estava l com ele.
Fiquei muito agitada. Quando Don comeou a falar comigo, fiquei
imaginando como ele seria.
Mas senfi-me em igualdade de condies    com ele, de uma forma que
seria impossvel se tivssemos sido apresentados frente a frente.
Pois i que nos "conhecemos"
no      telefone, ele tambm no fazia idia de minha aparncia.
Ento    ele me disse que fora convidado para visitar a Rdio
Nottingham   no sbado seguinte, e
ao ouvir fiquei nervosa. Eu tambm fora convidada e, depois que ele
desligou, fiquei imaginando se teria coragem de ir at l.
Simplesmente no queria encarar o
fato de que, se ele tivesse iluses, elas desapareceriam ao me ver.
Alm do mais, nunca acreditei que um homem com viso normal pudesse
se interessar por uma mulher
cega. Pensei muito em tudo isso, mas ao final venceu minha curiosidade.
Decidi que iria.

Lembro-me muito bem daquele dia, em agosto de 1968. Fui ao armrio e
fiquei indecisa sobre o que usar. Finalmente decidi-me pelo vestido
verde e calcei os sapatos
novos. Nunca pude usar sapatos com salto alto porque esse tipo de salto
me criava muitas dificuldades para caminhar sobre ralos e na hora de
pisar no meio-fio. Mas
a moda na poca eram os saltos baixos que eu tinha de usar e assim
tinha comprado um par de sapatos considerado muito elegante. Fui ao
cabeleireiro e a toda hora
perguntava a Anita:

- Estou bem? Meu cabelo ficou bom? Estou realmente apresentvel? O que
voc pensa? Honestamente ...

Anita me tranqilzava
- Sheila,   voc est tima. Realmente est muito bem. N.~io se
preocupe.

Mas para    mim era impossvel fazer uma idia real de minha
aparncia,   j que no tinha condio de me comparar com
outras pessoas.  O resultado  que eu acabava
pensando que no podia estar to bem vestida ou que meu cabelo no
estaria to bem quanto o     das outras mulheres, Quando as pessoas
diziarn, como geralmente faziam:
"Voc est tima", nunca tinha certeza se aquilo era uma
impresso sincera ou se estavam fazendo concesso pelo fato de eu
ser cega.

Finalmente, depois de tantos preparativos, Emma e eu samos. Ela sabia
que eu estava excitada, porque fazia fora na

72

guia e abanava a cauda enquanto caminhvamos. Contei a ela tudo sobre
Don.

- Ele parece ser muito bom, Emma, mas no sei o que achar de ns.

Emma continuou a balanar a cauda. E  medida que caminhvamos,
mais nervosa eu ficava. Achava uma bobagem, mas era assim que me sentia.
Na poca no pude analisar
bem o significado desse encontro, mas ele me parecia muito, muito
importante e especial.

Chegamos  Rdio Nottingbam e, uma vez l dentro, ouvi o barulho
produzido pela multido que se encontrava na emissora. Finalmente
encontrei algum que pudesse localizar
George para mim. Demorou alguns minutos e em seguida escutei a voz dele.
Fomos sentar num canto e ficamos conversando, enquanto muitas pessoas se
aproximavam para
falar com ele, sendo que todas elas terminavam falando com Emma
tambm. No meio do vozerio, ouvi aquela voz inconfundvel, a meia
distncia de onde estvamos. Fiquei
pensando: ser que ele me viu? O que estar pensando? Talvez tenha
me visto mas no queira se aproximar depois de saber como sou.
Consegui pegar a conversa dele.
Ele estava falando com uma moa de voz atraente, e dizia:

- A ltima vez que nos vimos voc estava na cama. Fiquei atnita e
pensei: "Ser possvel? Ser que ele  do tipo que arrasta as
moas para a cama?" Senti-me muito
mal com aquilo. Mas em seguida ouvi o resto da conversa. Ficou claro
ento que quando ele esteve no hospital para visitar a me, a moa
estava deitada na cama ao
lado da me de Doni

Depois ouvi quando ele se despediu dela, escutei seus passos
aproximando-se e a mesma voz, muito mais perto, dizendo:
- Ol, Sheila.

Senti logo que ele estava sorrindo. Emma ficou de p e ele a
cumprimentou efusivamente. Brincou com ela, mas rapidamente voltou sua
ateno para mim. Sentou-se e
comeou a conversar e parecia que nos conhecamos h muitos anos.
Descreveu em detalhes o estdio para mim, os painis de controle, as
divisrias de vidro e tudo
que l havia, inclusive as pessoas. Mas no era a descrio em
si que era maravilhosa, embora tambm o fosse, mas o fato de Don saber
que eu tinha limitaes e imediatamente
fazer tudo que estivesse a seu alcance para eu tomar conhecimento do que
estava acontecendo.

73

- Voc gostaria de andar pelo estdio comigo? - ele finalmente
perguntou.

Aceitei o convite e fiquei ao mesmo tempo surpresa e encantada por ele
no me segurar pelo brao e tentar me arrastar atrs dele. Em vez
disso, ofereceu-me o brao
para que eu segurasse, o que  a melhor e mais fcil maneira de se
guiar uma pessoa cega. Ele no estava nem um pouco embaraado e
quando estvamos diante do painel
de controle, insistiu para que eu sentisse com as mos todos os
comandos ali existentes.

- Este  o painel de controle, Sheila. Sinta o controle  aqui. Este
 o visor que d para o estdio. . . - Don parecia ter uma
noo instintiva de como tornar interessantes
as coisas para uma pessoa cega. Senti-me totalmente  vontade e feliz
ao lado    dele.

Mais tarde ele sugeriu a George que sassemos para tomar ch (e
quando digo ch refiro-me a algo de mais gabarito que temos em
Nottingham; algo mais substancial
que sanduches de picles). A princpio no me agradou muito a
idia, pois eu no queria me expor muito a Don, j que tudo at
ali tinha sido maravilhoso. Tentei
arranjar desculpas, dizendo que precisava voltar para casa. Mas ele
parecia no ouvir minhas justificativas.

- Vamos, Sheila. Conheo um -excelente lugar aqui perto. Ele acabou me
convencendo. Emina e eu seguamos na fren-te de George, que estava
sendo guiado por Don. Ele
me havia dito exatamente onde ficava o restaurante e ns duas chegamos
um pouquinho na frente deles, o que foi bom para mim, porque queria
mostrar que, com a ajuda
de Emina, conseguia me arranjar.

Uma vez l dentro, e tendo conseguido permisso para que Emina.
tambm entrasse (sempre um problema em restaurawes, onde as palavras
mgicas "co-guia" nem sempre
resolvem), ela enroscou-se debaixo da mesa e Don descreveu,
minuciosamente, ambiente, inclusive a decorao, carpetes e
cortinas, e tornou lugar cheio de vida para
mim. Pedimos carne. Don ofereceu-se para cort-la para mim. Como
sempre, recusei, mas depois paguei caro por esta demonstrao de
independncia. Na segunda vez em
que levei o garfo  boca sem nada espetado nele, ouvi Don sorrir e
dizer:

- Voc no acertou outra vez.

Fiquei to embaraada que enrubesci da cabea aos ps. Eu queria
que ele me aceitasse como uma pessoa normal. Contudo

74

seu riso no foi nenhuma falta de cortesia; ao contrrio, o modo
como ele sorriu acabou por tornar as coisas mais fceis para mim.

Depois da refeio, Don nos levou para casa, em Peel Street. Quando
nos despedimos na porta do prdio, pouco antes de ele entrar no carro,
deu-me algo. Tateei o
presente e vi que era uma rosa. Acho que ele a tirou de sua lapela.
Quando cheguei em casa, coloquei a rosa num vaso e a acariciei.
Guardei-a por muito tempo; por
mim nunca a jogaria fora.

Nos dias seguintes eu costumava tocar a rosa, cujo vaso ficava em meu
quarto, enquanto revivia os momentos daquele sbado inesquecvel. Ao
mesmo tempo, tinha uma
desagradvel sensao de que jamais tornaria a estar com Don, que
aquele fora um dia maravilhoso mas que no se repetiria. Em minha
imaginao, ele era alto e bonito
e tinha bigode. Sabia que ele era alto porque sua voz vinha de cima, e
sabia tambm que tinha os ombros largos desde que o segurara pelo
brao para caminhar pelo
estdio. Achei bom que Anita no estivesse l e que no houvesse
mais ningum para me fazer uma descrio de Don, pois sempre
preferi as pessoas como eu as imaginava
e no como eram descritas por outras pessoas.

Alguns dias se passaram, e eu estava comeando a pensar que meus medos
quanto a no estar mais com ele fossem se concretizar, quando uma voz
que eu reconheci instantaneamente
irrompeu pela mesa telefnica. Eu sabia que Don no telefonaria para
encomendar nosso mais novo modelo de bomba para esgotos. Ele queria sair
comigo aquela noite.
Aquela noite! Fiquei to agitada que durante o restante da tarde fiz
uma srie de ligaes erradas, deixando todos do escritrio
aturdidos com meus enganos,

A caminho de casa contei a Erama tudo que estava sentindo. quela
altura, eu j lhe tinha mencionado o nome de Don tantas vezes que ela
j devia ach-lo familiar
e em resposta abanava a cauda. Acho que Emma j estava ansiosa pelo
passeio. Anita ainda estava trabalhando quando chegamos em casa, de
forma que s havia Emma com
quem dividir minha excitao. Lembro que senti o calor do sol em meu
quarto quando comecei a trocar de roupa, e que pensei como o mundo
tornara-se um lugar aconchegante
e adorvel.

75

Quando samos naquela noite de vero, que parecia mais perfumada que
qualquer outra de que possa me recordar, pensei: algum deseja me ver,
realmente deseja me ver.
Meus sapatos pareciam no tocar a calada enquanto Erama me conduzia
ao encontro com Don. E enquanto isso eu ia pensando que, se no fosse
por Emma, nada disso seria
possvel.

Don dissera que nos apanharia num determinado ponto da Mansfield Road,
por um motivo que colocou a nica nuvem naquela noite estrelada. A
nica nuvem existente em
nosso relacionamento. Don ainda era casado e por isso era difcil
achar um local e tempo para um encontro. Alguns amigos j me haviani
dito que Don e a mulher no
continuaram juntos, que o casamento j no dava certo e, como os
amigos tm o hbito de dar conselhos gratuitamente, disseram que eu
era tola de me envolver com
um homem casado. Contudo, tinham me dito tambm, esses mesmos amigos,
que Don no era homem dado a ter casos passageiros. Por isso eu achava
que se ele havia me
convidado para sair  porque devia ter pensado nas implicaes e
(esta era uma esperana e uma conluso em que eu mal ousava pensar)
porque devia ter pensado muito
em mim. De minha parte, eu no tinha o menor desejo de encorajar
ningum a deixar a esposa. Isso era algo srio para mim e s me
sentia mais aliviada devido ao fato
de que ficara sabendo sobre Don e seu casamento atravs de meus
amigos.

Naquela primeira vez ele me levou a um pub chamado The Three
Wheatsheaves, nos arredores de Nottingham, perto da universidade.
Lembro-me vagamente dos detalhes,
a no ser que tudo para mim pareceu mgico. O pub tinha atmosfera
aconchegante e um aroma agradvel no ar. Emma ficou deitada sob a mesa
enquanto conversvamos e
num determinado instante Don tocou minha mo levemente. Ele era 15
anos mais velho que eu e tinha esta tremenda capacidade de fazer com que
eu, aos 21 anos, me sentisse
a nica pessoa que realmente importava em todo o universo. Parecia que
tinham se passado somente alguns minutos (embora j estivssemos no
pub por cerca de duas
horas) quando ouvi o dono do lugar gritando: "Tempo", significando que
s atenderia a mais uni pedido. Ele tinha uma voz extraordinariamente
profunda. Na verdade,
sempre que amos quele pub ns nunca dizamos: "Vamos ao The
Three Wheatsheaves." Comeamos a cham-lo de "Bar do Homem da Voz
Rouca" e este tor76

nou-se o nome daquele lugar especial que fomos na primeira vez que
samos juntos.

Nos dias que se seguiram, tive certeza de que estava apaixonada por Don.
E ele, estaria me amando tambm? De qualquer modo eu achava um tanto
incorreto de minha
parte esperar tal coisa. Contudo, Don nunca demonstrou que minha
incapacidade de enxergar fosse algo importante para ele. Sua total
aceitao, na verdade,  que
me deu fora para continuar e ser como qualquer outra pessoa,
superando a frustrao de ser cega. A partir de ento, quando
algum me dizia: "Deve ser timo para
voc sair com Don. Ele deve ajud-la muito", eu geralmente ficava
furiosa. Detestava a idia de que uma pessoa com viso normal fosse
uma espcie de acessrio para
fazer as coisas para mim. Viesse o que viesse, queria manter minha
independncia.

Mas as dvidas continuavam. Pensar que um homem com viso normal,
especialmente um homem atraente, estava apaixonado por mim era algo
muito distante do que sempre
esperara, e fez com que eu sentisse meu mundo de pernas para o ar. A
lgica parecia inevitvel. Don enxergava. Eu era cega. Por isso com
toda certeza ele no podia
estar apaixonado por mim. Ao mesmo tempo, tinha certeza, embora com
certo ceticismo, do meu amor por ele. O amor era algo sobre o qual lia
em meus livros em braile
e que invariavelmente acontecia com as pessoas que enxergavam. Como
poderia acontecer comigo?

Certa noite Don telefonou-me e disse que o carro tinha enguiado e que
por isso no poderia vir falar comigo. Mal consegui escutar o que ele
disse a seguir:

- Telefonei para a oficina e algum est vindo para c. Ligo para
voc se o mecnico conseguir consertar o carro.

S consegui pensar assim: "Pronto, ele decidiu que no quer me ver
mais. Isso que ele disse foi uma desculpa. Ele no quer se envolver
com uma mulher cega."

- Sim - respondi - est bem.

Desliguei o telefone e comecei a andar de um lado para outro, fazendo
fora para no chorar. Emma aproximou-se de mim quando finalmente
resolvi fazer um pouco de
caf e me sentar. Ela encostou o focinho no meu joelho. Ficamos assim
durante horas. "Ela entende minha situao", pensei.

O telefone tocou e meu corao disparou. Era Don novamente.

77

- Sinto muito, Sheila. O mecnico deu uma olhada e disse que  o
alternador no est funcionando. S poder troc-lo amanh.
Sinto muito...

Eu no queria conversar com ningum. Nem fui deitar. Fiquei sentada,
em meio a um pesadelo mesmo acordada.

No dia seguinte, fui para o trabalho como uma autmata e assim fiquei
at por volta das 1O horas, quando recebi um telefonema com aquela voz
familiar. Don. Como
se nada tivesse acontecido, ele disse que o carro j estava pronto e
sugeriu que sassemos  noite. Como ele poderia saber de tudo por
que passei, ou que minhas
ansiedades, nascidas de minha cegueira e por ela alimentadas, haviam
surgido to rapidamente? A partir daquele dia nunca mais duvidei do
meu amor por Don. Cerca
de uma semana depois, Don e eu estvamos sentados dentro do carro.
L fora uma chuva forte - que talvez tenha feito com que nos
sentssemos mais perto um do outro.
Don subitamente voltou-se para mim e disse:

- No ser sempre assim, voc sabe.

Eu no sabia o que dizer. Acho que fiz algum comentrio evasivo,
embora soubesse que a situao estava se alterando, tornando-se algo
mais concreto.

Don prosseguiu:

- Voc esperar at que eu fique livre?

Eu me senti como se tivesse aberto a porta do carro e comeado a
danar com Emma na calada, apesar da torrencial e fria chuva de
dezembro.

Se eu esperaria? Claro que sim!

78

capitulo sete Independencia

Assim, minha vida ficou centrada em Don: encontrando-me com ele sempre
que possvel e sentindo-me completamente s quando estvamos longe
um do outro. Foi mais ou
menos nesta poca que senti necessidade de mudar de emprego. A
Industrial Pumps fora comprada por outra firma e, embora eu continuasse
totalmente capacitada para
prosseguir trabalhando l, o longo trajeto para ir e vir do trabalho
comeou a me aborrecer. Emma e eu levvamos quase uma hora para
completar o percurso. Assim,
quando a nova administrao assumiu, resolvi comear a procurar
outro lugar para trabalhar. Se soubesse quanta frustrao e
sofrimento isso me infligiria, acho que
jamais teria tomado esta deciso. Levei meses para conseguir outro
emprego.

Antes disso eu nunca percebera por completo quanto uma pessoa cega pode
ser terrivelmente discriminada. A pior dificuldade, que comeou a se
tornar uma obsesso,
era que os outros no me aceitavam. Don aceitou-me sem questionamento,
como Anita; contudo, suas atitudes esclarecidas tinham me protegido
contra a indiferena e
a rejeio total de tantas pessoas do restante da raa humana.

Eu tinha cerca de oito anos de experincia com uma mesa telefnica
congestionada e era to eficiente quanto qualquer ou~ tra telefonista.
Mas apesar disso no era
boa o suficiente, pelo menos aparentemente, para a maioria dos
empregadores. Eu costumlava levar o Nottingham Evening Post para casa e
quando Anita voltava do servio
lia para mim a coluna de "Empregos Oferecidos", enquanto eu anotava os
nmeros em braile. Quando eu telefonava para as firmas que haviam
publicado os anncios, o
dilogo era quase sempre assim:

 - Estou ligando para saber sobre o emprego de telefonista.
79

- Ali. sim. Voc pode me falar um pouco sobre sua experincia?

Eu ento falava sobre meu trabalho e como estava acostumada a operar
uma mesa de PABX nmero dois.

- timo, isso parece bom. Depois eu soltava a bomba:

- H uma coisa mais que quero dizer ao senhor. Sou cega, mas isso
no altera minha capacidade para operar a mesa telefnica e eu tenho
um co-guia.

No era preciso nem me aborrecer. Podia sentir a repentina falta de
interesse, como um balo murchando.

- Ali, sim. Obrigado por telefonar. Vamos ficar com seu nome anotado,
mas j se apresentaram algumas outras candidatas. Isso, pelo menos,
era uma forma de amortecer
o choque. Mas de vez em quando a recepo era bem grosseira:

- Ah, sinto muito, mas no podemos nem pensar em dar emprego a uma
cega. O escritrio onde voc trabalharia no fica no trreo.

- Mas meu co-guia e eu subimos e descemos escadas todos os dias.

- Sinto muito, mas no podemos nem pensar em voc. Temo que seria um
risco muito grande.

Quando eu tentava argumentar com o chefe de alguma firma, ele acabava
desligando o telefone.

O pior de tudo, talvez, era a maneira como as vagas roagicamente
tornavam-se preenchidas logo que eu mencionava que era cega. Esse tipo
de desonestdade e hipocrisia
me dava vontade de gritar. Finalmente achei que s havia uma forma de
contornar o problema. Se era considerada inapta somente por causa da
cegueira, eu simplesmente
no mencionaria mais isto. Daria minhas qualificaes e, se
convidada para uma entrevista, enfrentaria meu provvel patro. Bem
sei que isso era um recurso extremo,
mas no tinha nada a perder.

E foi o que fiz. Como resultado, duas firmas imediatamente demonstraram
interesse em me entrevistar no mesmo dia. Na primeira firma em que
estive, uma fbrica de
renda - como tantas outras que h em Nottingliam, do tempo em que os
huguenotes l se fixaram - senti que as pessoas ficaram surpresas ao
ver o co-guia. Mas Errima
deitou-se imediatamente e enrolou-se a meu lado quando me sentei diante
do homem que fez uma srie
80

de perguntas. Tudo correu sem problemas. O gerente foi ento chamado e
me levou at onde ficava a mesa telefnica. Passei a mo nela para
ver se era do mesmo tipo
daquela com que estava acostumada. Era.

- Mas - perguntou o gerente - como voc a opera? Ela no est
adaptada para uma pessoa cega.

Expliquei que o Departamento dos Correios fazia a converso
gratuitamente e o emprego foi-me oferecido imediatamente. Era
maravilhoso poder ir  segunda entrevista
sabendo que

qualquer que fosse o resultado eu j havia conseguido um novo emprego.
A outra colocao era na Whytecliffe's, uma grande garagem no
muito distante do centro de
Nottingham. L tambm ficaram surpresos com Emma, mas apesar disso
no criaram obstculos em seguir o procedimento usual para
seleo. Emma tambm ficou deitada
tranqilamente, s que debaixo da cadeira onde eu estava. Mas embora
tenha ficado ali, quieta, teve um importante papel no desenrolar da
entrevista. O gerente de
pessoal, que me fez as perguntas, era, como me foi dito depois, um
criador de springer spaniels. Suas indagaes foram tanto sobre Emma
quanto sobre minha experincia
com a mesa telefnica e logo percebi que ele havia ficado estupefato
com a cor de chocolate daquela criaturinha que estava sob a minha
cadeira. Eu lhe contei todas
as coisas incrveis que Emma fazia para mim e tenho toda certeza de
que isso contribuiu decisivamente para o xito da entrevista. Foi-me
oferecido o emprego e eu
o aceitei, em vez de ficar com o primeiro, em parte porque ali ganharia
mais e tambm porque a Whytecliffe's ficava perto de minha casa cerca
de 15 minutos a p.

Comecei logo que terminei de cumprir meu aviso prvio na Industrial
Pumps, tempo em que o Departamento de Correios converteu a mesa
telefnica da Whytecliffe's Garage,
um servio excelente, merecedor de todo crdito. As outras moas
da empresa ficaram surpresas quando apareci para trabalhar pela primeira
vez com aquela grande labrador.
A maioria percebeu que Emma era um co-guia, mas uma garota
aproximou-se de mim e perguntou:

- Como voc conseguiu trazer seu cachorro para o trabalho? No
est correto. Eu gostaria de trazer o meu tambm. Ela se espantou
quando expliquei por que Emma estava
ali, Uma ou duas moas comearam a duvidar de que eu fosse

81

realmente cega. Elas tinham me visto pela janela do escritrio
atravessando a faixa de pedestres e vindo direto para a porta do
prdio e no podiam acreditar que
Emina fosse a responsvel por aquilo. Alm disso, Emma era to
eficiente para me levar a qualquer parte do escritrio que logo
aprendi a andar sozinha por l. A
despeito do fato de elas terem visto que eu operava a mesa telefnica
pelo tato, escrevia recados em braile e tateava meu livrinho de
telefones  procura de nmeros,
acharam que tudo aquilo no passava de um charme que eu fazia.
Pensavam que de alguma forma, por um motivo que eu jamais pude imaginar,
eu estivesse pregando uma
grande pea em todos.

Decidiram, ento, que iriam resolver a charada. Eu trabalhava no andar
de cima de um escritrio comprido. Ficava no final do corredor e para
l chegar era preciso
passar por diversas mesas, arrumadas dos dois lados do caminho. A
passagem por entre as mesas era estreita. Do lado oposto ficava a
cantina. Depois que Emina havia-me
levado at l, durante os primeiros dias, na hora do ch, deixei
de me preocupar em colocar-lhe a guia para esse pequeno trajeto. Eu
sabia a direo da cantina e
podia me guiar bem at l, tocando os obstculos no caminho; era
s seguir em frente, por entre as mesas, dobrar  direita e l
estava a porta da cantina. Enima
tambm ia comigo, mas sempre corria na minha frente, pois sabia que
havia uma tigela de leite  sua espera.

O que aconteceu na manh em que as moas decidiram descobrir se eu
era realmente cega pode parecer srdido, at mesmo cruel; foi com
certeza algo impensado, mas
tenho certeza de que foi motivado por uma suspeita pura, embora
estpida. O que elas fizeram foi deixar cadeiras e outros objetos no
meu caminho. Ento, quando chegou
a hora do ch, pela manh, Emma saiu correndo na minha frente e eu
fui batendo em todos os obstculos que encontrei. Acabei no cho,
rolando alguns degraus. Fiquei
furiosa mas mantive-me calada, em ineio a um profundo embarao por
tudo aquilo. Uma das moas mais tarde me procurou e disse que sentia
muito, mas que elas achavam
que eu enxergava. Minha reao, aps tudo ter serenado, foi de
maior orgulho ainda por Emma, pois ela podia convencer os outros de que
eu no era cega.

Morando em Peel Street e trabalhando na Whytecliffe's, Emma tornou-se
muito conhecida no centro de Nottingliam. Ela

82

i aprendeu os nomes de todas as lojas e estaes de nibus que eu

usava. Fizemos muitas compras na grande Co-op, no Parliament Street.
Bastava eu lhe colocar a guia e dizer: "Vamos  Co-op, Emma", e l
amos ns, a cauda dela agitando-se.
Ela adorava fazer compras. Um dos motivos de gostar tanto assim 
porque era ela que ditava as regras. Regra um: podamos fazer compras
em qualquer lugar que quisssemos,
qualquer lugar mesmo, mas a primeira loja a ser visitada era uma loja de
artigos para animais. Aonde quer que fssemos, era preciso escolher um
trajeto que passasse
por uma dessas lojas. Entrvamos l e depois de comprar biscoitos em
forma de osso, ou goma ou pastilhas de rhocolate com vitamina, a
operao podia continuar. Contudo,
no caminho para a Co-op tnhamos de passar por uma segunda loja de
artigos para animais, embora "passar" no seja o termo exato, Ao
chegarmos diante da loja, Emina,
parava com as patas dianteiras na soleira da porta, com a expresso de
quem diz: "Bem, aqui estamos em outra loja de artigos para animais, caso
voc tenha esquecido
de comprar alguma coisa na outra." Eu dizia ento: "No, no,
Emma, vamos para a Co-op." E ela tinha o temperamento bom o suficiente
para aceitar que sua sugesto
no fora aceita.

A regra dois sobre fazer compras era que no devamos jamais deixar
escapar uma oportunidade de visitar um aougue, no importa o que
estivesse acontecendo ou quantos
aougues houvesse no nosso percurso. Esta era unia terrvel fraqueza
de Emiria e ficamos conhecidas em todos os aougues do centro de
Nottingliam, num raio de cerca
de cinco quilmetros.

Estamos caminhando tranqilamente e eu, embora concentrada em Entiria,
vou pensando o que fazer para Anita e eu no jantar. Quando de repente,
sem qualquer aviso,
sinto-me numa loja com serragem no cho e um cheiro inconfundvel e
sem a menor inteno de comprar carne moda. Muito embaraoso.
Mas o aougueiro aceitava tudo
com bom humor e tratava Errima to bem que s vezes lhe dava algum
brinde por sua iniciativa e,  claro, por sua beleza tambm.

No entanto, uma vez levando     a srio a atividade de fazei compras,
Errima era espantosa. Sua mente era uma enciclopdia cheia de nomes de
lojas. Era preciso apenas
eu dizer o nome e logo estvamos l. Ela era igualmente
extraordinria, se  que isso no  pouco, dentro de uma grande
loja como a Co-op.

83

Sabia no apenas como chegar l mas tambm a localizao de
todos os departamentos e de todos os balces. Eu dizia apenas: "Emma,
procure a seo de alimentos" ou:
"Procure a seo de remdios" ou: "Procure a seo de
calados", e era levada aonde quisesse sem que jamais ela cometesse um
engano. Seni qualquer hesitao, abria
caminho entre as outras pessoas, desprezando os diversos aromas
tentadores.

Ela tambm sabia o que significavam as palavras "escada" e "elevador".
Adorava andar de elevador na Co-op, mas no gostava muito da escada.
Quando eu dizia a palavra
elevador, ela saa meio apressada, puxando-me, querendo ser a primeira
a entrar nele, houvesse ou no uma fila a ser seguida. s vezes eu
queria subir apenas um
andar e ento dizia: "No vamos esperar pelo elevador, Erama, vamos
mesmo pela escada. Procure a escada." Procurar a escada? Ao ouvir este
comando Emma seguia imediatamente
para o elevador.

Certa noite na primavera de 1969, Anita chegou em casa parecendo muito
deprimida.

- Sheila - disse ela - tenho algo para lhe dizer: o escritrio vai me
transferir para Grantham.

- Oh! - exclamei. - Quando?

- Depois de julho, mas sinto-me mal porque sei que voc sozinha no
pode pagar o apartamento.

Era verdade. Eu ganhava nove libras por semana naquela poca e o nosso
aluguel era de seis libras semanais. Aquela notca pegou-me
desprevenida. foi um verdadeiro
choque e alm disso fiquei triste tambm pela perspectiva de perder
minha companheira.

O que mais desejava, logicamente, era casar com Don. Mas ele ainda
queria esperar um pouco, pois era pai de uma menina, Susan, e sentia que
tinha a responsabilidade
de esperar at que ela ficasse mais velha e pudesse compreender o que
estava acontecendo em casa. Ele achava que deveramos esperar at
que ela completasse 14 anos.
E Susan no tinha nem 1O ainda. Estava temeroso de que Susan no me
aceitasse e que crescesse culpando-o por romper a vida em famlia. Na
verdade eu no concordava
com ele mas respeitava sua posio. A espera, porm, era muito
difcil para ns dois; parecia uma eternidade.

84

Eu tinha de esperar sempre por Don, porque nvariavelmente ele ficava
trabalhando at cerca de nove da noite e constantemente ainda ficava
com os clientes por mais
algum tempo. s vezes, quando comeava a chover, Emina e eu
estvamos ensopadas quando ele chegava. Certa vez me disse que ao nos
ver ali de p, esperando por ele
como duas rfas, eu com meu chapu de l encharcado e Emina com o
plo todo molhado e a cauda cada,  que percebia quanto eu
gostava dele. Comentou depois:

- Eu encostei o carro no meio-fio e voc no ouviu por causa do
barulho da chuva. E vocs duas formavam uma cena triste, terrvel. E
eu pensei: essa garota deve
mesmo me amar.

A perspectiva de morar sozinha encheu-me de ansiedade. Embora fosse o
ltimo degrau para a independncia completa, significava tambm
que eu tinha de ser capaz de
me arranjar sozinha. Eu no sentia medo de ficar s, porque Emina
estaria comigo e com a ajuda dela eu me sentia apta a lutar. Mas no
haveria ningum para ler as
cartas para mim, ningum para ler as instrues escritas na
embalagem da sopa ou da mistura para bolo. O que eu faria se um
fusvel queimasse? A luz no me importava,
mas o ferro de passar e as tomadas de eletricidade sim. Havia tambm o
lado positivo da questo, pois morando s eu poderia arrumar o
apartamento de modo a que eu
soubesse exatamente onde tudo ficava: como o sof ficaria em
relao  mesa, a posio da mesa em relao  poria, e
assim por diante. E ningum faria qualquer alterao,
por menor que fosse, nas coisas.

No havia outra coisa a fazer a no ser procurar outro lugar para
morar. Mas pelo menos havia algum tempo para essa procura. Felizmente eu
estivera por algum tempo
na lista do conselho de habitao; ia sempre procurar os
funcionrios do conselho, mas nada havia para mim. Eram, porem, muito
amaveis e compreendiam minha situao.
As semanas escoavam. No saa nos jornais nada que eu tivesse
condies de pagar. Nem nas imobilirias eu conseguia alguma
coisa. Decidi, ento, voltar ao conselho:
com o passar do tempo eu estava ficando desesperada. Dessa vez os
funcionrios disseram que fariam o que fosse possvel e o mais
depressa que pudessem. E eu pensei
que talvez devesse aquele resultado mais a Emma, sentada ali com
expresso pattica, do que a minha fora de persuaso; pois o
homem

85

que me entrevistou naquela ocasio brincou muito com ela e ela
respondeu aos agrados dele da forma mais simptica. Em uma semana
recebi uma carta oferecendo-me um
apartamento na 11keston Road, cerca de cinco quilmetros alm do
lugar onde eu morava na poca.

Fiquei muito aliviada; mas depois veio a m notcia. No era
permitido ter animais no apartamento e, embora pudesse ser feita uma
exceo a Emma, por ser um co-guia,
eu teria de me desfazer de Tiss. Regras  parte, teria sido cruel
deix-lo no quartero, mas isso no me deixou menos abatida.
Ele e Enima eram muito ligados um
ao outro. Tiss sempre esperava por ns,  noite, sentado no poro
de Peel Strect e geralmente passava a noite deitado em cima de Enima.
Pensei qual seria a melhor
soluo e decidi colocar um anncio no Nottngham Evetng
Post. Depois de um dia ou dois recebi um telefonema de uma famlia de
Beeston. Indaguei tudo sobre a famlia,
porque eu estava decidida a que Tiss fosse para um bom lar. Eles
pareciam o tipo certo de pessoas e marcamos um dia para que viessem
conhecer o gato. Uma coisa curiosa
 que no dia que eles deveriam aparecer Tiss parecia saber o que
estava para acontecer e desapareceu. Finalmente o encontramos no
sto. Fiquei sabendo mais tarde
que Tss se adaptara bem e que parecia feliz, mas no pude aceitar o
convite para ir visit-lo. Ele fora uma parte muito importante de
nossas vidas e achei que
no devia me encontrar com ele num ambiente estranho.

Quando estava perto do dia da mudana para Peel Street, havia caixas
de papelo por toda parte e Enima sabia o que estava acontecendo.
Longe de estar perturbada
com a perspectiva da mudana, estava determinada a no ficar de fora
do que lhe pareceu uma animada brincadeira. Toda vez que eu iniciava a
arrumao de uma das
caixas ela me trazia todos os seus brinquedos de borracha cheios de
apitinhos e os colocava, um a um, dentro da caixa. No se pode negar
que era algo construtivo.
Mas infelizmente, logo que eu comeava a arrumar outra caixa,
descobria que l dentro, onde devia estar vazio, havia brinquedos com
apitinhos etc. O jeito ento
foi encaixotar todos os pertences de Emma, formalmente, depois
desencaixot-los e transferilos para a outra caixa. Era uma enorme
perda de tempo, mas Enima no se
importava. Ela ficava perto de mim e abanava a cauda de modo aprovador.

86

Quando o novo apartamento finalmente ficou a minha disposio,
mame foi at l para me ajudar na limpeza. Chegamos ao
quarteiro onde ficava o apartamento e todos
os edifcios pareciam iguais, cada um deles uma pequena caixinha
dentro da qual eu imaginava uma srie infinita de corredores, todos
idnticos, e para os quais havia
acesso por elevador, escada ou rampa. Foi uma experincia terrvel
esse encontro com nossa nova casa. Minha me demorou muito at
encontrar o nmero
103, o nosso apartamento; quando finalmente entramos e pusemos no cho
o material de limpeza, mame disse-me:

- Shefia,  terrvel. Estou muito preocupada. Voc nunca achar
o caminho certo para entrar e sair daqui. Onde o pessoal do conselho
estava com a cabea ao destinar
este apartamento para uma pessoa cega?

- Mas, mame - respondi - eu tenho Erama. No preciso de um lugar
especial somente porque no enxergo. No quero esse tipo de coisa.

Mas ela insistia:

- No, amanh mesmo irei ao conselho para cuidar disso e conseguir
outro apartamento.

- No, mame, no - pedi. - Realmente no quero tratarnento
especial. Est timo para mim. Erarna  capaz de me ajudar a
entrar e sair daqui.

Finalmente consegui convenc-la e comeamos a limpeza. Deixamos tudo
pronto para a chegada da mudana, que vinha num pequeno furgo que
Bob, um amigo nosso, nos
alugara. Nas semanas que antecederam a mudana, consegui, atravs da
boa vontade de algumas pessoas, uma moblia que seria o suficiente
para comear, pois o apartamento
de Peel Street fora alugado mobiliado e no pude retirar nada de l.
Minha me deixou que eu levasse um sof e uma cama, alguns amigos
arranjaram-me mesas e cadeiras
melhores do que  eu estava esperando conseguir e assim por diante. Don
me deu    uma mesinha para o telefone, quando fosse instalado, e a
nica coisa que comprei
foi um fogo a gs. Quando o apartamento   j estava mais ou menos
limpo, segundo os padres de minha   me, paramos para tomar um
pouco de ch. Mas ainda no havia
nada em casa e uma de ns tinha de ir  mercearia. Minha me
imediatamente disse:

- Eu vou.

87

- No, no - respondi. - Eu vou com Enuna. Assim comeamos a
conhecer melhor o lugar.

Ela ficou horrorizada. Era evidente que ainda estava preocupada.

- No, Sheila. No vou deixar que voc saia sozinha. E ento
voltamos  velha discusso.

- Mas, mame, eu no estarei s. Tenho Enuna. Temos de comear
algum dia, e pode ser agora mesmo.

Eu sabia que provavelmente Emma era mais capaz do que eu e minha me
juntas, mas no disse isso. Finalmente, depois de relutar muito, ela
concordou com minha sada.
Quando Erama e eu estvamos j no corredor minhas palavras foram:

- Se no voltarmos dentro de trs dias chame a Socedade Protetora
dos Animais.

Para falar a verdade, minha me nunca vira a atuao de Enuna num
lugar desconhecido, j que ao virmos para o novo apartamento mame
me guiara e Emma teve um perodo
longo de folga. Teria sido mais rpido e mais fcil se eu tivesse
confiado em Erama. Mesmo assim, fomos andando pelo corredor de laterais
abertas. mma no teve
nenhuma dificuldade para encontrar o elevador e chegamos ao trreo.
Mas j que eu no conhecia nada por ali, no podia seguir meu
comportamento costumeiro de pedir
a Enima para encontrar determinada loja. Em vez disso, eu precisava
pedir a ela para achar uma loja, qualquer que fosse, onde eu pudesse
pedir informaes. Eu disse
a ela enquanto caminhvamos:

- Etrima, vamos comprar ch, acar e leite.

Se por sorte ou porque Enima realmente reconheceu sua aparncia nunca
saberei, mas a primeira loja em que entramos era uma mercearia de
esquina. Depois de comprar
tudo que desejava, samos e voltamos para casa. No elevador eu
precisava contar os botes para apertar o que correspondesse ao quinto
andar. Seguimos pelo corredor
e voltamos sem hesitao at em casa. Minha me ficou admirada
mas apesar das evidncias continuava achando difcil aceitar a
habilidade de Emma.

Sa para telefonar para Don. Mame dsse-me ande tinha visto uma
cabine de telefone pblico. Ficava do outro lado da rua principal,
diante dos prdios. Emma ouviu
a expresso "cabine telefnica" e me levou direto para o outro lado
da rua, no lugar certo. Mas quando entrei na cabine e procurei pelo
fone,
88

no o encontrei. Corri minha mo pelo fio e este acabou sem que eu
achasse o fone. A cabine certamente fora alvo de algum tipo de
depredao. Senti-me terrivelmente
frustrada; e o pior  que no tinha idia do que fazer. Estava
ansiosa para ligar para Don e lhe contar como correra a mudana e como
era o novo apartamento. Eu
disse a Erama:

- No tem telefone, Emma. O que vamos fazer? Finalmente resolvi que
era melhot procurar ali por perto por outra cabine. Esperava encontrar
algum que pudesse me
dizer onde ficava a mais prxima. Ento disse a Emma para seguir
pela rua principal. Mas ela no obedeceu. Em vez disso, levou-me de
volta e enquanto andava imaginei
que ela devia ter achado que eu fizera a ligao e que devamos
voltar ao apartamento.

- No, Errima, ainda no fiz o chamado. Precisamos achar outra
cabine. Volte, vamos descer por esta rua,

Mas ela continuou na direo que havia escolhido e, segundo eu
pensava, estvamos indo para os prdios. Ela continuava andando,
apesar dos meus protestos. Depois
ento levou-me para uma rua transversal. Senti no cho pedaos de
tijolos e cascalho (fiquei sabendo algum tempo depois que ali havia
algumas construes e demolies
de casas velhas). Tentei fazer Errima parar, mas ela prosseguia de
maneira determinada por aquela rua cheia de altos e baixos. Em seguida
dobrou numa outra rua e
sentouse. Senti que havia alguma coisa ali, estiquei o brao e tateei
a estrutura de metal e vidros de uma cabine telefnica.

- Emma -      exclamei - como voc pode ser to espcra? Como
voc sabia?

Ouvi a cauda  de Emma batendo no cho. Como ela descobriu aquela
cabine continuou sendo para mim um mistrio insolvel. Nenhuma de
ns estivera antes naquela rua.

89

captulo oito

Curso Noturno

As aulas noturnas que eu freqentei juntamente com Anita refletiam
nossas paixes distintas por ler e escrever. Minha leitura era feita
com o auxlio de livros sonoros,
um maravilhoso sistema de fitas cassete criado para os cegos, com a
gravao de um grande nmero de autores, de Thomas Hardy a lan
Fleming.

Mais tarde, porm, recebi outra sugesto. Kath HilI, outra
Proprietria de co-guia, telefonou-me certa noite e perguntou:
-   Sheila, o que acha de fazer um curso noturno especial para cegos?

Minha reao imediata foi:

- Parece maravilhoso. Mas que tipo de curso?

- Maquilagem e beleza. Recebi o telefonema de uma pessoa que est
querendo iniciar uma turma para cegos, desde que haja nmero
suficiente. Voc acha que haver muita
gente interessada?

- Eu certamente me interesso. E acho que muitos outros tambm
gostaro.

Conversamos um pouco mais sobre as possibilidades e quanto mais
discutamos o assunto mais atraente a idia nos parecia. Eu usava
sempre maquilagem, mas jamais tive
condies de fazer algo mais elaborado, Colocava base e batom; a
base era fcil de usar porque tinha de espalh-la por todo o rosto;
o batom tambm era simples porque
eu conseguia sentir meus lbios e dessa forma no passava o batom
por fora deles. A perspectiva de poder fazer mais coisas em termos de
maquilagem era algo encantador.

90

O curso foi coordenado pelo Derbyshire, Education Committee e em
particular por David Selby, que na poca era chefe das atividades
educacionais para adultos. Era
um homem de multa viso, cujas idias estavam muito alm dos
limites normalmente ensinados em cursos noturnos. E tinha uni interesse
especial em ensinar aos cegos.

As vagas, logicaniente, eram limitadas, a fim de que o professor pudesse
dar a devida ateno a todos. Telefonei para todas as minhas amigas
cegas e obtive uma boa
resposta. Um dos maiores problemas, como chegar a Sandiacre, cerca de 15
quilinetros alm de Derbyshire, foi   resolvido antes do incio
das aulas. Foi feito com
contato com  o Instituto de Cegos de Noffingham solicitando um
micronibus para levar os alunos s aulas.

A primeira noite trouxe um   grande alvoroo. Cerca de dez pessoas
inscritas, seis delas com ces-guias. Quando nos juntamos no
micronibus houve muita, alegria
e caudas abanando, particularmente entre Emma e a cadela de Kath,
Rachel.

Nossa professora chamava-se Joan Dickson e, apesar do fato de ela no
ter experincia anterior com cegos, era muito encorajadora. Na
primeira aula ela tratou dos
cuidados com a pele. Disse a cada uma de ns qual nosso tipo de pele e
a cor do cabelo e como escolher a base; por exemplo, uma base cor de
pssego, meio-tom, ficava
bem para cabelos castanhos e olhos escuros, como no meu caso.

Falou, tambm, sobre as bolsinhas para maquilagem, algo que as
mulheres cegas jamais tinham em mente. Porm, a parte mais importante
do curso veio mais tarde, quando
tivemos de usar diversos tipos de maquilagem em que nunca havamos
pensado: sombra para os olhos, rmel e delineador. Eu no fazia a
menor idia de como usar tudo
isso. Joan comeou a falar, ento:

- Em primeiro lugar, vocs precisam escolher a cor que vo usar. Se
forem usar um vestido verde, ento precisaro de uma sombra verde.

Pode parecer estranho, mas aquilo nunca me ocorrera, e era algo to
simples.

- Depois - Joan continuou - devem combinar a cor do batom com a cor do
vestido e da sombra. Em caso de vestido e sombra verdes, o ideal  um
batom rosa.

Eu estava fascinada.

91

Mas ainda restava um problema: como aplicar a sombra? Joan aproximou-se
de cada uma de ns e fez a demonstrao. E atravs da
percepo tctil conseguimos aprender.
Ela aplicou a sombra em mim e percebi que poderia fazer a mesma coisa
pelo tato, e que o osso que fica acima dos olhos e ao lado deles poderia
ser um bom guia, ao
mesmo tempo que os clios serviriam como limite para a sombra. O
rmel era algo um pouco mais difcil e mesmo com certa prtica
s conseguimos um sucesso parcial.
Ningum achou possvel colocar o rmel nos clios inferiores. O
delineador era fcil porque a linha existente acima dos clios podia
ser sentida e depois era s
segui-la. Mas embora eu diga que era mais fcil, levou algum tempo,
durante o qual praticamos muito e com cuidado, at que
consegussemos fazer corretamente uma
maquilagem. E Joan tinha uma pacincia infinita. Aproximava-se de cada
uma e dizia como estava saindo o trabalho. Com certa freqncia era
preciso retirar o que
estvamos usando e comear tudo outra vez.

Cuidar das unhas foi outra coisa que Joan nos ensinou. At ento eu
usara esmalte, mas pintava as unhas e parte do dedo tambm. Depois que
o esmalte secava, eu o
retirava da pele. Uma colega de trabalho certa vez me viu fazendo isso e
comentou:

- Voc est retirando todo o esmalte que est em tomo das suas
unhas. Sempre imaginei como voc conseguia se pintar.
- Bem - respondi - a.-'ora voc sabe como fao isso. Mas Joan
ajudou-me a passar o esmalte de maneira correta

e eficaz, tocando primeiro a parte da unha sobre a cutcula; depois
passando o pincel para cima at o fim.

O curso foi um grande sucesso e fez com que eu me sentisse
maravilhosamente bem quando saa com Don, porque finalmente eu tinha
condies de me arrumar adequadamente.
Algumas pessoas s vezes perguntavam:

- Quem fez sua maquilagem? Agora eu podia iesponder:

- Eu mesma.

E isso me dava uma grande sensao de bem-estar e de ser igual aos
outros.

O curso sobre maquilagem e beleza de fato foi timo, e David Selby
ficou to impressionado com cos resultados que se animou a promover
outros cursos noturnos exclusivamente
para

92

cegos. O prximo assunto foi arranjos florais. As cores, obviamente,
eram um obstculo. Contudo, algumas flores tinham o formato das folhas
e das ptalas to diferentes
que era possvel distingui-las pelo tato; a partir da podamos
comear a conhecer as cores. Como os narcisos so inconfundveis
aos dedos, pode-se saber imediatamente
que se est com uma flor amarela nas mos. Da mesma forma os
crisntemos so fceis de ser identificados; e assim podemos
distinguir o vermelho fechado ou o amarelo
e ter condies de fazer um arranjo.

Alm disso, o que tnhamos aprendido no curso de maquilagem sobre
combinao de cores foi-nos til nesta outra atividade. Os outros
me diziam quais as cores que
combinavam e quais as outras que jamais poderiam ser colocadas lado a
lado, mas foi somente depois deste curso noturno que gravei realmente as
vrias combinaes
possveis e impossveis. Aplicando todo este conhecimento e usando
os prendedores com os quais aprendemos  a trabalhar, fizemos alguns
arranjos bem interessantes.

O prximo curso, corte e costura, foi uma aventura maior ainda. Na
escola eu tivera aulas de costura mas nunca me deixavam  chegar perto da
mquina para praticar.
E as poucas tentativas que fiz no deram bons resultados. As
professoras no haviam sido treinadas para ensinar a um aluno cego
algo para o que  a viso era um recurso
indispensvel. Mas o curso noturno, com suas duas professoras, Trene e
Hazel, foi muito diferente.

Comeamos pelas tcnicas bsicas. Todas ns recebemos pequenos
retalhos de fazenda, enquanto as professoras mostravam como costurar com
l ou com um fio mais forte.,
em vez de usai algodo fino. Dessa forma podamos saber, pelo tato,
o que estvamos fazendo. Depois recebemos moldes de saias. Mas no
lugar de moldes feitos de tecido
ordinrio, as professoras usavam moldes de papel mais grosso, com uma
textura parecida com a do papel de parede. A idia de Irene e Hazel
era de que com um papel
mais resistente ns mesmas teramos condio de cortar os
moldes. Elas havam marcado toda a volta do papel, cerca de uma polegada
a partir da beira da folha, de
modo que depois de cortar-mos os moldes pudssemos dobr-los e,
sentindo essas marcaes, fazer a costura. Elas tinham colocado
pequenas marcas onde deviam ficar
os pontos e ento podamos costurar em torno dessas marcas enquanto
tnhamos os moldes

93

sobre o tecido. Depois de retirar o molde, podamos sentir com as
mos onde a costura havia passado. O mtodo era uma maravilhosa
inovao para os cegos e as duas
professoras haviam conseguido esse aperfeioamento depois de passarem
algum tempo costurando com venda nos olhos. Aps muitas tentativas
descobriram o que uma pessoa
cega pode ou no fazer.

Em seguida comeou o trabalho na mquina de costura eltrica. Em
todos os comandos da mquina havia instrues em braile. Irene e
Hazel haviam providenciado um protetor
para a agulha e tambm uma guia, na forma de um pedao de metal
comprido, para que tivssemos certeza de que o material usado estava
seguindo na direo certa.

Embora eu admirasse tudo isso e sentisse que era capaz de manejar a
mquina adequadamente, fiquei relutante em fazer meu primeiro
trabalho. Estava ouvindo todas
as outras usando a mquina, aquele barulho intermitente da costura.
Ento Hazel aproximou-se de mim e disse:

- Sheila,  sua vez agora.

-  J?      perguntei.     Deve haver algum na minha frente.

-  No      respondeu     todas j trabalharam na mquina. Venha,
ela no vai morder voc.

Fui at a mquina e passei a mo sobre ela cuidadosamente. Depois
disse:

- E se enfiar minha mo na agulha e me machucar?

-  No acontecer isso - respondeu Hazel. - H um protetor para a
agulha.

Tive ento de comear e depois de colocar meu material na mquina
tudo correu razoavelmente bem. Senti que precisava ter cuidado, quanto
 velocidade, que era controlada
por um pedal. Escolhi uma velocidade mais lenta, de modo que pudesse
sentir o que estava fazendo e evitar erros. A princpio sentia o
material correndo por entre
meus dedos, mas no sabia o que estava acontecendo com ele. Eu estava
com o corpo um pouco curvado sobre a mquina, mas Hazel estava a meu
lado para me ajudar. E
finalmente dominei a tcnica, embora isso no tenha evitado que
cometesse alguns erros. Erros que teriam me custado o emprego caso
trabalhasse como costureira numa
empresa.

Eu estava fazendo, por exemplo, uma cala e fui deixada sozinha na
mquina. Mas quando senti o resultado do meu tra94

1

balho, no consegui entender o que acontecera. Em vez de uma cala
eu tinha feito uma blusa muito comprida! Tinha costurado as partes de
modo errado. De outra vez
fiz um vestido que tinha uma manga para fora e outra para dentro. Embora
soubesse que jamais trabalharia para Hardy Amies, passei momentos muito
agradveis no curso,
como todas as outras. Muitas delas tinham muito mais habilidade do que
eu e fizeram roupas muito bonitas. Embora precisssemos de alguma
ajuda vinda de pessoas que
enxergassem - apesar de certos recursos como fita mtrica em braile -
todas sentimos, ao final do curso, que tnhamos conseguido algo de
muito    valor para nos.
Mesmo assim eu contava sempre com o apoio     de Don na hora de fazer
uma bainha ou tirar uma medida sem erros.

O principal mrito     dos cursos noturnos foi o de aumentar a
confiana em       nossas possibilidades. Tanto  verdade que muita9
de ns      resolvemos formar
um grupo teatral para os cegos de Nottingham. Sabamos da existncia
de grupos

1 similares em outras cidades. Em Londres, por exemplo, havia
           1 um no Centro Israelita para Cegos. Pusemos a idia em
prtica.

Tivemos permisso do Instituto para Cegos de nossa cidade para fazer
ensaios em suas dependncias e encontramos dois professores de teatro
que nos ajudaram.

Na primeira reunio enfrentamos alguns problemas. Havamos escolhido
duas pequenas peas com apenas um ato cada uma: Acompanhante para uma
Dama, de Stariley Houghton,
e O Prezado Defunto, de Mabel Constanduros e Howard Agg. Mas pre
cisvamos decidir como cada um faria para decorar sua parte.
           i Um dos professores sugeriu que a pea fosse gravada e que
de
i corssemos nossas falas a partir da fita gravada. Foi timo assim.
               i
1
O outro problema era como caminhar pelo palco.  claro que

no podamos levar nossos ces-guias conosco. Ficou acertado no
final que o palco seria devidamente dimensionado para ns, da mesma
forma que as distncias entre
as peas do cenrio. Alm disso, seria colocado um tapete na
extremidade do palco, antes dos refletores, para evitar que algum
ultrapassasse aquele limite e fosse
cair na fila A. Isso funcionou bem, embora significasse que alm de
decorar nossas falas tnhamos de decorar cada movimento: sete passos
no fundo do palco e virar
para a direita, cinco passos da lateral e voltar-se para a platia, ou
dois passos  esquerda e sair de cena pela direita.

95

Ns nos divertamos muito durante os ensaios, at que chegou
finalmente a noite do ensaio com os trajes da pea. Tnhamos feito
contrato de duas noites com um teatro
amador local e todos os ingressos j haviam sido vendidos. Eu
precisava entrar correndo em cena porque algum tentara matar minha
tia; correr at a extremidade do
palco, sobre o carpete de marcao (onde minha tia estava deitada na
cama), sentar-me a seu lado e confort-la. Depois ir at o telefone,
do lado esquerdo do palco,
e chamar a polcia. Durante os ensaios no havia telefone e eu
apenas fingia que estava no aparelho. No dia do ensaio com os trajes da
pea, a  maioria das partes
do cenrio estava em cena, mas haviam me      dito que s haveria o
aparelho telefnico no dia da estria.

Infelizmente, as coisas no correram to bem quanto desejvamos.
Minha     participao, na verdade, foi um, fracasso do principio ao
fim.  Entrei em cena rapidamente
e gritando: "Ttia, estou aqui, estou aqui" e me precipitei para o
lugar onde ela se encontrava. Senti o carpete de marcao sob meus
ps e volteime para sentar
na cama, mas calculei mal a distncia e empurrei a cama e minha tia
para dentro do palco e acabamos ns duas sentadas sobre uma pilha de
roupas e madeira. E morremos
de rir com aquilo. Para desespero meu, ouvi muitas gargalhadas, vindas
da platia, e s ento fiquei sabendo que algumas pessoas haviam
sido convidadas para assistir
quele ensaio. Sentime muito embaraada. Depois que me recuperei e
recompus, corri para o lugar onde deveria ficar o telefone, fingi que
apanhava o fone e disquei
para a polcia. Depois sa de cena enquanto a audincia murmurava
alguma coisa que no entendi direito.

Corri para os braos da diretora, nos bastidores, e ela imediataniente
disse:

- Por que voc ficou brincando? E o telefone?
- Fiz a parte do telefone, eu fiz - respondi.

- No, o telefone estava l, sua boba. Voc estava a uma polegada
do aparelho e ficou fingindo que estava com o fone na mo. A
audincia no entendeu a brincadeira.

Mas as desgraas daquela noite no terminaram a. Todos ns,
depois de encenada a pea, ficamos no palco para o pano se abrir
novamente e podermos agradecer os aplausos.

96

A moa que fizera o papel de minha tia tinha perdido um de seus chinelos.
Quando estvamos todos no palco, ela disse:

- Depressa, perdi um dos meus chinelos. Ajudem-me a encontr-lo.

E quando a cortina se abriu novamente, estvamos todos de quatro, no
cho, procurando o p de chinelo dela. Suponho que coisas mais
estranhas devam ter acontecido
na histria do teatro ingls, mas no consigo imaginar o qu.

Foi mais ou menos nessa poca que me tornei uma vendedora da Avon.
Certa noite Don e eu estvamos conversando sobre minhas finanas
(nunca havia dinheiro sobrando)
e perguntei-lhe se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para ganhar
algum dinheiro a mais, alm do salrio que recebia na garagem. Eu
bem sabia que, por no poder
enxergar, tinha menos oportunidade de conseguir algo. Por acaso uma
vendedora da Avon havia ligado para Don quela noite e ele achou que
eu poderia fazer aquilo.

A princpio fiquei hesitante.

- Oh, Don, no posso ir de casa em casa tentando vender coisas aos
outros. E h uma srie de fichas para preencher. E voc sabe que
eu no poderia fazer isso.

- Sim, voc pode. E se houver muitas fichas para preencher posso
faz-lo para voc. Por que no liga para a Avon amanh e pede
para falar com uma das representantes?

Afinal fiquei convencida, particularmente porque eu podia levar um
pequeno gravador comigo e gravar todos os detalhes das vendas. Telefonei
para a representante
local da Avon e ela me falou tudo sobre o esquema de comercializao
da empresa e como processar os pedidos. E dessa forma comecei a
trabalhar. Decidi que me limitaria,
pelo menos no incio, a 30O apartamentos do meu quarteiro e dos
quarteires adjacentes. Eu sabia andar por ali sem muita dificuldade.
E l fomos ns, Emma e eu.
Acredito que ela tenha ficado meio confusa, j que parvamos em
todas as portas para que eu fizesse a visita. Mas as coisas deram certo.
Os nmeros nas portas eram
grandes e eu podia me situar bem. Caso algum no estivesse em casa
quando eu passasse por l, eu simplesmente anotava o nmero do
apartamento na fita para que pudesse
voltar na noite seguinte.

A resposta foi muito melhor do que eu podia imaginar. Encontrei muita
gente interessada nos produtos de beleza que eu
105

estava vendendo e muitas vezes eu era convidada a tomar uma xcara de
ch. Mas meu sucesso devia-se em grande parte a Emma. A maioria das
pessoas daqueles prdios
j a conhecia, por t-la visto comigo na rua. E alm do interesse
nos produtos Avon, todos gostavam da oportunidade de brincar com ela. E
bem provvel que a expresso
de Emma, que se mantinha quieta, quisesse dizer: "Compre alguma coisa,
caso contrrio ela no poder me dar comida amanh." Por isso ou
no, s sei que as encomendas
eram feitas. Uma vez por semana ns retirvamos os pedidos da fita e
Don levava horas preenchendo as fichas de venda.

Aquilo era algo interessante, no apenas financeiramente. Atravs
desse servio formei um novo crculo de amizades. Alm disso havia
muitas donas-de-casa que quase
no saam, a no ser para fazer compras, e que recebiam poucas
visitas. Havia muitas pessoas vivendo sozinhas naqueles apartamentos e
acho que gostavam de que eu
as procurasse, pois s assim tinham oportunidade de conversar um
pouco. Era surpreendente, tambm, como me sentia capaz de ajudar de
outras maneiras. J que tinha
feito o curso de maquilagem, dava alguns conselhos. Muitas mulheres
pediam orientao sobre o tipo de sombra que deviam usar. Eu
costumava perguntar: "Qual a cor
dos seus cabelos? E dos olhos? Qual a tonalidade de sua pele?" Conforme
a resposta, eu dizia qual o tipo de sombra que considerava o mais
recomendvel.

Esse trabalho era realmente maravilhoso e me dava muita confiana. Eu
pensava ento: "Sou cega mas posso ajudar essas pessoas. Espero que a
partir do que eu diga
ningum saia por a usando a cor errada de batom!"

106

capitulo nove

Emina Salva Minha Vida

Depois de ter Emma comigo por quase um ano, resolvi tornar-me uma
oradora oficial sobre os ces-guias: ou seja, falar s pessoas sobre
o trabalho desses animais
e ajudar a levantar fundos para a associao. Emma fizera muito por
mim e por isso eu queria tentar ajudar. No apenas por isso. Mas
estava ansiosa para contar como
era maravilhosa e tudo mais sobre ela.

A primeira palestra que fiz foi conseguida atravs de Anita. Ela me
convidou a participar de uma das reunies da igreja que ela
freqentava. Disse que tinha falado
muito sobre Emma com as pessoas que conhecia e que por isso todos
desejavam conhec-la. Fomos at a igreja e me senti muito bem; era
isso o que eu queria fazer.
Chegamos ao saguo, onde Anita estava nos esperando, e sentamo-nos
numa das ltimas filas da igreja. Eu podia sentir que havia muita
gente (cerca de 150, fiquei
sabendo depois). Primeiro entoaram hinos e depois comearam as
oraes. No meio do "Guia-nos, Pai Celestial, Guia-nos" subitamente
senti-me enrijecida. E pensei:
o que me levou a querer fazer isso? Terei que ficar de p diante de
toda essa gente e falar. Devo estar louca. Quando o hino acabou, houve
um terrvel e pesado silncio.
Ouvi algum anunciando que haveria uma oradora. Pior ainda foi quando
ouvi meu nome sendo chamado.

Pediram para que eu fosse at a parte da frente da igreja. Coloquei a
guia em Emma, segurei-a bem e disse-lhe para ir em frente. Ela seguiu
pela nave central at
o altar. Eu esperava contar com seu apoio moral; mas  claro que no
houve qualquer manifestao dela. Assim que ela se voltou e viu a
audincia, foi para trs de
mim e deitou-se, com o focinho entre meus ps,

107
                numa atitude ciuc dizia tudo: ,Voc pode fazer o que
tem a fazer; eu estou bem escondida aqui."

Acredito que falei durante uns cinco minutos. Que me pareceram cinco
horas. Contei de modo hesitante, gaguejando um pouco, o que acontece no
centro de treinamento
e tentei explicar o que Emina significava para mim. A nica vantagem
era que, ao contrrio dos oradores que enxergam, eu no podia
sentir-me confusa com todos aqueles
rostos voltados para mim. Ao mesmo tempo, no tinha como avaliar a
reao da audincia nos momentos em que hesitava, tropeava e
dizia alguma coisa errada, apoiando-me
sempre num "A.. . " ou 'Sem. . . " Quando acabei de dizer tudo que
queria, o que no demorou muito tempo, continei de p, tremendo.
Mas, para meu espanto, recebi
uma grande ovao.

Eu quase no conseguia acreditar. Enima imediatamer?e levantou-se e
saiu de trs de mim, abanando a cauda (achando que os aplausos eram
para ela). Depois pegou a
guia no cho e foi caminhando at o final da igreja, passando por
todas as fileiras de cadeiras, e  lgico que todos ficaram
encantados com ela. A partir daquela
vez Enima certamente no sentiu mais medo de ir a palestras; quando eu
lhe dizia o que amos fazer, no havia quem a segurasse: Ertima
andava muito mais depressa
que o usual.

Tudo isso representou muito trabalho, pois era preciso manter os
registros, e novamente Don me ajudou muito. Comprei agendas e as
mantinha sempre atualizadas e todas
as semanas ns planejvamos o trabalho dos prximos dias. Nas
tardes de domingo, Don apanhava as agendas e me dava todas as
informaes de que eu necessitasse. Em
seguida eu transcrevia os dados para o braile, na minha mquina, e
durante a semana carregava as instrues comigo nas diversas
palestras que fazia.

Apenas uma coisa atemorizava Emina antes das palestras: a chuva. Ela
no gostava de sair quando estava chovendo e isso tornava as coisas um
tanto difceis. Era preciso
empurr-la para fora de casa, dizendo:

- Vamos,' voc no vai ficar molhada. Vou colocar seu grande capote
de pele.

Mas Emina, sabia que mesmo com o capote tinha quatro grandes patas para
deslizar na lama. Ir para o trabalho, ou melhor, convenc-la a me
levar ao trabalho quando
estava choven108

do era um custo. Ela firmava as patas no cho e recusava-se a andar.
Eu pedia, implorava, prometia coisas e at fazia ameaas (da forma
mais polida possvel). Finalmente
ela resolvia sair, de modo relutante, contudo, mas a eu j estava
atrasada e no podia dizer ao meu chefe: "Foi culpa de Emma."

Quando comecei a fazer as palestras, fiquei perplexa com as perguntas
que as pessoas faziam depois que eu encerrava minha explanao. Por
exemplo: "Como voce consegue
achar suas roupas pela manh?" Isso me pegava de surpresa. Jamais
pensara sobre o assunto. O que eu podia responder alm de: "Geralmente
sobre a cadeira onde as
deixei pela noite"? Eu sabia onde essas indagaes queriam chegar
mas algo que uma pessoa que enxergue pode achar muito difcil ou
inconveniente no  to complicado
assim para um cego. Voc sabe onde esto as coisas;  a sua vida.

A nica coisa que me desagradava nas palestras era o jantar que s
vezes precedia a exposio. Lembro-me especialmente de uma
terrvel ocasio em que tive de segurar
um coquetel de frutas, no qual havia grossos pedaos de abacaxi. Para
se ter uma idia melhor da situao basta qualquer um colocar uma
venda nos olhos e tentar
apanhar um pedao de abacaxi com a colher. Como esses pedaos da
fruta so ardilosos!

Comecei a caada e, j que no estava ouvindo os rudos de
talheres, percebi que estavam todos me olhando. Senti a tenso
aumentar. Era uma agradvel noite de vero
e eu estava com um vestido curto. Depois de algum tempo, consegui pegar
um pedao do abacaxi e o levantei com minha colher, mas descobri
ento que aquela parte estava
presa a diversos outros pedaos da mesma fruta, formando uma cadeia.
Pior de tudo foi que deixei a colher cair e com ela foi-se tambm a
pequena corrente de pedaos
de abacaxi. No era a melhor maneira de comear uma noite!

Havia sempre as "ajudas" bem intencionadas, particularmente quando eu
chegava. Geralmente sentavam-me numa cadeira e diziam: "Pronto, agora
no se mexa." Acho estranho
que as pessoas considerem os cegos como perigosos, coffio se fossem um
material explosivo que,  menor chance de vida independente e de
movimentos, pudessem provocar
desastres csmicos. Alm disso, os cegos so de um modo geral
tratados tambm como surdos e at como dbeis mentais. A
advertncia: "No se mexa"

109

era freqentemente um tipo de comando militar: "SENTIDO!" Eu ficava
ento sentada ali tensa e com medo de que algum me segurasse e me
fizesse ir a algum lugar.
Eu retirava a guia de Emina e despia o casaco. Isso era sempre fatal. No
momento em que me levantava para tal, era agarrada por todos os lados:

- O que voc deseja? O que houve? Por que est se mexendo?

O que me recompensava durante essas pequenas torturas era o fato de
saber que, quando eu me levantasse para falar, todos eles no poderiam
se mexer e eu poderia
ento demonstrar que era como qualquer outro ser humano e que apenas
no podia enxergar. Assim que eu me levantava, podia sentir a tenso
gerada pela perspectiva
de se ouvir uma cega: a ltima coisa que todos desejavam fazer era
rir. Mas eu acabava conseguindo que eles fizessem justamente isso,
embora quase sempre demorasse
um pouco.

Outra coisa que me recompensava nas palestras era que muitas vezes as
organizaes que eu visitava no apenas faziam uma doao 
associao mas tambm tentavam
levantar dinheiro para comprar um co-guia. O custo total de um animal
chega a
50O libras, incluindo a fase de treinamento como filhote, o treinamento
do co no centro e o treinamento da pessoa cega junto com o animal. O
custo apenas do treinamento
do co no centro  estimado em 25O libras. Quando uma pessoa recebe
seu co-guia, no precisa, logicamente, pagar esta quantia (se fosse
necessrio eu teria de roubar
um banco ou ainda estaria sentada em casa economizando para juntar o
dinheiro). Tudo que se exige  o pagamento de 5O pennies, o que
habilita o cego a receber seu
co-guia a despeito de sua situao financeira; isso, porm,
no significa aceitar caridade. Esse processo mostra somente que um
grande esforo foi feito para levantar
dinheiro para os ces-guias, com muitas pessoas de todas as partes do
pas devotando tempo e energia a esta causa. De forma que, quando
minha platia dizia ter vontade
de contribuir para a aquisio de um co-guia, eu me sentia muito
bem.

Certa vez planejei um evento para levantar fundos. Decidi realizar uma
caminhada patrocinada de cerca de 3O quilmetros (com Eirima na
frente,  lgico). Don e eu
levamos muito tempo para planejar tudo. Saamos de casa de carro e
pensamos em cada detalhe. Em seguida era preciso decidir como realizar o
]]o

evento. E neste particular tive muita sorte. A Universidade de
Nottingliam tem um departamento que trata da mobilidade dos cegos, e o
futuro Dr. Alfred Leonard sugeriu
que um pequeno gravador de bolso poderia ser utilizado como
orientao, digamos, retirada de um mapa.

O percurso seria gravado e bastaria levar o gravador e ouvir a fita
enquanto caminhava. Fizemos contato para conseguir que a universidade
nos emprestasse um pequeno
gravador (esse tipo de aparelho acabara de ser lanado no mercado e
custava caro). Depois Don e eu colocamos na fita o trajeto.

Don ajudou-me a percorrer todo o caminho, registrando quantas travessias
havia no percurso, onde dobrar  esquerda e  direita, que tipo de
calamento existia, os
diversos sons que poderiam ser ouvidos, as reas comerciais mais
movimentadas e a parte do caminho que ficava no campo. Don era
maravilhoso para registrar todas
as informaes. No apenas "ento dobre  esquerda perto dos
Correios", mas uma informao mais pormenorizada. Ele tinha um
incrvel instinto para isso, embora fizesse
algumas restries  caminhada em si.

- Acho um trajeto muito longo para voc andar, mais de
3O quilmetros - ponderou ele depois de mais uma sesso de
informao sobre a rota a seguir.

No se preocupe - respondi. - Emina. estara comigo. Sim, sei disso,
mas no gosto _da idia de voce sair por a sozinha; ou melhor,
vocs duas. E se vocs se perderem?

O percurso ia de Nottingliam a Wollaton, Stapleford, Nuthall e voltava
pela Alfreton Road at o apartamento. Ele persistia em sua dvida,
apesar de a caminhada ser
feita com Emina e de ei sempre dizer:

- Posso me informar no caminho. Eu sei falar.
- Eu sei, mas ainda assim no gosto da idia.

A principal causa da preocupao de Don era que eu no queria que
ele fosse comigo no dia da caminhada, porque a presena dele tiraria
toda a fora da promoo.
Mas no final chegamos a um acordo. Don concluiu:

- Teremos alguns pontos de checagem. E assim encontrarei voc em
diversos lugares ao longo do caminho.

Assim estava timo. Eu tinha na caminhada a companhia de outra
proprietria de co-guia, uma amiga minha chamada Wendy, que
desejava participar com sua cadela, Candy.
Mas Don,

111

e isso era tranqilizador, estaria por trs de tudo, certificandose
de que nada sairia errado. E aquela acabou sendo uma manh gloriosa.
Coloquei o gravador no bolso
e ns quatro partimos.

Havamos planejado a caminhada de tal modo que no passssemos
pelo centro de Nottingham. No trajeto havia muitos parques, de forma que
Enima e Candy pudessem ter
bastante espao livre para correr. Combinamos que, se elas ficassem
cansadas, ns desistiramos imediatamente. Na verdade no
importava muito se ns estivssemos
cansadas; era importante pensarmos nas cadelas, pois elas  que fariam
a parte pior.

Wendy e eu levvamos mochilas com sanduches, tigelas e muita
proviso de gua, alm de comida para Emma e Candy. Tudo correu
bem. Em nenhum momento pareceu que
j havamos ultrapassado os limites 'de Nottingham e entrado no
campo, j em Derbshyre. Don comparecia nos pontos de checagent,
certificava-se de que estava tudo
bem e determinava que continussemos, sempre com palavras de
encorajamento. Na parte da tarde, ainda continuvamos com muita
resistncia. Liguei o gravador para
saber qual seria a prxima parte do percurso e disse a Wcndy:

- Agora vamos passar por baixo de uma ponte. Procure prestar
ateno. Depois de passar por baixo dela, dobramos  direita e
pegamos a rua principal para voltar a
Nottingham.

- Est bem - respondeu Wendy e ns prosseguimos. Parecia-nos ter
percorrido uma grande distncia, mas no apareceu nenhuma ponte. E
ento as duas cadelas pararam.

- Voc ouviu passarmos por baixo da ponte? - perguntei.
- No, no ouvi nada.

- Bem, no podemos ficar as duas perdidas. Voc fica aqui que eu vou
averiguar.

Disse a Emma para seguir. Ela pareceu um tanto relutante. Mas finalmente
consegui que ela atravessasse a rua em que estvamos. Quando cheguei
do outro lado senti
que estava pisando em cascalho e pedrinhas, em vez de estar pisando numa
calada.

-  Estranho, Emma. Fico imaginando para onde estamos indo. - Ela parou
novamente, mas eu ordenei: - No, prossiga. Isso aqui deve ser a
continuao da rua principal.
Estamos no campo e talvez ela entre aqui em algum lugar.

112

mos muito tempo procurando pelas ruas em volta da estao
rodoviria, at que finalmente senti o cheiro inconfundvel e
extremamente atraente de peixe e batata frita.
No fao a menor idia se foi Emma que nos levou at l ou se
encontramos a lanchonete casualmente. Mas de qualquer modo ela recebeu
sua recompensa e dividiu comigo
o prato de comida. Depois da refeio voltamos  estao
rodoviria e cerca de uma hora mais tarde estvamos de volta a
Nottingham.

Eu no conseguia imaginar o que poderia ter sado errado. A viagem
fora uma total perda de tempo. E o pior foi que voltara sem qualquer
doao para os ces-guias.

Pouco depois de chegarmos em casa, tocou o telefone. Do outro lado
falaram:

- Aqui fala da Mansfield Young Wives.
- Oh, sim.

- Onde voc estava?
- Onde eu estava?

- Onde eu estava? Quando?
- Esta noite.

Ento tudo se esclareceu. Enquanto ficamos perambulando pelas ruas de
Newark, um impaciente grupo de senhoras estava  minha espera em
Mansfield. Bem, acho que isso
teria de acontecer mais cedo ou mais tarde, mas eu no tinha como me
desculpar. Como ficou esclarecido depois, Don havia escrito de forma bem
clara "Mansfield Young
Wives" na minha agenda. Mas por algum motivo que no sei explicar, ao
passar a anotao para braile escrevi Newark!

De um modo geral eu gostava de fazer palestras no Women's Institute,
Rotary Clubs e em mesas-redondas. Numa dessas descobri que Emma e eu
ramos as nicas representantes
do sexo feminino. Mas gostava igualmente de encontros com lobinhos e
bandeirantes. Depois de falar algum tempo para os adultos, achei as
crianas muito evoludas,
desembaraadas e reconfortantes. As perguntas que faziam eram sempre
criativas e todas me aceitavam sem questionamentos ou reservas. Eu nunca
sentia que elas estivessem
pensando: "Que pena, ela no pode enxergar." Encaravam o fato de
maneira natural e alm disso ficavam mais fascinadas por Erama e pelas
coisas que ela fazia. O que
mais lhes interessava era como Erama trabalhava comigo. Queriam sempre
uma demonstrao. Mas isso criava certas dificuldades. Quan
114

do me tornei oradora oficial da Associao de Ces-Guias ficou
acertado que de modo algum eu poderia fazer demonstraes. Os
motivos so fceis de ser entendidos:
os animais, nessas circunstncias, estavam cercados por pessoas e
sujeitos a todo tipo de distraes; trabalhariam em condies
artificiais, o que no era justo
para eles. Isso funciona muito na teoria. Mas Enima jamais gostara muito
dessa restrio e parecia ficar muito contente quando havia
oportunidade para se mostrar.
Na verdade, seria preciso algum com uma determinao maior que a
minha para det-la.

Descobri que para satisfazer a curiosidade das crianas bastava uma
coisa bem simples. De onde eu estivesse, no canto de uma sala, dizia
para eles:

- Vou pedir a Enima que me leve at a porta, pela nave central. Se
vocs quiserem colocar alguns obstculos na minha frente, podero
ver como Emina faz seu trabalho
e impede que eu esbarre neles.

Emina ficava sempre contente quando chegava esse momento. Ela o
considerava uma oportunidade excelente para demonstrar sua
inteligncia. As crianas espalhavam muitas
coisas pela nave central, desde casacos at cadeiras. Emina
satisfazia-se em vencer todos os obstculos. Caso no conseguisse
achar uma passagem pela nave central,
ela imediatamente me conduzia por uma das laterais e ento recebia
muitos aplausos.

Certa noite, no entanto, numa reunio de lobinhos, as coisas saram
um pouco diferentes. Acabei de fazer a palestra, Enima fez a
demonstrao e eu deixei a palavra
livre para quem desejasse fazer perguntas. Uni menino muito esperto, de
cerca de sete anos, foi o primeiro a ficar de p e a perguntar:

- Emina atende a outras pessoas?

- No,  claro que no - respondi, sem imaginar o que ele estava
pensando, depois de ouvir com muita ateno eu falar sobre o  que
Emina gostava e no gostava.

-   Se eu disser para ela ir comigo ela no ir?
-   No, receio que no.

-   Posso tentar?

-   Claro - respondi com convico. - Tente.
-   Emina, Emma - ele gritou.

115

Emma permaneceu a meu lado e imagino que eu deva ter dado um leve
sorriso. Depois ele tentou algo diferente. Gritou, ento, para ela:

- Emma, venha c, olha o aougueiro ...

Ela saiu correndo tanto que chegou do outro lado do salo em dois
segundos.

Embora eu gostasse de fazer palestras para crianas, ficava um pouco
hesitante quando o convite partia da Woods School. Esta  uma escola
para crianas doentes que
fica nos arredores de Nottingham. Quando falei com a diretora, ela me
explicou que a maioria das crianas vivia confinada a cadeiras de
rodas, vtimas de doenas
como esclerose mltipla e disseminada e espinha bfida. Todas as
crianas tinham deformaes nos membros ou no tronco. Algumas
delas, aparentemente, locomoviam-se
em cadeiras motorizadas porque o grau de sua paralisia era tal que s
conseguiam apertar o boto que comandava as rodas da cadeira.

A diretora perguntou se eu gostaria de fazer uma palestra l, pois as
crianas adorariam conhecer Emma e gostariam de ver como uma pessoa
cega enfrenta a vida. Fiquei
apreensiva. Senti-me, talvez, como uma pessoa que enxergue se sente com
a perspectiva de se confrontar com algum cego. Mas pensei: devo ir, e
marcamos uma data.

Quando Emma e eu chegamos, perguntei  diretora:

- No ser difcil explicar a eles o que  cegueira? So muito
mais limitados do que eu. Ser que para eles cegueira significar
alguma coisa?

Para surpresa minha, ela respondeu:

- Falamos sobre o assunto na aula. E as crianas no conseguem
entender como voc pode andar sem enxergar. Eles acham que deve ser
muito pior uma pessoa cega do
que uma pessoa paraltica.

Achei a resposta estranha e no concordava com o que havia dito.
Contudo, ela achou que eu devia falar primeiro com as crianas mais
novas. Entrei na sala de aula
e escutei os alunos se aproximando em suas cadeiras de rodas e o barulho
das cadeiras eltricas. Ficaram todos muito silenciosos enquanto eu
falava sobre Emma. Suponho
que ela estivesse um pouco confusa com as cadeiras de rodas. Ela no
sabia o que fazer com crianas que tinham rodas embaixo delas. Como
resultado, Emma
116

ficou mais quieta ainda do que nas outras palestras que eu fi
zera. Fiquei fascinada com as perguntas das crianas. Eram mui-
      1 ;

i to inteligentes. Como j disse, a maioria das crianas para as

quais eu falava no conseguia imaginar algum que no pudesse
enxergar. Simplesmente aceitavam o fato. Mas aquelas crianas, com
suas prprias limitaes, tinham
mais conscincia. Quando fui falar com as crianas mais velhas,
achei-as mais receptivas ainda e compreensivas tambm. E enquanto lhes
falava, meu corao sentia
uma profunda mgoa, pois eu sabia que muitos que ali estavam no
viveriam por muito tempo. Mas mesmo assim, no consigo esquecer a
incrvel alegria delas e seu entusiasmo
pela vida, quando se aproximaram para ver Emma melhor e brincar com ela.

Dois meninos aproximaram-se de mim e disseram:
- Voc precisa conhecer nossa piscina.

Eu no sabia que havia piscina, mas eles me explicaram que ela era
usada para terapia. Algumas crianas que no podiam andar conseguiam
mover-se na agua.

Um dos meninos estava numa cadeira de rodas e o outro usava muletas. Eu
ouvi a muleta ao longo do corredor enquanto eles me levavam at a
piscina. Depois percebi
que o garoto que

l usava muletas estava andando cada vez mais depressa e estava

tornando-se difcil para que Emma, eu e o menino da cadeira de rodas o
acompanhssemos. Subitamente ocorreu-me que eles estavam apostando
corrida! Uma corrida! Senti
o som das muletas mais distantes ao mesmo tempo que a cadeira de rodas
ganhava mais velocidade. Pouco depois fiquei horrorizada ao ouvir o
menino das muletas, que
se chamava Robin, cair no cho, misturando-se ao som de sua queda o
barulho das muletas de metal indo de encontro ao solo. E no pude
entender por que Philip, o
garoto que estava na cadeira de rodas, estava rindo tanto! Robin
continuava no cho e fazia uns rudos estranhos. Eu me ajoelhei ao
lado dele e perguntei:

- Voc est bem?

No obtive qualquer resposta alm dos horrveis rudos. S
ento percebi que ele tambm estava rindo muito. Era contagiante. E
depois que o coloquei de novo nas
muletas, ns trs continuamos a caminhar pelo corredor sem conseguir
parar de rir. No fao a menor idia do que Emma achou de tudo
aquilo.

Chegamos  piscina e fiquei fascinada ao ouvir as crianas
117

descreverem as pequenas canoas com que cruzavam de uni lado para o
outro. Havia uma atmosfera agradvel ali e ns nos sentamos bem
juntos. Tive coragem de perguntar
como era ficar numa cadeira de rodas. Um deles resumiu para mim o que os
outros pensavam:

- Bem, isso  uma coisa normal ... No pensamos muito sobre isso.
Podemos fazer uma poro de coisas, podemos ver> podemos ler,
podemos jogar e. . . - Ele sentiu
pena de mim, porque eu no enxergava. Foi muito tocante.

Outro local para crianas com problemas que visitei foi Clifton
Spinney, que  um centro de reabilitao para crianas cegas;
fica perto de Nottingham. O centro
oferece um clima residencial e recebe pessoas que acabaram de perder a
viso. Atravs de um curso com durao de um ou dois meses, elas
aprendem a reestruturar sua
vida sem o auxlio da viso. Sempre me considerei mais fe,liz que as
pessoas que deixam de enxergar de um momento para outro. Porque no meu
caso fui perdendo gradualmente
a pouca viso que possua.  claro que eu tinha a frustrao
de ser cega, mas nunca parei para pensar: "No ano passado eu enxergava e
agora no vejo nada. No me
acostumo a esta situao. O que fazer agora?"

Eu sempre achava embaraoso conhecer algum que perdera a viso
pouco tempo antes.  a pior maneira de se ficar cego.
O homem  um animal basicamente visual e isso supera todos os demais
sentidos. Sentir-se sem viso de uma hora para outra  uma coisa
terrvel. A cegueira fsica
provoca tambm uma espcie de cegueira mental. A *anmona-do-rnar
fecha-se iniediatamente se algum a toca. As pessoas que se tornam
subitamente cegas parecem fechar-se
mentalmente do mesmo modo. E mantm-se sempre isoladas do mundo.

Por isso, se eu tinha ficado hesitante em comear a falar para
crianas paraliticas, fiquei duplamente preocupada com a idia de
falar para os cegos de Clifton Spinney.
A questo era que um dos principais aspectos que eu ressaltava era
provar as pessoas que enxergavam que os cegos eram pessoas normais; como
eram capazes de levar
a vida e como eu conseguira superar o meu problema. E, claro, como Emma
havia me ajudado. Como dizer tudo isso a essas pessoas?

A Spiney era dirigda pelo casal Spencer. A Sra. Spencer enxergava,
mas seu marido era cego. Era bom que um cego fos118

se o responsvel pelo centro, porque ningum melhor para saber do
que necessita um cego do que algum que no enxergue. A Sra. Spencer
era muito gentil. Ela me apanhou
e levou-me ao centro e, uma vez l, foi comigo at o salo em que
eu deveria fazer a palestra e onde uma audincia formada somente por
cegos j me aguardava. Deixou-me
ali e disse que seu marido logo chegaria para me apresentar. Ouvi a
porta fechando-se. Senteime, com Enima a meu lado, num pequeno palco e
percebi ento que no
apenas eu no os via como eles tambm no me viam. Esta idia
tomou conta de mim de modo muito intenso, mas no gostei de pensar
nisso. Eu no estava acostumada
a conviver com cegos. Escolhera sempre a companhia de pessoas que
enxergavani, e se tinha alguns amigos cegos era porque gostava deles
como pessoas e no por sua
condio ou fazendo qualquer concesso  sua incapacidade de
ver.

Fiquei ali sentada, mais apreensiva a cada minuto, e a minha garganta
cada vez mais seca, enquanto aguardava o Sr. Spencer. Podia ouvir a
audincia conversar sobre-
assuntos pessoais e percebi, no pela primeira vez, que as pessoas
totalmente cegas, especialmente aquelas cuja cegueira era recente,
tinham um tom de voz montono,
de certa forma refletindo a idia de que a perda da viso
significava tambm a perda do interesse e esperana na vida. Em
seguida ouvi o Sr. Spencer entrando no
salo.

- Old, Sheila. Meu nome 6 Charles Spencer.

Levantei-me e caminhei na direo da voz dele e estiquei a mo
para cumpriment-lo. Esbarramos um no outro. Minha mo entrou no
palet dele e a mo dele encostou
em minha orelha esquerda. Senti-me confusa e desalentada e pensei: e
isso o que acontece quando os cegos se encontram.

Comecei do modo como sempre iniciava minhas palestras, mas pouc os
minutos depois percebi que seria preciso mudar minha ttica. Eu no
conseguiria arrancar nenhuma
reao da audincia. Ningum sorria; todos permaneciam quietos,
ouvindo. Foi uma sensao terrvel para mim, como se estivesse
falando numa sala vazia. Eu precisava
toc-los de algum modo e finalmente consegui. Mas foi um trabalho
muito difcil, talvez a palestra mais difcil que j fiz.

A hora das perguntas tambm foi drstica: no houve uma
seqncia natural de perguntas, ou seja, uma pessoa falando de

cada vez. s vezes trs indagaes se misturavam no ar e eu
no conseguia entender nenhuma delas. Isso ocorreu no porque as
pessoas que ficaram cegas h pouco tempo
sejam estpidas ou porque no respeitem os outros. O que acontece
 que se sentem isoladas, subitamente jogadas nesta ilha de
escurido e fazem o melhor possvel
para de l sarem. Muitos ainda estavam sob o efeito do choque de
terem perdido a viso, de terem de comear uma vida totalmente
diferente, de perderem o principal
sentido com que sempre contaram.

Manifestei muita simpatia a todos eles. Uma das dificuldades que afetam
os cegos logo depois de perderem a viso  que as pessoas de viso
normal tendem a piorar
as coisas, a encorajar a sensao de que eles, subitamente, ficaram
perdidos, sem nada na vida praticamente. Os que enxergam normalmente
querem tomar conta dos cegos
e fazer   para eles coisas que, se fossem treinados, poderiam fazer sem
 a ajuda de ningum. De tal forma que muitas vezes o cego se
convence de sua incapacidade.
Um dos objetivos de Clifton     Spinney era neutralizar esse tipo de
tratamento.

 medida que as perguntas se   sucediam, ficou evidente que todos
estavam interessados nos ces-guias e Emma fez a parte dela para
convenc-los de que, a despeito
da cegueira, todos ali poderiam ter liberdade e mobilidade.

No obstante, senti-me realmente contente ao deixar Clifton Spinney:
pode ser uma coisa terrvel de se admitir, mas  verdade. Como eu
era agradecida por ter Emma
e pelo modo como minha vida fora encaminhada. Eu no poderia nunca
trabalhar l como o Sr. Spencer. Seria muito parecido com minha casa,
muito real. Os problemas
em Clifton Spinney estavam todos expostos e as pessoas tentavam
resolv-los. Mas no fundo nenhum cego quer admitir que no poder ver
 um problema.

Algumas semanas dopois, senti-me muito agradecida por Emma estar comigo.
Estvamos no centro da cidade e ela me conduziu a uma faixa de
pedestres num dos pontos
mais movimentados. Ouvi um nibus ou caminho parar para nos deixar
atravessar. Dei a Enuna o sinal de ir em frente e comeamos a andar
sobre a faixa para pedestres.
Mal tInhamos dado dois passos quando Emma parou e comeou em seguida a
voltar para a calada, puxando-me pela guia. No pude entender o que
ela estava fazendo e
no confiei nela.

120

- Emma, vamos, est tudo bem, o caminho parou para
1 ns.

Ela no se mexeu e eu achei que deveria seguir em frente para mostrar
que estava tudo certo, pois eu ouvia o motor do nibus ou caminho,
que continuava parado 
nossa espera. Ento avancei e Emma fez a coisa mais incrvel do
mundo. Colocou-se na minha frente e quase me derrubou na sarjeta. Ao
mesmo tempo ouvi de repente
o rudo de um carro aproximando-se, passando velozmente pela faixa de
pedestres e seguindo pela rua. Se eu estivesse um pouco mais  frente,
se Emma no tivesse
me detido, eu teria morrido. O incidente levou alguns segundos apenas,
mas depois que passou o susto fiquei algum tempo parada na faixa de
pedestres, petrificada.
Em seguida, ouvi o barulho de outro motor se aproximando e parando junto
a mim. A porta do carro, um txi, se abriu e algum com a voz muito
nervosa perguntou:

- Voc est bem?
- Sim - respondi.

- Nunca vi nada igual. Infelizmente no consegui anotar a placa do
carro. Ele devia estar correndo a uns 8O quilmetros por hora - disse
o motorista.

Eu  concordei com ele, ainda muito trmula.

Nunca vi tambm nada igual a seu co. Ainda bem que ele estava a.
Voc tem um excelente co, moa.

Depois ele entrou no txi novamente, ligou o motor e partiu. Erama,
por sua vez, estava ansiosa para continuar nosso trajeto e enquanto
caminhvamos tranqilamente
eu me lembrava das palavras do motorista. Sim, realmente tinha um
excelente co-guia. Emma tinha salvado nnha vida.

121

captulo dez

A Operao de Emna

O Centro de Pesquisa de Mobilidade de Cegos, da Universidade de
Nottingham, estava sempre apresentando novas idias e pedindo que as
pessoas cegas da comunidade
'ajudassem nos testes. Uma das criativas invenes da
instituio foi a'cnfeco de um mapa em braile do shopping
center- -de Victoria. O centro comercial, localizado
ao lado da antiga estao ferroviria de Victoria,  um lugar
enorme, com dois andares de lojas dotadas de ar condicionado e situadas
entre jardins e fontes. ] um
lugar maravilhoso, mas que apresenta problemas para os cegos. No h
degraus a serem contados, nem meio-fio ou qualquer outra coisa que
uma pessoa sem viso possa
utilizar como orientao. Ento o Centro de Pesquisa de Mobilidade
elaborou um mapa em braile e afixou cartazes e avisos, tambm em
brale, por toda parte, no shopping
center. A rea principal tem grandes colunas de concreto que vo
at a parte central da construo. Foram colocados nmeros em
todas as colunas, em braile, logicamente.
Assim, bastava que a pessoa identificasse o nmero da coluna e
consultasse o mapa para saber quais as lojas que ficavam naquela rea.
O mapa era algo sensacional
- toda a parte central era uma imagem tctil: linhas mostravam as
reas das lojas, as colunas indicadas atravs de desenhos redondos e
as escadas indicadas por
uma
sucesso de linhas que davam a impresso real de uma escada ao se
passar a mo.

O Centro de Pesquisa resolveu fazer um filme sobre como o esquema
funcionava e fui convidada a participar do projeto juntamente com
Ei-nma. Ian, o cmera, resumiu
para mim o que deveria acontecer na filmagem e o que ele queria que
ns duas
122

fizssemos. A idia era dar a impresso de um dia normal de
compras para uma pessoa cega, a comear pela estao de nibus.

Geoffrey, o que dirigia a filmagem, perguntou se eu fazia alguma idia
de como os filmes eram feitos e eu lhe disse que tinha uma vaga
noo sobre tomadas e cortes
porque lera alguma coisa a respeito.

- ] isso mesmo - disse ele. - Fazemos as tomadas e depois editamos o
filme usando as seq-ncias que desejamos. H uma coisa porm:
podemos querer mostrar uma mesma
coisa de diversos ngulos e neste caso voc ter de fazer algo
duas ou trs vezes. Acho que no haver problema, embora seja um
pouco cansativo.

Prometi esforar-me para cometer o menor nmero de erros. Emma e eu
fizemos o que nos disseram e as cmeras comearam a rodar. Mas eu
tinha dado apenas uns poucos
passos quando algum me segurou pelo brao e foi logo dizendo:

- Ol, no vejo voc h muito tempo. Como Emma est indo?

Era um dos inspetores do nibus, que nos conhecia muito bem. Ouvi
Graham gritar:

- Corta!

Depois de conversar com o inspetor durante algum tempo (no disse a
ele que estvamos fazendo um filme porque ele podia querer participar
das filmagens), comeamos
novamente. Desta vez Emma e eu fomos at a entrada do shopping.

- Por que no olha para onde est indo? - ouvi algum dizer e
pensei que estivesse falando comigo. E em seguida: No est vendo
que ela  cega?

Tan, o cmera, aproximara-se de mim para fazer uma tomada melhor
quando eu estava chegando perto da entrada do centro. Mas uma pessoa que
passava por ali na hora
achou que ele poderia esbarrar em mim e o puxou pelo brao. E com isso
outro pedao do filme estava perdido e tivemos de comear tudo
novamente. Posso garantir que
a essa altura Emma j estava cansada de fazer o mesmo trajeto, mas de
qualquer modo a filmagem saiu razoavelmente boa desta vez. Em seguida,
procurei o nmero em
braile numa das colunas e depois consultei o mapa que levava, que era o
que eles queriam filmar. Quase imediatamente ouvi uma voz de mulher
dizendo:

- Aonde voc quer ir, querida? Eu posso levar voc.

123

Era um gesto maravilhoso da parte dela. Mas atrs de mim ouvi
novamente aquela ordem: "Corta!" Depois que a mulher foi embora
conseguimos fazer a tomada da maneira
certa.

A locao seguinte era mais difcil. Tnhamos de ir para a parte
norte do shopping center e encontrar um caf onde seramos filmadas
enquanto eu tomava uma xcara
de ch. O problema  que eu no conseguia encontrar as colunas e
no tinha como pedir a Emma que localizasse uma para mim. De qualquer
modo, ela passara a vida toda
tentando evitar essas coisas e obviamente no iria aprender algo novo
agora. Eu tinha de ficar atenta para pressentir uma coluna e ento
parar e esticar o brao.
Deve ter parecido tudo muito estranho. Mas finalmente achei que tinha
encontrado uma e coloquei o brao em torno dela. A coluna, no entanto,
no parecia ser de concreto.
Percebi ento que estava abraando um cabide de casacos. O homem que
estava segurando as roupas desculpou-se no sei por qu. Talvez
tenha achado que eu era maluca.

Em outra tentativa encontramos a coluna certa e eu tomei o ch. O
filme estava finalmente pronto e acho que ficou muito bom, sem deixar
transparecer nada do drama
que foi sua execuo.

Foi nessa poca que uma coisa comeou a me preocupar um pouco: no
prdio onde morvamos no havia jardim para Erama correr. Isso me
ocorreu num dia de agosto. Eu
estava sentada em casa e sabia que l fora fazia um dia lindo,
ensolarado. E pensei como seria maravilhoso ter um jardim. Perto do meu
prdio havia parques, onde
eu levava Emma para que ela andasse  solta. Mas no era a mesma
coisa que simplesmente abrir a porta e deix-la  vontade a qualquer
hora. Seria diferente se Emma
tivesse seus prprios limites e um pedacinho de grama s para ela.
Depois de remoer o problema durante algum tempo, tive uma idia. Emma
faria aniversrio dali a
dois meses, a 16 de outubro, e um jardim seria o melhor presente que eu
poderia lhe dar. Peguei o telefone e liguei para o departamento de
habitao. A idia era
trocar meu apartamento por uma casa.

L no me ajudaram muito. O que me disseram, em resumo, foi que
achavam muito improvvel que algum desejasse trocar uma casa por um
apartamento do tipo do que ns
morvamos. Disseram, porm, que eu podia tentar sozinha e ver se
conseguia a troca. Tentei e consegui. Lembrei-me de que Emma
124

tinha unia amiga no conselho. Era uma mulher muito agradvel, chamada
Brenda Borritt, que quase sempre nos encontrava no parque e demonstrava
muito interesse por
Enima. Na prxima vez que a encontrei no parque contei-lhe meu
problema e ela disse que veria o que poderia fazer. Duas semanas j
haviam passado e eu comeava a
achar que minha idia no resultaria em nada, quando recebi um
telefonema. A Sra. Borritt encontrara algum que desejava mudar-se de
um dos bangals do       conselho
e ir para um apartamento. Ela me disse que era um        bangal
pr-fabricado e muito antigo - mas tinha um jardim!

E ento Emina recebeu seu presente: e no dia certo.       Mudamos para
l no dia do aniversrio dela. Enima adorou a       casa
imediatamente, ou melhor, o jardim.
L havia muito espao      para ela correr sempre que quisesse, com
muita grama, flores e plantas.

A mudana lembrou-me novamente que eu no enxergava. Isso pode
parecer estranho. Mas com Enima eu nunca me sentia como uma cega quando
saa. Eu enxergava atravs
dela: no no sentido visual, obviamente, mas sabia o que estava
acontecendo a meu redor, j que ela reagia a tudo que havia no
ambiente. Todas as impresses dela
passavam para mim atravs da guia. Eu era capaz de dizer quando havia
um obstculo  frente pelo modo como ela reduzia o passo e hesitava
por um instante. Eu sabia
quando cruzvamos com outro co porque sentia que ela se voltava
para trs e abanava a cauda.

Mas andar numa casa  diferente. Ir de um cmodo para outro ou
movimentar-se dentro de um mesmo cniodo  sempre, para a pessoa
cega, algo mentalmente planejado.
Ao se mudar para uma outra casa  preciso comear tudo de novo.

Don ajudou-me muito na mudana e tivemos um tempo de muito trabalho:
ele colocou os trilhos das cortinas e mudou os interruptores das
lmpadas enquanto eu cuidava
de uma tarefa que parecia interminvel: desencaixotar a mudana.
Emma e eu camos exaustas na cama por volta de duas horas da
madrugada. Pouco depois ouvi algum
batendo na porta (na verdade era Don) e levantei-me rapidamente. E
ento percebi que no conseguia lembrar-me direito de onde ficava a
porta. Fui passando a mo
por uma parede e depois por outra at que abri a porta. Mas era o
guarda-roupa. Depois de passar a mo por outra parede e de voltar ao
mesmo armrio, consegui finalmente

125

encontrar a porta. Parei apenas quando esbarrei no sof que eu
esquecera que havia ficado no meio da sala de estar. Quando abri a porta
da frente, no havia ningum.
Ento lembrei-me de que havia outra porta nos fundos, onde Don estava
esperando, pacientemente. Levei muito tempo at me acostumar com
tantas portas, depois de estar
habituada com o apartamento, em que s havia uma porta de entrada e
poucos cmodos.

Isso no foi tudo. Lembro de um dia em que desejei ir ao banheiro e
no o encontrei. Eu estava no cmodo errado, como acabei descobrindo
depois de passar cinco minutos
 cata das louas e do vaso sanitrio. Cheguei a me perder no
jardim em outra ocasio. Eu tinha deixado Emma na cozinha, fechado a
porta dos fundos e sado para
estender algumas roupas. Mas perdi o senso de direo por completo e
no me lembrava de onde ficava a porta dos fundos. Procurei em torno
da cerca, fui at o porto
e voltei at os fundos e s ento a encontrei. Fiquei imaginando
depois se Emma teria ficado me olhando de maneira reprovadora atravs
da janela.

Emma, porm, logo se acostumou ao seu jardim. Mal conseguia esperar o
momento de ficar l, solta, correndo de um lado para outro e cheirando
os moures da cerca
na trilha de gatos h muito desaparecidos.

Claro que no apenas a casa, mas principalmente sua localizao,
apresentou seus problemas. Havamos mudado para o bairro de Beechdale
e havia muitos caminhos novos
para ns duas aprendermos, inclusive o trajeto at o meu emprego.
Pouco depois da mudana, precisei ir  Farmcia Bocits mandar
aviar uma receita. Emma conhecia
o lugar muito bem: ficava na principal rua de Nottingham, a Parliament
Street, do lado esquerdo, e ela me levou at l logo que descemos do
nibus. Puxou-me pelos
degraus at a porta e eu estiquei o brao. Mas a porta no se
abriu. Achei muito estranho, porque geralmei,te a Boots ficava aberta
noite e dia.

- Voc tem certeza - perguntei a Emma            de que estamos no
lugar certo?

Descemos a pequena escada, para irmos embora, enquanto imaginava o
motivo do fechamento da farmcia. Emma me levava pela calada. Senti
que amos atravessar a rua.
Quando o trfego parou, atravessamos e ela me levou a uma loja.
Pensei: bem, pelo menos posso indagar aqui. Mas quando en126

tramos ouvi uma voz conhecida. Era a assistente de Bocits dizendo:

- Ol, Emma. - Depois de brincar com ela um pouco, voltou-se para mim:
- Vi vocs do outro lado da rua e j ia at l busc-las. Mas
ento vi Emma atravessando a
rua, Ns fechamos aquela loja. Com certeza ela deve ter visto o cartaz
dizendo que a loja est fechada!

Na agncia local dos Correios, uma das atendentes logo fez amizade
coposco e ficou muito amiga de Emma. amos l com ,freq-ncia
porque eu tinha de enviar meus
livros sonoros. Esses livros sonoros so fitas cassete grandes que
no cabem num gravador comum. So usadas em aparelhos especiais. E
so uma verdadeira maravilha
para os cegos. As fitas - a empresa que .as distribui fica em Bolton,
Lancashire - cobrem todos os gneros literrios, desde os
clssicos at obras de fico mais
simples. As gravaes so feitas por locutores de primeira
categoria, geralmente da BBC. A biblioteca de livros sonoros envia um
catlogo aos scios (pode-se escolher
impresso normal ou em braile) para uma assinatura anual que custa
trs libras. H cerca de 3O ttulos  disposio cada vez
que se faz o pedido. A biblioteca despacha
dois ou trs em cada remessa, de forma que, quando se devolve uma
fita, ainda se tem material para ouvir antes da chegada de outra
remessa. Deste modo "li" muita
coisa, de Jane Austen a James Bond.

H uma vantagem nesse processo: pode-se fazer outras coisas enquanto
se ouve a fita. Eu geralmente ligava meu aparelho enquanto dava comida a
Errima, passava a ferro
ou lavava a cozinha. Ao terminar qualquer uma dessas tarefas, j tinha
avanado trs captulos.

A agncia dos Correios faz a remessa dos livros sonoros gratuitamente
e este  outro excelente servio que o Departamento de Correios
proporciona aos cegos. As fitas
chegam em caixas de plstico em cuja parte frontal h um espao
destinado  colocao de um carto que contm o endereo do
destinatrio; e para se devolver a caixa
com a fita, basta que se vire o carto, colocando-o no mesmo lugar. O
endereo do centro de atendimento da biblioteca est no verso do
carto.

s vezes me perguntavam como eu poderia saber se Emma no estava
bem. Lgico que eu no podia ver se o nariz dela
127

estava seco, ou se havia algum problema em seu plo ou se o seu modo
de andar apresentava alguma al*--rao. Certas pessoas no
gostavam muito do vnculo que havia
entre ela e eu. LogG que levantvamos pela manh, eu poderia dizer
como ela estava e como estava seu humor. Ela poderia estar um pouco
menos entusiasmada do que
o normal para ir trabalhar e, embora eu no pudesse ver o nariz dela,
podia toc-lo e saber quando estava quente. Ela podia pedir para ir
at o jardim mais do que
o normal. Eu saberia dizer se ela estivesse com algo diferente.

Alm disso, pelo fato de ela ser um co-guia (h uma pequena
medalha em torno do pescoo dela onde est escrito: "Sou um
co-guia"), fazia um check-up a cada seis
meses no veterinrio. Esse exame  gratuito para o dono do
co-guia e  uma boa maneira de evitar complicaes. S havia
um problema com esse exame semestral: Emma
detestava ir ao veterinrio.

Eu precisava mentir para ela para poder cuidar de sua sade. Antes de
sair para o veterinrio eu nunca lhe dizia nada, porque a rua da
clnica ficava em nosso trajeto.
Seu passo sempre diminua ao nos aproximarmos da porta da clnica,
at que finalmente ela colocava uma pata e em seguida a outra. Depois,
ao perceber que no iramos
para nenhuma consulta, ela parecia ligar um motor e saa dali
correndo, como se estivssemos atrasadas para um compromisso.

Mas quando amos realmente fazer uma consulta eu precisava esperar que
a coitada parasse perto dos degraus da clnica e resolvesse subi-los.
Somente depois  que
eu tocava a campainha, esperava que abrissem a porta e fazia um pouco de
fora para empurr-la para dentro do consultono.

Ela detestava aquilo. Mas certo dia, antes de chegar o tempo do exame
semestral, senti uma inchao no peito de Emma. Passei alguns dias
examinando-a e me pareceu
que aquele porito estava aumentando. Decidi ento lev-la ao
veterinrio. Depois de superarmos todo aquele pattico ritual na
porta da clnica e de esperarmos o
atendimento, em meio a latidos e ganidos de outros ces, fomos
chamadas pelo Dr. Davidson: um homem muito delicado, grande amante de
labradores e em especial de
Emma.

Ele examinou o tumor e disse-me que o melhor seria retirlo. Em
resumo, eu teria de levar Emma  clnica novamente na manh
seguinte. Normalmente os ces que sofrem
alguma inter
128

veno cirrgica ficam internados o dia inteiro, mas com Emmia eu
no queria que fosse assim. O veterinrio concordou que se eu
arranjasse um carro ela no precisaria
ficar l mais do que algumas horas: eu s no desejava que ela
permanecesse ali muito tempo sem mim.

Claro que eu estava horrorizada  idia de o tumor ser maligno.
Contei o caso s minhas colegas de trabalho e elas ficaram preocupadas
tambm. Todas acharam que
se Emina ia ser operada eu deveria ser levada por um dos carros da
empresa at a clnica e depois para casa. E ficar o resto da semana
em casa para cuidar de Emma.
As coisas no funcionavam assim, mas foi uma idia gentil.

Na manh seguinte levei Emina, que protestou como de costume, para ser
operada e depois que o Dr. Davidson lhe aplicou a anestesia fiquei ao
lado dela at que adormecesse.
Um dos motoristas da garagem, homem muito delicado e compreensivo,
levou-me at o trabalho e l fiquei por duas horas. Minha mente
estava agitada: sentia uma terrvel
ansiedade, aliada a uma preocupao com os problemas que teria de
enfrentar para sair com ela. O tumor no peito ficava bem na direo
por onde passava a guia e certamente
ela no poderia us-la durante algum tempo. Aquelas duas horas foram
terriveis para mim. Eu estava preocupada no apenas porque Emma estava
anestesiada no veterinrio
mas instintivamente meus ps tocavam sua caminha, que ficava debaixo
da minha mesa de trabalho. A todo momento eu esperava sentir seu nariz
tocando meu joelho. Era
como se eu tivesse deixado uma parte de mim em outro lugar. Era
horrvel. Dava-me uma sensao de vazio. Eu no podia nem
imaginar alguma coisa acontecendo a Emina.

Finalmente chegou a hora do almoo e o motorista da garagem levou-me
novamente at o consultrio do veterinario, estacionou o carro e
esperou que eu fosse apanhar
Enima. Subi os degraus segurando-me na grade. Toquei a campainha e
fiquei aguardando na sala de espera. Em seguida o Dr. Davidson trouxe
Emina. Ela ainda no tinha
recuperado a conscincia totalmente e pude perceber pelo seu modo de
caminhar que ela ainda estava meio zonza. Mas sua recepo para mim
foi maravilhosa! Abanava
tanto a cauda que quase se desequilibrou e caiu; ouvi o rudo de suas
patinhas agitando-se quando me viu. Mesmo naquele estado ela demonstrou
muita alegria ao me
ver.

129

Depois de agradecer ao Dr. Davidson, coloquei a coleira em seu
pescoo, em vez de usar a guia, e samos. Eu fui andando bem
devagar, tanto por mim quanto por Emma.
Mas quando abri a porta, Emma adiantou-se e caminhou na minha frente. Eu
no tinha certeza, mas achei que estvamos no alto da escada e ela
tinha feito aquilo paro.
me avisar sobre os degraus, j que no estava usando a guia e assim
no podia me ajudar da maneira habitual; e por isso ela estava
segurando a coleira com a boca
para me guiar.

Fomos para casa e Emma dormiu tranqilamente diante da lareira a maior
parte do dia, enquanto estava sob efeito da anestesia. Mas eu estava
terrivelmente preocupada,
imaginando qual seria o resultado do exame feito com o material do
tumor. Tive um pesadelo de que me encontrava no centro de Nottingham,
sozinha, sem Emma e sem
Don, e havia algumas pessoas em torno de mim. Havia muito barulho e
confuso. Eu estava to aterrorizada que no conseguia dar um
passo. Dois dias depois havia boas
notcias na agncia dos Correios: o resultado do exame dera
negativo. Aquilo que eu descobrira em seu peito no passava de um
quisto sebceo e no havia nada maligno.
Senti um enorme alvio.

Emma ficou com um pequeno corte com cerca de quatro pontos. Para evitar
qualquer contato, resolvi cobrir a inciso com um curativo. Emma deve
ter ficado muito estranha
com aquilo. Porque peguei um pedao de pano, fiz um furo para que a
cabea dela passasse por ali, e amarrei as pontas do tecido que
envolvia o curativo em suas costelas.
Assim, no havia jeito de entrar poeira no ferimento. Todo dia eu
trocava o curativo e, sempre que chegava o momento dessa troca, Emma
adorava. Acho at que ela
se sentia orgulhosa de sua nova imagem.

Durante o perodo em que Emma no pde trabalhar, sentime
desamparada. Acho que eu poderia ir fazer compras sozinha mas sem ela
no, sentia nimo nem para ir ao
porto de casa para levar o lixo. Ela estava comigo por tanto tempo
que a simples idia de deix-la e sair sozinha era inconcebvel.

Felizmente logo depois ela pde voltar a usar a guia porque a
inciso cicatrizou depressa. Quando voltamos a sair juntas novamente,
achei tima aquela sensao de
liberdade outra vez. E saber o que era viver sem aquela liberdade tornou
a sensao maior ainda.

130

captulo onze

Os Gatos

Pouco depois que me mudei para o novo bangal de Beechdale ocorreu-me
que eu poderia ter novamente um gato. No tivemos gato em nossas vidas
desde Tss, mas agora
eu podia satisfazer meu desejo: ter um gato siams. Desde que eu,
certa vez. quando levei Emma ao veterinrio, conhecera uma senhora que
tinha um filhotinho siams,
desejei ter um tambm. Segurei o gatinho em minha mo e fiquei
encantada com sua maciez, elegncia e tamanho, alm do som gracioso
que ele fazia.

Pedi a Don para ver se no jornal havia algum anncio de cratos
siameses. Ele comeou a procurar, at que certa noite achou t

 que desejvamos.

- Siameses mancha vermelha - disse Don. - O que  isso?
- No fao a menor idia, mas parece bem atraente, no acha?
Qual o telefone?

Telefonei para a criadora e ela me descreveu os gatos como tendo as
orelhas, patas, cauda e focinho com colorao vermelhodourada. Os
olhos eram cor de safira e
o manto quase branco. Achei-os deslumbrantes. Marcamos um horrio paia
eu conhecer os animais. Emma foi tambm,  lgico, pois alm de
me levar  casa da criadora
ela tambm tinha de aprovar a escolha. Escolhemos um gatinho macho,
com quatro meses, chamado Ohpas, que em siams significa luz do sol.
Algum tempo depois de ele
estar conosco descobri que tinha pulgas e outros probleminhas e a conta
do veterinrio ficou bem alta para deix-lo com a sade perfeita.
Mas no sabamos disso
naquela tarde em que o levamos para casa.

Quando chegamos, deixei-o fora de sua caixinha, mas ele sentia tanto
medo de tudo que se mexesse que foi esconder-se
131

atrs da poltrona e no saiu mais de l. Tentei tudo, mas sem
xito, para que ele deixasse o esconderijo. Algumas horas depois,
quando eu estava sentada na mesa
jantando, cortando um bife suculento, senti algo subindo em meu joelho:
era Ohpas, obviamente. Ento, para encoraj-lo (erradamente, como
fiquei sabendo depois)
cortei um bom pedao de carne e lhe dei. Depois senti um toque um
tanto mais autoritrio no outro joelho. Era Emma. Sempre fora uma
regra Emma no ganhar nada do
que estivesse na mesa. Mas o que eu podia fazer? Para ser justa, tive de
dar um pedao de carne a ela tambm. E logo meus dois joelhos
estavam recebendo ataques.
Na verdade, Ohpas e Emma acabaram comendo juntos mais carne do que a
dona. E eu estava com tanta vontade de comer aquele bife! Mas tive de me
contentar com os tomates,
j que os dois no se interessaram por eles.

O mais maravilhoso em Ohpas era que ele adorava Emma. Sentava-se no
sof e ficava lambendo o focinho e as orelhas dela. Da mesma forma que
Tiss, Ohpas parecia saber
que Erama era algo especial dentre os ces e esse sentimento tornou-se
evidente em todos os gatos que tivemos depois: era uma estranha
comunicao de conhecimento
entre os animais que fazia com que a relao entre eles e os seres
humanos fosse claramente definida. E o papel e importncia de Emma
eram inconfundveis para os
gatos.

O lado de professor distrado da personalidade de Ohpas tornava-se
evidente quando ele comia. Os siameses gostam de levar a comida para o
local em que deseja comer;
no comem necessariamente direto da tigela onde estiver o alimento.
Obpas no era uma exceo e geralmente preferia levar sua comida
para a sala de estar e sentar-se
diante da lareira com todo o conforto. Sua rotina nunca mudava. Don,
mais uma vez, descreveu-me exatamente o que. acontecia. Ohpas apanhava a
comida na tigela, colocava-a
junto da lareira e depois ento, minuciosamente, Iambia-se antes de
tocar na refeio. Infelizmente, Erama. ficava espiando o que
acontecia. E no tocante  comida
ela no conse, guia deter sua tentao. Conseqentemente a
comida desaparecia num piscar de olhos e depois o ar enchia-se de um
miado indagador: "Sei que havia um
pedao de carne ali, mas onde ele est agora?" Em seguida eu sentia
um toque no joelho e ouvia novo miado interrogativo: ---Voc sabe o
que aconteceu com minha
132

comida?" A soluo mais simples, obviamente, era dar outro pedao
de carne para ele. Mas geralmente Emma estava observando tudo e 
espreita, com o nariz no tapete,
como um crocodilo, e a operao se repetia.

Quando comprei uma siamesa, para fazer companhia a Ohpas, ela tambm
gostou imediatamente de Emma. Era mais inteligente e tinha um nome de
rainha: Ming. Emma, por
sua vez, reconhecendo uma inteligncia do mesmo nvel da sua,
moldou-a para que ela se tornasse uma parceira em seus crimes. A
constante ganncia de Emma s encontrava
um obstculo na casa. Ela no conseguia alcanar a estante de
secar loua. Mas Ming foi treinada adequadamente para salv-la.
No tenho idia de como isso foi feito.
Mas Emma a ensinou a subir na estante de secar louas (com o
silncio e a agilidade prprios da raa) e a jogar para ela
qualquer sobra de comida ou at coisas mais
o

gostosas. Don costumava observar esse desempenho extraordinrio
(quando as duas no sabiam que estavam sendo observadas). Foi ele quem
me disse que Ming estava to
preocupada em conseguir comida para Emma que para ela mesma reservava
apenas uma pequena parte.

Eu passei a aliment-los separadamente e Emma tinha o bom costume de
no roubar comida das tigelas dos gatos enquanto eles comiam. Mas Ming
sempre deixava um pouquinho
e quando se afastava da tigela era o sinal para Emma se aproximar como
um vndalo capino sobre a fartura de Roma e saquear no apenas o que
Ming reservara para ela,
mas qualquer resto que Ohpas tivesse inconscientemente deixado escapar.

Tendo um macho, Ohpas, e uma fmea, Ming, o casal produziu um
resultado inevitvel: uma ninhada de gatinhos siameses. No foi
nenhuma surpresa. Na noite em que Ming
teve as crias, Don no estava comigo e tive a estranha sensao de
que se alguma coisa sasse errada eu no saberia o que fazer. Mas
tudo correu quase sem problemas.
Primeiro ouvi um leve grito, anunciando que um filhote havia nascido; e
logo depois senti Ming colocar alguma coisa nos meus ps. Avancei
minha mo cautelosamente
e toquei uma pequena e mida bolinha peluda.

Fiquei surpresa, pois sempre soube que os gatos eram muito possessi,vos
com as crias. Por isso, peguei aquele animalzinho e

133

o enrolei num leno de papel; depois o entreguei a 1w1ing. Pouco
depois, ouvi novo gemido e Ming trouxe-me o segundo filhote... depois o
terceiro... e aquela rotina
repetiu-se cinco vezes.

E ali estava eu com uma ninhada de cinco gatinhos! Depois da terceira
semana, eu tive de me ocupar do desmame deles, o que foi um tanto
difcil para mim. A regra
 preparar um pouco de leite em p, daqueles   usados para
recm-nascidos, molhar a ponta do dedo no leite e deixar os gatinhos
mamarem no dedo. Minha dificuldade
era    encontrar-lhes a boca e por isso s vezes eles recebiam leite
na   orelha! Mas afinal conseguimos.

No demorou muito para      que eu decidisse mostrar os siameses, o
que pode parecer um disparate. Mesmo assim achei que devia tentar. Os
amigos me ajudaram e apesar
de no poder enxergar eu sabia como tratar dos gatos e como saber se
estavam limpos. Olipas, que era branco, ficava cheio de marcas de
poeira, mas Don ajudava-me,
dizendo onde elas estavam, e assim eu podia limp-las. As orelhas eu
limpava com algodo e Don depois fazia a inspeo. Minhas viagens
com os gatos necessitaria
de um livro  parte, mas basta dizer que o saguo de minha casa
est cheio de recordaes e elogios das exibies feitas por
todo o pas.

Na verdade, exibir Ohpas era menos problemtico do que exibir a nova
gerao: os cinco gatinhos de Ming. Quando eles comearam a
crescer, comecei a me perguntar
se eu no estava ruim da cabea. Os siameses no possuem apenas
inclinaes belicosas, mas so delinqentes em alto grau. Eles
subiam e desciam pelas cortinas e
corriam pela sala de estar a mais de 70 quilmetros por hora, por cima
das mesas, cadeiras e da cornija da lareira; pareciam uma miniatura
concentrada dos Anjos
do Inferno quando comeavam a bagunar tudo pela casa.

Eu  vivia me desculpando por causa deles. Certa noite, Don veio me ver e
dsse, surpreso:

-   Eu no sabia que voc ia comear a rasgar o papel de parede.

J  que sabia que ele no aprovaria, tive de dizer que de repente
tinha resolvido que o banheiro precisava ser redecorado; no  preciso
nem dizer que a ninhada
de Ming era a responsvel por aquilo.

134

Os problemas que eles causavam eu no podia ver, mas sabia que estavam
acontecendo. O pior  que eu nunca podia saber onde cada um deles
estava em determinado momento
e s vezes isso me preocupava. De vez em quando eu fazia uma chamada
geral. Aprendera a reconhecer pelo tato todos os gatinhos, o que era
agradvel, j que visualmente
era difcil identific-los. Mas eu conseguia distingui-los at
pelo peso, que variava levemente, ou pelo formato das cabeas, ou
at pelo comprimento do corpo e
da cauda.

Nessa poca estava surgindo em mim uma nova ansiedade sobre Emma. Uma
vez por ano ela devia passar por um teste na Associao de
Ces-Guias. Devia ir a esse exame
em janeiro de 1975, mas fiquei preocupada porque ela j estava com
mais de 1O anos. Eu temia que ela pudesse ser aposentada s por causa
da idade. Alguns amigos
meus que      tinham ces-guias naquela faixa de idade estavam
recebendo avisos para aposentar os animais e irem apanhar outro co.
Eu no gostava nem de pensar
nisso. Falava sempre com Don a respeito e ele dizia:

- No precisa se preocupar.    Mesmo se ela tiver de se apo-sentar
posso lev-la todos os dias para o trabalho comigo. Ela ficar bem.
Ser feliz.

Bem, talvez ficasse, pensava, mas era uma perspectiva terrvel e
desoladora a encarar.

Eu sabia que na verdade no perderia Enuna, mas a simples idia de
qualquer outro co fazendo o trabalho dela, de estar na guia junto
comigo, parecia uma deslealdade.
Era algo inimaginvel. Eu ficava pensando em todos aqueles anos, minha
primeira noite no centro de treinamento e como Dotty tinha chorado.
Agora, diante da mesma
situao, eu podia entender por que ela se sentia desgostosa em ter
de substituir seu primeiro co.

Eu no aceitava ter de desfazer a nossa parceria. Emma j fazia
parte de mim. Mas a carta da Associao de Ces-Guias dizia que o
treinador chegaria na quinta-feira
s duas horas e eu temia o que ele poderia me dizer, embora soubesse
que Enuna. trabalhava to bem quanto qualquer outro animal mais novo;
era esperta, cheia de
energia como sempre.

O treinador no analisa apenas se o co continua bom para o
servio, mas tambm se o dono do animal est ajudando no trabalho
de equipe e se no foram adquiridos
hbitos no condizentes com o trabalho desde a ltima visita.
Fiquei imaginan
135

do, ento, como provar isso, embora considerasse o caso irrelevante
diante de minha preocupao com Enuna.

Ele chegou s duas horas e Emma estava tima naquele dia, depois que
coloquei sua guia e ela ficou concentrada no servio.

- Vou pelo centro da cidade - sugeri - se no houver problema para o
senhor. P. nosso caminho habitual para a estao de nibus.

O treinador era um homem muito gentil, Sr. Soames, e disse que estava
bem. No estava um dia dos melhores. Soprava um vento muito forte e
levamos uma lufada de neve
no rosto. Mas prosseguimos a caminho da parada de nibus e Erama.
parecia a menos perturbada de todos. Caminhava pela calada como
sempre fazia. Numa esquina, ouvi
dois cachorros rosnando e latindo um para o outro; torci para que nada
acontecesse. Enuna no lhes deu ateno e continuou seu trajeto.

Enquanto andvamos, percebi mais uma vez como ela gostava de trabalhar
no centro da cidade. Ela se desviava aqui e ali das pessoas na calada
movimentada, atravessava
os cruzamentos sinalizados ao ouvir o sinal e parecia andar mais
depressa que o normal. Quando chegamos  parada de nibus, onde
terminava o teste, eu estava exausta.

Esperei pela deciso. Estava resolvida a dizer que me recusaria a
aposentar Emma, caso a deciso fosse negativa. Depois de algum tempo,
o Sr. Soames disse:

- Eu vi Enuna h quatro ou cinco anos.

- Ah, ? - respondi, imaginando aonde ele queria chegar.
-  sim. Voc no passou graxa marrom no nariz dela, passou?

- Graxa de sapato? Claro que no. - (Aonde queria chegar com aquilo? O
que estaria querendo dizer?)

- Bem, mas  muito estranho. Ela no tem nenhum plo branco.

- Sim, as pessoas me dizem que ela no tem plos brancos e, que
ainda parece muito nova.

- Parece mesmo - respondeu o Sr. Soames - parece muito nova.

Ainda tive tempo de pensar: ele vai me dizer que ela parece nova, mas
que apesar disso j tem idade... Quando ento ele aisse:

136

- No, ela no mudou nada. Parece ter a mesma idade que tinha quando
a vi pela ltima vez.

- No mudou mesmo - concordei.

Mas o Sr. Soames no disse mais nada e eu subitamente perguntei:

- Quer dizer que no vai aposent-la, no ?

- Aposent-la? - ele indagou, parecendo muito surpreso. Aposentar
Emma? No, no, claro que no. Meu Deus! Depois riu. - De acordo
com o seu comportamento hoje,
acho que ela vai trabalhar at os 18 anos.

Era como se o sol de repente surgisse e brilhasse em meu rosto: que
maravilha! Despedi-me do Sr. Soames e ento Erama e eu fomos para
casa. No caminho de volta,
parei para comprar um novo osso de borracha para ela. E  noite Don e
eu samos para comemorar.

Pouco depois disso tivemos uma felicidade maior ainda. Depois de todas
as incertezas e das noites de solido, durante cinco anos de espera,
Don estava finalmente
livre para casar-se comigo.

No entanto, eu no quis sair correndo para contar a todo mundo e fazer
um casamento muito pomposo. Achava que nosso amor era algo muito
particular e queria dividi-lo
apenas com minha famlia e mais uma ou outra pessoa amiga. Quando
convidei essas pessoas, ficaram todas muito emocionadas.

- O que devo vestir? - perguntei a Don.
- Bem, querida, depende de voc.

- Vou usar alguma coisa verde - disse eu, pois associava verde 
primavera e a todas as coisas agradveis e bonitas. No dia seguinte,
sa para fazer compras com
minha me. Ela

olhou uma poro de vestidos at escolher um que lhe agradasse a
vista e me agradasse ao tato. Mas Erama estava l para opinar
tambm. Achei que talvez ela devesse
colocar alguma coisa na cabea. Mas depois Don e eu decidimos que isso
no ficaria bem para nossa dama de honra.

Finalmente chegou o dia. Estava muito frio quando Emma e eu samos de
casa para tomar o txi que nos levaria ao cartrio. Mas eu sentia o
calor do sol em meu rosto,
como a sensao que havia dentro de mim. Erama recebeu permisso
especial para entrar no cartrio, particularmente porque eu disse que
me recusava a casar sem a
presena dela.

137

Achei que estava tremendo um pouco _quando empurrei a pesada porta. Eu
quase no acreditava que aquilo estivesse acontecendo, que Don fosse
ficar comigo para sempre.
Dentro do cartrio, ouvi a voz dele dizendo:

- Ol, querida. - Ele segurou minha mo. - Voc est linda.

Quando pegou minha mo, senti que ele tambm estava tremendo e eu
mal pude dizer o "sim" diante do juiz. Enuna deve ter sentido a grande
tenso, pois no meio da
cerimnia ela encostou o nariz molhado na minha mo esquerda, como
se estivesse me dando apoio moral.

Depois tudo acabou. Don e eu samos de l de mos dadas. Senti os
confetes que os poucos convidados jogavam; minha me e meu pai me
abraaram. Mas acho que so consegui
perceber o que estava acontecendo ao meu redor - e o que tinha realmente
acontecido - quando Graham aproximou-se e chamou:
- Sheila, quer dizer, Sra. Hocken.

A fiquei certa de que era tudo verdade. No precisei me beliscar
para ter certeza de que no estava sonhando.

Sim, disse para mim mesma, lembrando-me de que eu achava que nunca me
casaria. Sr. e Sra. Hocken. Era o que mais importava no mundo. E no
pequeno bangal que era
agora a nossa casa, o champanha espocou at de madrugada, celebrando
aquele acontecimento feliz.

138

capitulo doze

Uma Esperana

Num frio dia de janeiro de 1975, Emma e eu tnhamos acabado de chegar
do trabalho, depois de fazer algumas compras no caminho de volta. Quando
coloquei a chave na
porta da frente, escutei o telefone tocando. Por alguma razo a chave
no queria rodar na fechadura e lembro-me de que comecei a ficar
impaciente, tentando vir-la
de qualquer jeito, com medo de que desligassem. Quando finalmente
consegui entrar em casa e atendi, ouvi a voz do meu irmo Graham.

Graham., como j mencionei, tinha um problema de viso similar ao
meu; mas, apesar de ter perdido completamente uma vista devido a uma
cirurgia malfeita, quando
era menino, ainda tinha - ao contrrio do meu caso - um resto de
viso. Alm disso, estava constantemente procurando meios de
melhorar a pouca viso de que dispunha.
Estava me telefonando para contar sua mais recente tentativa. Ele tinha
ido a um oftalmologista a fim de tentar usar lentes de contato. O
mdico, porm, aconselhou-o
a procurar um especialista chamado Dr. Shearing. Ao fazer a
indicao, o mdico havia dito:

- O homem  realmente muito bom. H muitas tcnicas novas que ele
utiliza. V procur-lo.

AssiM, a despeito da relutncia de minha famlia, e de Graham em
particular, em procurar especialistas ou de envolver-se com cirurgia dos
olhos devido  m experincia
do passado, Graham fora procurar o Dr. Shearing, que era um
cirurgio-oftalmologista.

Eu estava excitada com o interesse dele e antes mesmo que ele pudesse
dizer: "Ol, Sheila", eu perguntei:

- Como foi? O que aconteceu?

139

- Bem - respondeu - boas notcias e ms notcias. Ele disse que
seria muito simples retirar o cristalino sobre o qual est a catarata,
mas que no meu caso ele no
gostaria de correr o risco porque s h cerca de oito por cento de
possibilidade de xito. J que enxergo um pouco, ele acha que seria
terrvel se Z-
a operao no tivesse xito. Pediu que eu esperasse um pouco
para ver se surge alguma tcnica nova; de qualquer modo, quanto mais
velho eu ficar mais fcil se torna
a operao. Porque, como voc sabe, com a idade o cristalino
endurece e assim fica mais fcil de ser quebrado e retirado, sem
afetar o restante do olho.

Senti-me uni pouco desalentada, mas ele continuou falando.
- Acho que voc devia procur-lo. Ele  um sujeito muito delicado,
objetivo e muito simptico. Pode ser que possa fazer alguma coisa por
voc.

Achei que Graham estava certo. Que mal haveria em simplesmente expor meu
caso a um especialista? No dia seguinte, telefonei para ele e marquei
uma consulta. Ao desligar
o telefone, percebi que estava trmula.

Suponho que isso se deva ao fato de eu ter sempre aceitado, num nvel
consciente, o fato de ser cega. Mas num nvel mais profundo, como
todos os cegos, eu jamais
aceitara isso. Fica sempre uma vozinha no fundo da mente insistindo:
"Preciso ver. No posso continuar assim." Mas essa voz era sempre
calada, abafada, posta para
fora da mente, porque se a pessoa prestar ateno nela nunca ser
mais que um monte de tristeza, incapaz de participar das coisas da vida,
por se sentir limitada
pelo fato de no enxergar.

Acho que fazer o mximo possvel dentro do que pode ser feito  a
nica forma de se sobreviver apesar da cegueira. Fico sempre
angustiada quando conheo pessoas
que perderam a viso e que nunca se preocuparam em aprender braile.
Disse "nunca se perocuparam", mas a frase no est correta. Se eu
dissesse que elas eram "incapazes"
tambm estaria errado. O que existe por trs de sua atitude  uma
obstinada e mal orientada falta de esclareciniento dos fatos como eles
so. Elas preferem sonhar.
Porque esto realmente convencidas de que um dia recuperaro a
viso. Falam sempre sobre o ltimo especialista que visitaram ou
sobre a operao que vo fazer ou,
pior: "Disseram que a

140

prxima operao. . . " e "Esperam que dentro de alguns anos. . .
"  tudo compreensvel, mas muito triste tambm, porque esse tipo
de esperana impede que a pessoa
toque a vida de acordo com o que aconteceu realmente. Eu sempre tentei
lidar com a aceitao dos fatos. Somente quando pensei na
possibilidade de enxergar novamente
foi que a frustrao e o completo dio de ser cega surgiram. E ali
estava eu, trmula, por sentir aquela esperana.

Era preciso esperar trs semanas antes de ser atendida pelo Dr.
Shearing. As esperanas aumentaram e a raiva da cegueira tornou-se
mais intensa. Minha imaginao
vagou  larga. Quando marquei a consulta, disse a Don:

- Est marcada. No  fabuloso? Vou comear a economizar para
poder comprar um carro. Assim poderei ir a qualquer lugar.

A idia de ter de fazer um exame nunca passou pela minha cabea. E
depois continuei:

- Vou poder me associar  biblioteca pblica. Mal posso esperar para
percorrer todas aquelas prateleiras. Poderei ler qualquer coisa que
escolher.

- Sim - respondeu Don -  maravilhoso. - Mas a voz dele  no me
pareceu to entusiasmada quanto deveria.

- Qual o problema? - perguntei.

Ento ele tentou me dizer, da maneira mais delicada e jeitosa
possvel, para no construir muitos castelos de areia. Ele queria me
encorajar, mas no desejava que
eu me sentisse arrasada se as coisas no dessem certo. Entendi o que
ele queria dizer. Ouvi tudo que ele disse; queria apenas me proteger.
Mas mesmo assim eu no
podia deixar de sonhar. Deixei a alegria tomar conta de mim. Sim, podia
no dar certo. Mas e se desse? Era uma pergunta que eu no podia
evitar. Deve ter sido unia
situao difcil para Don, pois, ao mesmo tempo que no queria
colocar gua fria em minhas esperanas, tinha medo de que aquilo que
eu mais desejava na vida no
acontecesse.

E durante as trs interminveis semanas que tive de esperar pela
consulta do Dr. Shearing minha imaginao percorreu todas as
incontveis possibilidades que a viso
significaria para mim. Finalmente chegou o dia da consulta - uma
sexta-feira. Graham disse que iria comigo porque o consultrio ficava
longe e mesmo com Emma seria
difcil eu fazer o percurso atravs de

141

ruas desconhecidas. Queria ser o primeiro a saber a notcia: ele tinha
um grande interesse no resultado da consulta.

Ficou acertado que nos encontraramos no ponto do nibus. Eu disse a
Erama     que amos encontrar Graham, (ela sabia os nomes de todos os
meus amigos e parentes)
e quando chegamos l senti que ela j  o tinha visto. A cauda
comeou a balanar, fazendo ccegas na   palma da minha mo, e
ela apertou o passo. Quando chegamos
perto dele, ela sentou-se.

Graham me recebeu dizendo:

- Voc est adiantada. O nibus ainda no chegou.

- , eu sei.    Eu no queria perd-lo e por isso cheguei bem
antes.

Depois ouvi o   nibus se aproximando. Emma puxou-me e encontrou um
lugar   para mim e, como sempre, deitou-se debaixo do banco enquanto
Graham sentou-se a meu
lado. Ele no gosta muito de conversar   e por isso fizemos a viagem
calados. Andamos de nibus cerca de uma hora. Quando deixamos para
trs os ecos da estao rodoviria
e comeamos a caminhar em meio ao trfego senti-me excitada. E todos
os pensamentos sobre a possibilidade de enxergar comearam a passar
por minha mente. De repente
pensei em Erama e pela primeira vez minha preocupao de ser
obrigada a ter outro co por causa da idade dela desapareceu.

Pela primeira vez pensei: se eu voltasse a enxergar, Emma no
precisaria mais me guiar; eu poderia lev-la para passear como os
outros cachorros; a dupla de nove
anos, com tudo que isso representava, no teria de ser desfeita. Esta
possibilidade era maravilhosa.

Graham foi nos explicando o caminho do consultrio. Quando chegamos na
porta ele disse que nos deixaria l porque precisava fazer algumas
compras. Tocamos a campainha
e ele se despediu:

- Dentro de meia hora estarei de volta. Boa sorte.

A porta foi aberta e meu nariz foi    ' invadido por aquele aroma de
limpeza e assepsia mist-arado com o cheiro de assoalho encerado. A
recepcionista levou-me at
a sala de espera e fiquei sentada l, sozinha, com Erama a meu lado.
Pouco depois ouvi a porta do consultrio ser aberta e uma voz muito
suave dizer:
142

- Sra. Hocken? - Levantei-me imediatamente. - Quer entrar, por favor?

Ema guiou-me pela sala de espera e depois atravs de um corredor
estreito. Finalmente chegamos ao que me pareceu uma sala bem grande e
toda acarpetada. Senti que
a lareira ficava diante de mim e Ema foi direto para junto dela.

Ento, jovem, em que posso servi-la? Desejo saber se o senhor pode me
ajudar.

Houve um silncio profundo, quando pude escutar o tique-taque do
relgio  minha esquerda e o rudo da lareira a gs. Imaginei
depois que o Dr. Shearing deve ter
tido uma surpresa ao ver algum entrar em seu consultrio conduzido
por um co-guia: diante disso, possivelmente, um caso sem esperana.
Depois, ento:

- Bem, quer sentar-se?

Eu disse a Emma para achar uma cadeira. Toquei-a com a mo, depois
tirei a guia de Emma e sentei-me.

-- Qual o seu nome, jovem?

Achei logo que ele tinha uma pssima memria, j que no podia
nem lembrar do meu nome.

- Sheila Hocken - respondi.

- No, no. Desta criaturinha adorvel que est sentada ao seu
lado.

- Ah., sim.  Emma.

- Emma. Sim. Combina com voc. - Eu ouvi quando ele comeou a passar
a mo no plo dela. Depois voltou a falar: Eu tinha dois boxers.

- Boxers? Adoro boxers. - Indaguei sobre os animais e ele me contou
todos os detalhes sobre eles. Haviam morrido de velhice.

- O senhor no tem nenhum cachorro agora?

- , tenho um bloodhound. So muito voluntariosos os bloodhound.
Muito voluntariosos.

Eu estava gostando de conversar sobre ces, mas fiquei imaginando se
estvamos dando voltas para no tocar no assunto principal, por ser
algo difcil de se falar.
Estava ficando nervosa. Mas finalmente ele pediu que eu lhe contasse
tudo sobre meus olhos.

143

Expliquei-lhe o fator hereditrio e que tinha procurado por ele depois
da consulta que meu irmo lhe fizera. Ele no dizia nada enquanto eu
falava.

Quando terminei, ele me levou para outra cadeira e colocou algumas
gotinhas em meus olhos para dilatar as pupilas a fim de poder fazer o
exame.

- Vou deix-la aqui um instante, para que o remdio faa efeito.
Dentro de 1O minutos estarei de volta.

Ouvi-o sair da sala e fechar a porta. Novamente s podia ouvir o
relgio e o chiado da lareira. S que desta vez o ronco de Enima
fazia um estranho contraponto com
o tique-taque do relgio. No conseguia ouvir nada do lado de fora e
no ar s identifiquei um leve cheiro de fumaa de charuto.

Ele voltou, ao que me pareceu, em menos de 1O minutos. Senti-o
examinando meus olhos. Sussurrava alguma coisa durante o exame, findo o
qual disse-me de modo delicado:

- Muito bem, venha se sentar numa cadeira mais confortvel.

Ele me levou at onde eu estivera sentada antes e o ouvi brincar
novamente com Enuna. Pelos sons que fazia ela estava gostando daquilo.
Eu estava ansiosa para lhe
perguntar o que ele achava, o que tinha visto. Mas ele continuou
brincando com Emma, dizendo a ela que a achava muito bonita. Quase
fiquei impaciente, mas permaneci
sentada e esperando.

- Bem, jovem - disse ele, finalmente. - O que espera que eu diga?

O que eu esperava? No sabia. Nem iniaginava. Era uma sensao
estranha colocar em palavras a possibilidade que eu ,desejava tanto
ouvir. Mas respondi:

- No sei. Eu esperava, depois que meu irmo veio consult-lo...

-- Bem - disse o Dr. Shearing - voc sabe que tem cataratas. Mas sabia
desse problema na retina?

Eu bem sabia daquele problema na retina, mas isso  da natureza
humana. Eu havia empurrado aquele desagradvel e desanimador
pensamento para o fundo da minha mente
nas ltimas cinco semanas. S assim conseguira pensar na
possibilidade de enxergar. Eu tinha me esquecido daquilo por completo.
Mas lembrei-me naquele instante.

144

- Sim - respondi em tom baixo. - Agora me lembro. Mas o que isso
implica? O senhor pode me explicar?

- Vou tentar. Voc tem catarata e  claro que aqui estamos falando
de catarata congnita, em que a retina, dependendo da espessura da
catarata, no tem como se desenvolver
adequadamente. Quanto mais espessa a catarata, menor chance a luz tem de
atingir a retina, e assim a retina tem menos chance de se desenvolver.

Fez uma pausa e depois prosseguiu:

- Se a catarata for muito espessa, a luz no pode atingir o fundo dos
olhos. E como foi isso que aconteceu com voce, suas retinas no se
desenvolveram.

- Eu compreendo - respondi, com o corao apertado. Mas o senhor
no pode fazer nada?

Ele ficou calado algum tempo, que me pareceu um sculo. Senti minha
mente ficando como que gelada e vazia e estranhamente entorpecida. Eu me
sentia incapaz de raciocinar
ou de qualquer reao alm de desejar subitamente me levantar e
sair e no ouvir mais o que ele tinha a me dizer.

Mas ento, para minha total surpresa, ele respondeu:

- Sim. Acho que posso fazer alguma coisa. Posso pelo menos tentar. Posso
tentar retirar o cristalino, ou parte dele, e ver qual ser o
resultado.

Bem, assim seria, pensei. E ento entrei numa onda de excitao.
Perguntei imediatamente:

- Como seria minha viso? Quanto eu poderia ver?

Mas a resposta dele ps meus ps novamente no cho. E sentada na
cadeira, cercada de escurido.

 uma pergunta muito difcil, jovem. Simplesmente no sei.

Mas - insisti, porque precisava saber tudo que fosse possvel, apesar
das conseqncias - se o senhor fizesse uma operao e ela fosse
coroada de xito, eu ainda
precisaria que Eruma me guiasse? Eu poderia ler, por exemplo?

- Bem - disse ele - acho que voc ainda precisaria de Emma e, quanto a
ler, bem, jovem, no fao milagres.

Senti-me desolada. Todos aqueles sonhos do que eu faria

e no do que talvez pudesse fazer. Eu havia esperado um milagre e
devia saber que isso no seria possvel.

145
                Ele era um homem muito gentil e deve ter visto minha
expresso de desapontamento. Disse depois, com a voz cheia de
compaixo:

- Agora, jovem, no posso lhe prometer nada. Voc esperava de mim
uma promessa que voc mesma sabia que no poderia ser cumprida.
Talvez possamos fazer com que
voc enxergue um pouco, talvez no. Vale a pena tentar, no? Um
pouco que fosse seria melhor do que o de agora, no?

 claro que ele tinha razo.

- Sim - respondi - qualquer coisa seria melhor do que nada. Nada tenho a
perder.

Quando lhe perguntei por que o caso de Grahara tinha possibilidade de
recuperao total da viso, ele explicou que as cataratas do meu
irmo eram muito pequenas,
se comparadas com as minhas, e as retinas no estavam afetadas. Ele
disse ainda que as minhas retinas, devido ao seu subdesenvolvimento,
no seriam capazes de captar
os detalhes. J no tinham flexibilidade.

Mas naquele momento eu sabia que deveria tentar o que era possvel.
Perguntei, ento:

-  Devo voltar para a operao?

- No h motivo para pressa, jovem. V para casa, pense e me d
a resposta na segunda-feira.

Senti-me completamente abatida. Quando sa do consultrio do Dr.
Shearing, Graham perguntou:

- E ento?

- E ento, nada.

- Nada? O que voc quer dizer com isso? Ele deve ter dito alguma
coisa.

Caminhamos at o ponto de nibus e contei a Grahara mais ou menos
tudo que havia acontecido durante a consulta. Graham suspirou fundo.

- Que pena. Pensei que talvez voc pudesse recuperar quase toda a
viso.

-  claro que    no.

- o que voc     vai fazer?

- Vou fazer a    operao. - Entramos no nibus e Enuna deitou-se
debaixo do banco enquanto fazamos o trajeto de volta a Nottingham. Eu
e   Graham no trocamos
uma s palavra.

146

Quando Don chegou tentou me confortar, mas eu fiquei ZD

sentada, sentindo-me como uma condenada. At aquela tarde houvera a
esperana de que algum dia as coisas melhorassem. Mas aquelas
ltimas horas pareciam ter acabado
com essa possibilidade que, embora existisse, mais parecia uma
formalidade para provar que no havia chance alguma e que nunca
houvera.

Eu precisava fazer a operao, mas tinha de encarar a grande
possibilidade de ficar cega para o resto da vida. Ento Don me salvou
daquela situao. Ele lembrou
que quando eu era pequena e ainda enxergava um pouco os especialistas
haviam dito que eu me tornaria totalmente cega. Mas, embora eles
estivessem quase inteiramente
certos, pois haviam predito uma escurido completa, eu ainda era capaz
de distinguir luz e escurido. O que no me adiantava de nada. Mas
eu podia fazer esta distino.
E esse pensamento comeou a me alegrar. E se o Dr. Shearng
estivesse errado tambm? De qualquer forma, nenhum especialista
prometeria um milagre. Os milagres aconteciam,
mas promet-los significava que eles no aconteceriam. E por isso,
quando fui me deitar estava um pouco mais alegre por causa do amor e do
encorajamento de Don.
Na segunda-feira, telefonei para o Dr. Shearing e disse que faria a
operao. Quando desliguei, minha esperana ainda estava viva.

147

capitulo treze Hospital

Disseram-me que eu teria de esperar um ano para mo submeter 
operao. A carta dizendo-me que estava tudo pronto para a
interveno chegou em setembro, de forma
que o prazo fora reduzido para cerca de nove meses. Mas foram nove meses
que  eu jamais gostaria de viver novamente.

A carta chegou me dando um prazo de apenas quatro dias para a data da
operao, e isso foi um alvio. Tive de organizar tudo to
depressa que havia poucos instantes
para ficar pensando e tornar-me ansiosa. Eu tinha de ir numa
quarta-feira, 3 de setembro. A vspera parecia o ltimo dia do ano
velho, quando se fica pensando: esta
 a ltima vez que fao isso este ano. No trabalho todos me
desejaram sorte e uma das garotas chegou para mim e disse:

- Espere s at voc voltar. Poder ver todas ns. O que
pensar  de ns?

-   No sei - respondi - mas no seria maravilhoso? Ela estava mais
confiante do que eu. Em mim havia uma enorme   esperana, no uma
certeza. Mas eu no podia fingir
que no havia pensado um sem-nmero de vezes sobre as identidades
visuais das pessoas que eu conhecia to bem pela voz. Eu tinha uma
imagem sobre suas personalidades
e sobre como deveria ser o escritrio. Na verdade, tinha imagem sobre
tudo e sobre todos, mas era estranho pensar que estava saindo daquele
lugar pela ltima vez
como cega.

Quando cheguei em casa, ouvi Enuna bebendo agua em sua tigela, depois o
som de suas patas na sala de estar e pensei: "Esta deve ter sido a
ltima vez que voc precisou
me guiar a
148

algum lugar, Emma." Depois ento eu a segui, sentei-me e comecei a
pensar nos ltimos detalhes     prticos concernentes a minha ida
para o hospital.

Don, logicamente, ficaria cuidando de Emma. Ele a levaria para o
trabalho e ela o acompanharia    no carro para onde ele fosse. Como o
aviso do hospital chegou
muito em cima da hora, no houve tempo para ele desmarcar seus
clientes. E por isso Don no poderia me levar ao hospital. Mas
Deirdre, uma amiga minha que era enfermeira,
me levaria.

Na manh seguinte, levantamos bem cedo e, graas a Deus, as
providncias da vspera evitaram maiores preocupaes alm de
uma leve pontada que eu sentia no estmago.
Antes de Don sair, eu disse:

- No esquea de dar os biscoitos a Emma. E no esquea do leite
pela manh...

Don respondeu de modo paciente:

- Voc sabe que vou tomar conta de Emma. No se preocupe. Ela 
quase to parte de mim quanto  de voc.

E eu sabia que isso era verdade. Depois ele me beijou e falou:

- Boa sorte.

Eu respondi qualquer coisa irreverente como: "Vou precisar mesmo." Mas
as palavras serviam apenas para mascarar o que ns dois estvamos
sentindo. Quando ele j
estava saindo com Emma, eu disse.

- No sei como vou enfrentar isso sem vocs dois perto de mim.

- No se preocupe. Tudo correr bem. E estarei l  noite.
Depois disso, ele e Emma foram embora. Ouvi o barulho do carro e logo
depois o rudo do motor se afastando.
Eu nunca ficara longe de Errima nesses nove anos, exceto quando ela se
operou, e mesmo assim por duas horas apenas. Sem Don e sua constante
presena tranqilizadora,
a idia de que a operao seria bem-sucedida desapareceu.

Felizmente Deirdre no demorou muito para chegar, e veio com muitas
delicadezas e palavras que me restituram a confiana. Minha mala
estava pronta. Conversamos
muito no caminho para o hospital. L chegando, ela cuidou da
internao, e quando me levaram se despediu de mim com as mesmas
palavras de Don:
- Boa sorte.

149

- Obrigada, Deirdre.

Na sala de internao, fui recebida por uma estudante de enfermagem,
moa muito agradvel chamada Jasmine.

- Sra. Hocken, quer vir por aqui?

Ouvi o som de seus passos afastando-se e pensei: "E agora, o que
fao?" Ela com certeza no sabia que eu no enxergava. Fiquei
parada ali, sentindo-me uma tola,
e imaginando se haveria algum olhando para mim. Depois ouvi a
enfermeira voltando e desculpando-se. Acho que ela estava mais
embaraada do que eu. Segurei no brao
dela para seguirmos at a enfermaria onde eu ficaria.

Enquanto caminhvamos, juntamente com todos os outros sentimentos que
me invadiam naquele momento, havia a sensao de no gostar de
hospitais. Eu tinha medo deles.
No entrava num hospital desde os tempos de criana, e ainda os
imaginava como lugares sombrios com poderes sobre a vida e a morte.
Felizmente, nos dias que se seguiriam,
essas idias melanclicas desapareceriam rapidamente. Quando cheguei
ao meu leito, Jasmine perguntou se eu queria trocar de roupa.

A senhora pode fazer isso?

Sim, obrigada - respondi. E acrescentei: - Preciso me deitar?

- No - respondeu Jasmine - apenas vista a camisola. Aqui os pacientes
s vo para a cama  noite, j que no h ningum
realmente doente. Pode ficar na enfermaria,
se quiser, ou ir para a sala de estar.

- timo - respondi. Em seguida ela perguntou:

-- Quer alguma revista. . . - mas interrompeu a frase. Desculpe, sinto
muito. A senhora no pode ler, sinto muito.
- No tem problema - respondi - mas eu posso ler.

Trouxe algumas revistas em braile comigo.

Jasmine, como fiquei sabendo, nunca vira nada em braile antes. E ficou
fascinada. Observava meus dedos enquanto eu lia uma das revistas e lhe
explicava como fazer
com as contraes e abreviaturas.

- Bem - disse ela - acho que eu no saberia fazer isso. Levou-me em
seguida da enfermaria para a sala de estar. No caminho, mostrou-me como
era a enfermaria para
que eu co150

nhecesse o trajeto e soubesse quantos degraus havia do meu leito para o
banheiro quantas camas havia de cada lado e assim por diante.

Na sala de estar havia uma atmosfera completamente diferente da que eu
esperava. Era um lugar muito aconchegante, onde me senti muito 
vontade. Todos ficaram surpresos
pelo fato de eu no enxergar. E na verdade eu nunca enxerguei muito
bem. Os pacientes quase todos eram pessoas de mais idade, que estavam
ali para remoo de cataratas.
Por isso alguns estavam muito confusos com a parcial perda de viso e
no conseguiam caminhar com facilidade. Tendo se acostumado a ver
perfeitamente durante toda
a vida, aquilo era algo terrvel. Logo percebi que eu era, na verdade,
a pessoa que estava na situao menos inconveniente.

Tive de esperar a operao durante dois dias: a quarta-feira da
intemao e a quinta-feira. O Dr. Shearing foi me ver no segundo dia
e ficou um pouco comigo em meio
s outras visitas que deveria fazer. Eu sabia que ele estava na
enfermaria por causa do leve odor de fumaa de charuto que penetrava
pela porta: ele devia ter ido
 sala da madre para fumar um charuto. Ele me explicou um pouco mais
sobre a operao; contou como era feita no passado e falou sobre as
novas tcnicas de cirurgia
nos olhos. Num paciente jovem, a catarata  relativamente mole e
aderente (enquanto que nos pacientes mais idosos ela j endureceu) e
faziam-se tentativas de abrir
orifcios no cristalino ou de se retirar parte dele, o que geralmente
resultava em descolamento da retina. Mesmo quando no acontece isso,
os orifcios que foram
feitos acabam cicatrizando como uma crosta e o paciente ficava pior do
que quando tinha entrado no hospital.

O Dr. Shearing explicou que ele pretendia retirar a parte central do meu
cristalino. O cristalino, segundo me explicou, era como uma cebola, com
as camadas de tecidos
superpostas; de modo que, retirando-se a parte central e deixando-se a
parte externa, a retina ficava protegida e a luz entraria no olho pelo
centro. Ele no fazia
idia, no entanto, de como estaria minha retina, alm do fato de que
no tinha se desenvolvido normalmente. Com esse tipo de retina, disse
ele, era impossvel obter
uma viso com detalhes.

151

Era maravilhoso conversar com ele e, embora isso no fizesse com que
eu perdesse o medo, sentia confiana nele. Don foi me ver nas duas
noites antes da operao
- Amanh a esta hora tudo estar terminado - disse eu.
- Sim - respondeu Don, sem conseguir esconder a ansiedade. - Pensarei em
voc o dia todo.

No conversamos muito alm de falar sobre o que Emma havia feito e
como gostara de andar de carro com Don. A maior parte do tempo ficamos
sentados, unindo nossas
esperanas.

Dormi rapidamente aquela noite e na manh de sexta-feira acordei com
uma sensao agradvel, sentindo-me no alto do mundo. Todas as
preocupaes pareciam ter desaparecido.
Eu sabia que aquele era o dia da operao, mas em vez de ficar com
medo, simplesmente pensei: "Que maravilha, estou contente por estar aqui
e no estou preocupada,
Que maravilha."

Senti-me assim, mesmo diante do estudante de medicina que foi me ver.
Por volta das nove horas, fui levada para a sala de operaes.
Embora o caminho parecesse muito
longo, no alterou a agradvel sensao que sentia. No era
felicidade, mas sim uma sensao de que algo realmente importante
estava prestes a acontecer e que eu
no precisava temer. Na ante-sala o anestesista deu-me a ltima dose
da injeo e lembro-me apenas de, ir pensando: "Este  o momento
.. o imomento de. . . ", mas
as palavras no se formaram.

Voltei direto para a enfermaria. Cerca de quatro e meia da tarde. Meu
primeiro pensamento foi: "Acabou, graas a Deus, acabou." Eu sabia que
estava com os olhos
vendados, de modo, que no poderia saber imediatamente se a
operao produzira bons resultados. Lembro-me de que pensei: "Logo
saberei." Porm niais que tudo eu
sentia sede. Tinha a impresso de que beberia uma cachoeira
inteirinha. Mas no conseguia fazer o esforo de pedir gua.
Fiquei deitada ali, ouvindo ao longe as
pessoas indo e vindo e o rudo agora familiar das divisrias sendo
puxadas e outros barulhos caractersticos de hospital. Depois de
aproximadamente uma hora consegui
murmurar:

- Posso beber alguma coisa, por favor?

Don ia me ver quela noite e lembro que fiz um grande esforo para
me manter acordada e de certa forma parecer bem
152

e prestar ateno a ele. Eu saberia o momento em que ele chegasse
pelo barulho dos passos. Mas s conseguia distinguir os passos das
enfermeiras, todos diferentes:
Annette, Ann, Jasmine, Alison, Linda e da madre. A madre era uma pessoa
excepcionalmente boa, que no se achava no hospital no dia em que me
internei. As freiras
podem ser todo o bem e todo o mal de uma enfermaria e esta era
certamente o bem. Em vez de ser uma pessoa rigorosa, era uma mulher que
espalhava boa vontade por
onde andava. Sua entrada na enfermaria era como o espocar do champanha.
Ela enchia o lugar de alegria. Fazia com que todos rissem e se
divertissem, tornando aquela
estada ali algo maravilhoso.

Quando finalmente reconheci os passos de Don aproximando-se, senti-me
tranqila. A simples presena dele acalmava aquela idia que
permanentemente se agitava em
minha mente: deu certo? No deu certo?

Don sentou-se ao meu lado e perguntou:

- Quando vo tirar as vendas? Quando voc ficar sabendo?

- Segunda-feira - respondi, e ns dois sabamos como aquele fim de
semana seria interminvel.

Mas o tempo passou, como sempre aconteceu. Mame e papai foram me ver
no sbado, e meu irmo Graham tambm. Todos ns fazamos
conjecturas que no sabamos transpor
para frases adequadas.

Aposto que voc no consegue esperar at segunda. No, no
posso mesmo.

Havia tanta coisa por trs dessa conversa boba. A histria da
cegueira de uma famlia - histria de dor e esperana. Quando Don
foi me ver outra vez, no conseguia
esconder

seus sentimentos e tornou-se muito protetor, dizendo:

- Bem, voc sabe, se no tiver dado certo e se voc no puder
ver no vai haver problema, no  mesmo? Nunca fez diferena no
passado, e ainda h tanta coisa para
fazermos juntos.

Don foi maravilhoso ao me dizer isso, ao tentar me proteger contra a
pior possibilidade. E sei que lhe custou muito diz-lo, porque a
situao era to significativa
para ele quanto para mim.

153

O tempo corria lentamente na enfermaria, dividido entre os horrios
das refeies, o momento de tomar a temperatura, os comprimidos e o
sono. Na noite de domingo,
Don estava novamente a meu lado. Estvamos conversando (eu j
conseguia sentar; na manh seguinte  da operao eu j no
conseguia mais ficar deitada). Ele disse
ento:

- Voc me telefona ento, certo?
-  claro.

- Logo que souber. z

-  lgico que vou ligar.

Eu sabia que ele gostaria muito de estar no hospital no momento em que
as vendas fossem ser retiradas e saber a verdade imediatamente, mas isso
era impossvel por
causa do seu trabalho.

Na hora de ir embora, Don animou-me:

- Espero que tudo tenha dado certo. - Depois de uma rpida pausa,
acrescentou: - Estas palavras so insuficientes, voc no acha?

- Acho que no - respondi. - Sei muito bem o que voc quer dizer com
elas. Quando voc voltar aqui, j saberemos de tudo.

E a partir de ento, a partir do momento em que ele foi embora,
comeou a correr um tempo que parecia infinito. Horas de espera, uma
interminvel contagem para a
concluso da qual eu no poderia escapar.

O tempo normalmente correria rapidamente de oito horas da noite de
domingo s 1O da manh de segunda, um rpido intervalo entre o
jantar e o horrio de ir para
o trabalho. Mas agora o tempo parecia ampliado. E eu tambm. Os
minutos e segundos pingavam, pingavam, pingavam.

Passei a mo no meu relgio. Ouvia o tique-taque que ele fazia, mas
no me parecia no ritmo normal.

No leito que ficava ao lado da minha cama estava May. Do outro lado
ficava Muriel. As duas tinham sido muito atenciosas e gentis comigo
quando cheguei ao hospital.
Ouvi Muriel dizer, j tarde da noite:

- Estou ouvindo voc passar a mo em seu relgio. No se
preocupe. Logo vai amanhecer. Tente dormir um pouco, Sheila. Mas dormir
estava fora de cogitao. Passei
a mo nova
mente no relgio, Meia-noite e sete. J era segunda-feira! De154

pois o relgio me informou que era 1:10, depois faltavam oito minutos
para as duas e ento achei que devia dormir um pouco, pois logo seriam
6:0O e as enfermeiras
chegariam e comeariam a tirar a temperatura e a trazer o ch.

Sentei-me. Mais quatro horas, pensei, mais quatro longas horas. Acendi
uni cigarro, o que no era permitido de todo, mas sentia-me to
nervosa que nem me incomodei.
Talvez por todos saberem o que estava se passando comigo  que
ningum me pediu para parar de fumar, o que me aliviou um poucol

As 8:00, alguns cigarros mais tarde, chegou a primeira refeio. Eu
no queria comer nada, mas pensei: preciso comer. Isso ajudar a
passar o tempo. Vou gastar uns
15 minutos nisso. E ento comecei a comer torradas com gelia.
Quando acabei eram apenas 8:10. O que vou fazer, pensei, durante duas
horas? Muriel aproximou-se e
perguntou:

Voc est bem?

Sim - respondi - estou tima, mas acho que vou enlouquecer antes das
1O horas. No consigo esperar,  terrvel.

- Por que no vai tomar um banho? Assim voce ocupa parte do tempo.

-  uma boa idia - concordei e comecei a procurar as coisas que
levaria para o banheiro. Pensei que se tomasse banho com bastante calma
poderia levar cerca de meia
hora. Mas embora eu achasse que estava fazendo tudo lentamente, ao final
descobri que tinha tomado banho em apenas 1O minutos. Devo ter-me
apressado sem perceber.

Quando voltei  enfermaria comecei a andar de um lado para outro. E
novamente Muriel se aproximou e perguntou:

- Voc quer ir para a sala de estar? Podemos ir at l e ficar
ouvindo rdio.

- No - respondi - acho que no quero ir para l. Mas mesmo assim,
muito obrigada.

O problema era que a sala onde minhas vendas seriam retiradas ficava em
frente  enfermaria, enquanto que a sala de estar ficava na outra
extremidade do prdio;
e s 10:0O eu queria estar ali para ouvir meu nome ser chamado.

Assim, Muriel e May ofereceram-se para ficar perto de mim enquanto eu
esperava o tempo passar. Muriel, especialmente, foi

155

maravilhosa para tentar afastar meus pensamentos da interrogao
angustiante que tomava conta da minha mente.

Eu perguntei a ela, depois que as duas sentaram-se perto da minha cama:

- Como  tudo l fora? Com que se parece?

Era difcil para mim formar uma idia de como era o exterior da
enfermaria. Mas ela descreveu-me tudo, falando das muitas rvores que
havia l fora (eu sabia da
existncia de arvores, pois ouvia o balano dos seus galhos). Ela
falou tambm sobre as rosas e tudo isso imediatamente fez com que eu
sonhasse, como que tocada
por algo fantstico. Como era a enfermaria? Eu sabia quantas camas
havia ali e tambm que havia flores nas mesas-de-cabeceira. Mas Muriel
disse:

- Suas flores so lindas.

Em minha cabeceira havia dlias, mas eu jamais gostara muito de
dlias. Pareciam-me agressivas e no tinham perfume. No conseguia
imagin-las, ao contrrio das
rosas, ou dos cravos, ou jacintos; cada flor dessas tinha sua prpria
personalidade atravs do perfume. Eu no fazia idia de minhas
dlias e por isso estava, embora
possa parecer ingratido, pouco interessada nelas.

A cada cinco minutos passava a mo no meu relgio e o resto do tempo
ficava fumando. Fumei sem parar. Muriel informou-me, de modo muito
gentil, quantos cigarros
eu havia fumado.

- Eu sei - respondi. - Sei que no devia fumar mas preciso ficar
fazendo alguma coisa.

Eram 9:40. Ento senti vontade de me levantar e comear a andar de
um lado para outro novamente. Meu estmago estava embrulhado e eu me
sentia pssima. No fundo
da minha mente estava sempre presente aquele aviso do Dr. Shearing: "Eu
no fao milagres, jovem."

Ouvi Annette entrar na enfermaria. Chamei-a e perguntei:
- J comearam a fazer os curativos?

- Ainda no - respondeu - mas no deve demorar muito mais. E no
se preocupe, farei com que voc seja a primeira. Passei a mo
novamente em meu relgio, que a essa
altura j devia estar quase gasto. Faltavam 1O minutos ainda.

156

capitulo catorze

As Vendas So Retiradas

Quando finalmente a madre entrou na enfermaria e chamou: "Sheila", o
estranho  que no aconteceu nada. Continuei sentada. Muita gente
conta casos de pessoas que
haviam ficado paralisadas pelo medo ou apreenso ou seja l o que
for. Suponho que isso tenha acontecido comigo, literalmente. Eu estava
sentada dentro da enfermaria,
quase em frente  sala de curativos, e  espera da voz da madre. Eu
imaginara dizer: "timo, l vou eu" ou qualquer coisa assim, ficar
em p imediatamente e atender
ao chamado. Mas fiquei sentada, toda trmula, subitamente percebendo
que meu corao estava disparado, a pulsao aumentando, e
sentindo calor e frio ao mesmo tempo.

- Venha, Sheila - ouvi a madre dizer novamente com sua voz alegre. -
Estamos prontos.

Junto a mim, minha amiga Muriel sussurrou:
- V, Sheila, estamos todas com voc.

Eu pensei naquele instante: "Esperei por isso durante muito tempo; esse
momento deveria ser o incio do grande momento, finalmente... ou
talvez no seja. . ." Eu
estava aterrorizada.

Mas levantei-me e depois, em vez de transpor rapidamente aqueles poucos
metros, caminhei lentamente e de forma hesitante. Eu mal conseguia
andar. Entrei na sala
de curativos depois de algum tempo; as mos de algum me levaram
at uma cadeira. Passei minha mo nela e achei que era uma cadeira
muito estranha para um hospital.
Lembro que no meio de toda a confuso que era minha mente pensei que
aquilo mais parecia uma cadeira de escritrio. Tinha braos, parecia
forrada de couro e tinha
um apoio para a cabea. Sentei-me e agarrei-me nos braos, como se
minha vida dependesse daquele gesto. Apertei os braos

157

e minhas unhas se enterraram no couro. Depois senti as vendas
comearem a ser retiradas. E subitamente desejei que no fizessem
aquilo. Contudo, ao mesmo tempo,
eu no podia fazer nada para deter aquelas mos. Eu queria gritar:
"No. Por favor, no faam isso." Agora que chegara o momento, eu
no desejava encarar a situao.

Finalmente as vendas foram retiradas totalmente, mas mesmo assim eu
no queria saber o resultado e mantinha meus olhos bem fechados. Ouvi
a madre dizer:

- Vamos, Sheila, abra os olhos, as vendas j foram retiradas...

Apertei com mais fora ainda os braos da cadeira e abri os olhos.

O que aconteceu ento - a nica forma como posso descrever aquela
sensao -  que fui de repente atingida fisicamente por um grande
brilho, como se tivesse recebido
um choque eltrico muito forte no crebro e por todo meu corpo.
Aquela sensao me invadiu por completo com uma onda de energia que
me trouxe um brilho inimagnvel,
incandescente: diante de mim havia um branco fascinante que eu mal
conseguia suportar e um tom de azul muito vvido que eu jamais pensara
existir. Foi fantstico,
maravilhoso, inacreditvel. Era como o princpio do mundo.

Em seguida virei-me e olhei para o outro lado e depareime com o verde,
muitos e muitos tipos diferentes de verde, algumas partes mais escuras,
tudo inacreditvel.
E ao mesmo tempo havia um jorro de vozes que em meio quele brilho
diziam:
- Voc est vendo? Est vendo?

Mas estava to dominada e encantada com aquela sensao que
invadia todo meu ser, como se o sol tivesse entrado em meu crebro e
no meu corpo e espalhado todas as
partculas de sua luz e cor, que levei algum tempo para responder.
Olhei novamente para o azul e disse:

- Oh,  azul,  to lindo.

- Sou eu - disse a madre, vindo em minha direo. O azul que eu
estava vendo era do hbito dela. E ela aproximouse de mim, tocou-me e
disse:

- Sheila, voc est vendo?

Mas meu pensamento ainda estava desordenado e por isso voltei-me para o
outro lado e falei:

158

- Verde,  maravilhoso. - Eram Annette, Linda e Ann. que  estavam em
tomo de mim.

- Somos ns.  a cor do nosso uniforme.

Ento todos perceberam que eu conseguia ver direito, porque  um pouco
ao longe havia algo que me pareceu amarelo. Eu no  sabia o que era
aquilo, mas perguntei:

- O que  aquilo ali amarelo? E algum respondeu:

-  uma lmpada e realmente  meio amarelada.

Mas todos tinham certeza de que eu estava enxergando, apesar de no
distinguir o objeto como sendo uma lmpada e de dizer a cor errada.
Minha lembrana das cores
estava um pouco apagada, mas ainda podia identificar as mais fortes.
Porm, at aquele instante no sabia que havia no mundo cores
to brilhantes e claras.

Tudo isso, bem sei, levou apenas alguns segundos. Tudo acontecendo ao
mesmo tempo. Em seguida, rapidamente tambm, tudo comeou a
tornar-se embaado e confuso. As
cores comearam a ficar mais fracas e a se misturar. Ento pensei:
"No, oh, no, est tudo indo embora. Vai ficar tudo assim, no
consigo mais. . . " Fui invadida
por um sbito terror e instintivamenie coloquei as mos sobre os
olhos - e senti que havia lgrimas rolando em meu rosto. E pensei:
"Graas a Deus, no est nada
indo embora. So as lgrimas." E comecei a enxugar os olhos de
maneira incontrolvel, sem parar, por causa da alegria e da
6urpresa que eu ainda no conseguia controlar por completo. Enquanto
isso, ao meu redor, todos, a madre, as enfermeiras e muitas outras
pessoas, apertavam minha
mo, cumprimentandoine - e eu consegui ver que todos tambm estavam
chorando e que por isso no conseguiam dizer nada.

A lembrana desses poucos segundos  indelvel: a surpresa, a
sensao de dvida, apesar da crena, a sbita descoberta de
que eu podia enxergar. Eu podia enxergar!

Depois foi preciso colocar as vendas novamente, mas no ma importei.
Eu sabia que havia muita luz alm das vendas, mesmo tendo que voltar
para o mundo das trevas
de onde acabara de sair. E quando as vendas foram recolocadas,
compreen-di que antes eu nunca conhecera realmente a profundeza daquela
escurido em que vivia, pois
a lembrana da primeira visO de luz permanecia em minha mente e as
cores bailavam e se mis
J59

turavain, compondo formas diferentes e interminveis, girando.
Enquanto tudo isso acontecia, eu pensava: "Mesmo com os olhos vendados,
 tudo to lindo ainda." E
eu sabia que tinha escapado da escurido infinita.

Voltei para a enfermaria com as pernas mais trmulas ainda, se  que
 possvel, do que quando sara para a sala de curativos. Eu tinha
mpeto de gritar para todo
mundo ouvir: "Eu enxergo, eu enxergo!" Mas minha voz saiu num sussurro.
Todos na enfermaria j sabiam da novidade. A notcia havia-se
espalhado. Senti que estavam
todos contentes por aquilo ter acontecido comigo; e isso tambm, a
sensao de que outras pessoas dividiam comigo aquele sentimento,
era maravilhoso.

De repente percebi como era estranho que todas aquelas pessoas me
quisessem bem. Era como estar cercada por um gigantesco abrao amigo.
Fiquei sentada na enfermaria,
numa das poltronas que havia l, saboreando aquela atmosfera, algo
mais forte do que era capaz de agentar. Eu havia conseguido uma coisa
por que havia esperado
muito; por muitas vezes havia tentado imaginar como seria passar a
enxergar; mas a realidade no tinha nada a ver com o que eu imaginara.
Era encantadora e eu ainda
no podia compreender todo seu significado.

Enquanto estava ali sentada, um pensamento me martelava: "Preciso
telefonar para Don, preciso contar a ele." Depois ouvi a voz de Jasmine.
Ela lembrara-se de que
eu poderia querer telefonar, mas como viu que eu ainda estava chorando,
perguntou:

- Posso discar o nmero? - Havia trazido o telefone at perto de
mim. Depois de alguns instantes, ela pediu: - Posso ficar aqui enquanto
voc conta a ele que j
pode enxergar?

Eu podia sentir a alegria dela como algo material, fsico, e sentir
contentamento no modo como falava.

Mas, embora imaginemos as coisas de um modo perfeito, elas nunca so
perfeitas. Uma prova disso  que o telefone de Don tocou diversas
vezes mas ele no atendeu.
Devia estar atendendo algum cliente. Depois que o telefone     tocou
algumas vezes, pensei: "Atenda, preciso falar com voc." Mas o
aparelho continuou chamando,
chamando, at que eu desliguei. Depois tentei o nmero da central de
rdio-recados,  que se encarregaria de cham-lo pelo cdigo de seu
aparelho, 269, e lhe dar
o recado. No seria a mesma coisa que falar com ele diretamen
160

te, mas de qualquer modo ele ficaria sabendo logo da novi. dade.

Liguei imediatamente para a central de rdio-recados.
- Quero deixar um recado para o 269.

- Pois no. Qual o recado?

- Diga a ele apenas que posso enxergar.

Houve uma pausa e depois a voz da pessoa que me, atendia  pareceu-me
confusa.

Bem, dizer a ele que voc pode enxergar? Sim. Diga s isso a ele.

Desliguei, sentindo-me um pouco deprimida, porque na verdade eu queria
sair logo do hospital e dizer a todo mundo na rua, e subir no topo do
Everest, ou ir a uma
estao de rdio e anunciar para o mundo inteiro, vrias vezes:
"Posso enxergar, sou eu, posso enxergar..."

Em vez disso, telefonei para o meu irmo e tudo que disse foi:

- Estou enxergando,  maravilhoso, as cores so fantsticas, nunca
soube que o mundo era to brilhante.

Depois ento liguei para todos os nmeros de que me lembrei,
colocando uma moeda atrs da outra no telefone, e dizendo sempre a
mesma coisa. Ningum do outro lado
tinha muita chance de dizer algo, mas eu sabia que todos estavam
felzes por mim. Gastei quase uma libra em telefonemas.

Somente por volta de meio-dia Don telefonou. Ele havia recebido meu
recado. Disse-me que tinha sado para atender um paciente. Emma ficara
no carro esperando. Quando
voltou, a luz do aparelho de rdio-recado estava acesa, o que indicava
que havia algum recado para ele. Acho que quando ele viu a luz do
rdio-recado acesa ficou
nervoso, porque durante toda a manh ele tinha esperado um recado; Don
contou-me que ficou sentado algum tempo imaginando qual seria a
notcia, se infinitamente
boa ou tremendamente desalentadora. Disse que quando pegou o telefone e
recebeu  o recado no teve resposta. Sentou-se no volante do carro mas
sem condies de dar
partida no automvel, maravilhado com o que ouvira. Depois de algum
tempo abraou Emma e disse:

- Emma, voc     no precisar trabalhar nunca mais. Quando foi me
   ver,  noite, no falou muito a princpio. Nem eu. Nenhum de
 ns tinha condio de avaliar
corretamente

161

o que havia acontecido. Ns estvamos to envolvidos, Don e eu,
que levou algum tempo para que pusssemos em palavras o que nos
passava pela cabea, como se uma
palavra comeasse a se formar, definisse sua forina o depois ento
se tornasse maior.. cada vez maior.

Finalmente ele comeou a falar:
- Quando voc for para casa...

E de cada vez havia algo novo que ele me mostraria. Ficamos sentados,
conversando e fazendo planos, ali na enfermaria. Ele me disse que as
folhas das rvores estavam
mudando de dourado para vermelho e pela primeira vez aquilo fazia algum
sentido para mim. Contou-me tambm que fizera urria nova lareira de
pedras e que estava ansioso
para mostrar-me. Nas frias ns iramos... e a vida comeou a
desdobrar-se em projetos e agora, em vez de ficar limitada a meu mundo
de trevas, era algo cheio de
luz e cor.

Quando Don me telefonou por volta do meio-dia, as enfermeiras haviam
acabado de trazer o almoo e eu estava ansiosa p,ira comer. Estava
pensando: "Se aquelas cores
que vi so lindas, como no ser tudo mais?" As cores ainda
estavam danando em minha mente, atrs das vendas que eu usava,
mudando de forma como um caleidoscpio
e explodindo como fogos de artifcio. Como ser tudo l fora? Eu
tinha vontade de arrancar as vendas e correr at a janela para ver.

Eu queria que o Dr. Shearing chegasse. Lembrei-me das palavras dele: "Eu
no fao milagres, jovem." Mas havia feito e queria que ele
compartilhasse de minha alegria;
e como eu pensava nele! Vrias vezes perguntei  madre:

- Quando o Dr. Shearing vai chegar?

Eu sabia que ele no estivera na sala de curativos pela manh porque
estava operando.

- Ele vir assim que puder - ela respondeu. - Ele ainda est na sala
de cirurgia.

Fiquei sentada ali a maior parte da tarde daquela segundafeira,
pensando: "Gostaria que ele viesse correndo; no consigo esperar para
lhe dizer como isso  maravilhoso."
E ao mesmo tempo ficava imaginando se ele j sabia que a operao
obtivera xito.

Ento, por volta de 4:00, senti ao longe um aroma muito familiar. Era
o leve cheiro da fumaa de charuto. O Dr. Shearing1
162

Provavelmente deveria estar com a madre conversando sobre o que
acontecera. Em seguida escutei seus passos aproximando-se da enfermaria
e sentei-me. Quando ele parou,
ouv-o dizer:

- Ol, jovem, como est?

Subitamente, tudo que eu havia pensado saiu numa torrente de palavras e
de emoo.

- Oh,  tudo to fantstico, to maravilhoso, to fabuloso.
 maravilhoso...

Mas o nico comentrio que ele fez foi:

- Sim, no  maravilhoso? O Nottingham Forest venceu no sbado.

Fiquei surpresa. Eu no podia acreditar no que ouvira. E disse:

- Notts Forest? No me importo com o Notts Forest. Posso enxergar,
isso  que  maravilhoso.

Ele bateu meio sem graa em meu ombro e foi embora. Logo em seguida,
Muriel aproximou-se e disse:

- Gostaria que voc tivesse visto o rosto dele. Parece que ficou
iluminado. Ele ficou parado diante de voc, sorrindo.

E compreendi ento que ele no havia encontrado as palavras que
desejava me dizer. Uma pessoa muito gentil e humana, o assunto sobre o
Nottingham Forest fora apenas
um disfarce, pois ele estava muito emocionado para falar.

Pude, ento, entender sua reao. Mas somente quando voltei ao
hospital, cerca de um ano depois,  que fiquei sabendo de toda a
histria do Dr. Shearing. No hospital,
uma das pacientes me reconheceu. O pai dela estivera internado na mesma
poca em que eu fiz a operao. Ela me disse.

- Depois que o Dr. Shearing foi ver voc, ele esteve na enfermaria
masculina e contou a todos que voc estava enxergando e como voc
achava tudo to maravilhoso.
E que ele achava que tinha valido a pena tentar.

Lembro-me agora de que naquela poca fiquei conversando com ele algum
tempo sobre os fracassos cirurgi   .cos. Ele os considerava algo
terrvel e achava muito triste
no poder fazer nada por esses pacientes cujas cirurgias no haviam
obtido xito Ento recordo que lhe disse.

- Mas o sucesso deve compensar tudo. - Ele concordou comigo. E agora
entendo por que ele foi at a enfermaria dos homens e contou a todos
sobre minha operao. Ele
deve ter

163

sentido - pelo menos espero que tenha sentido - uma grande alegria pelo
que fez por mim.

Depois que o Dr. Shearing foi embora, fiquei esperando o horrio de
visitas e recebi muitas. Alm de Don, que ia ao hospital todos os
dias, de mame, papai e de
Graham, nerhuma pessoa amiga tinha aparecido ainda. Mas naquele dia tive
cerca de 1O visitas ao todo. A cada pessoa eu contava o que havia
acontecido naqueles dois
nnutos dentro da sala de curativos, As visitas s tinham chance de
dizer: "Ol" e "At logo" e de me entregarem os presentes,
geralmente chocolate ou flores.

A partir daquele dia, as vendas eram retiradas todas as manhs por
cerca de dois minutos. A enfermeira pingava colrio nos meus olhos e
depois uma nova venda. Com
exceo daqueles dois claros e incandescentes minutos, eu continuava
habitando meu velho mundo de escurido. Mas a cada dia eu ficava menos
acostumada quilo, 
medida que comeava a conhecer mais o que havia do outro lado das
vendas. Comecei a planejar ento o que olharia durante o pequeno
intervalo em que ficava com os
olhos destapados. Eu sabia que estaria rodeada pelo azul e verde dos
uniformes, mas procuraria descobrir outras coisas. No obstante, toda
manh, quando eu ia para
a sala de curativos, sentia uma pequena dvida. Pensava sempre:
"Ser to brilhante como antes? To bonito?" Toda manh a
sensao se repetia e a ansiedade afastou-se
de mim.

Era difcil escolher alguma coisa para olhar. Numa das manhs,
apanhei o vaso de dlias, pelas quais eu nada sentira quando chegaram,
e pensei: "Preciso lembrar
de olhar para o meu roupo e para a minha camisola." Pode parecer algo
trivial, mas para mim era importante na poca. Eu queria saber o que
estava vestindo e como
ficava. Quando fui para a sala de curativos aquela manh, ouvi a madre
me perguntar:

- Por que voc trouxe o vaso de flores?

Quando lhe expliquei o motivo, ela riu, mas de modo misterioso. Depois
que as vendas foram removidas e eu superei o renovado choque da sbita
claridade, olhei para
as dlias e vi que elas eram de um amarelo deslumbrante, o mais lindo
que eu j imaginara, e que pareciam feitas de modo muito complexo.
Fiquei to encantada por
todos os detalhes delas e to pesarosa por no ter sentido nada por
elas at ento que esqueci de olhar a roupa que estava usando.

164

Na manh seguinte eu lembrei: o roupo era de um azul-turquesa
maravilhoso e a camisa, prpura. A combinao parece terrvel,
mas no achei isso naquela poca, especialmente
porque levei um choque. Eu estava olhando para baixo e reparei em minhas
mos. Fiquei assustada. Elas me pareceram horrveis. No consegui
desviar os olhos delas.
E disse a uma das enfermeiras,

- Annette, olhe s minhas mos. No so horrveis? Ela
aproximou-se, olhou-as bem de perto e depois indagow o que h de
errado com elas?

Olhe bem, veja s as veias e os ns dos dedos. Os ossos esto
salientes. No so horrveis?

So perfeitamente normais. No pode ser.

Mas so. Veja as minhas. As suas mos so como as de todo mundo.

Ento olhei para as mos dela e vi as veias saltadas.
- Puxa, no so uma coisa horrvel?

Sempre esperei que as mos fossem lisas e bonitas, ja que so to
perfeitas para o tato. Fiquei realmente frustrada. Quando Don chegou,
 noite, eu lho disse:

-   Veja minhas mos.

-   Estou vendo. Esto perfeitas. Qual o problema?
-   Mas elas so horrveis.

-   No so horrveis. Suas mos so lindas.

-   Mas olhe as veias saltadas e os ns dos dedos. So horrorosas.

- Claro que no so. Espere s at ver as minhas. Voc ver
veias e muito mais. As mos de todo mundo so assim.

Eu realmente no podia aceitar que minhas mos fossem iguais s
das demais pessoas. Fiquei com essa idia na cabea por mais um dia,
ou dois, at me acostumar com
aquilo, e por isso escondia as mos nas mangas do roupo.

No dia seguinte, o Dr. Shearing apareceu novamente. Disse que se eu
quisesse poderia ir para casa na outra manh, Era como receber a ordem
de soltura e o perdo
por um crime que nunca se cometeu. Liguei imediatamente para Don. Fiquei
to excitada com a idia que no consegui dormir  note,
esperando chegar a sexta-feira,
quando eu veria o mundo exterior pelo primeira vez e comearia uma
vida realmente nova.

165

capitulo quinze

 Primeira Vista

Don combinou de me apanhar ao meio-dia e meia. Durante toda a semana ele
havia brincado comigo, dizendo que pintaria seu cabelo grisalho.

- Voc vai gostar da nova cor. Porque eu j conhecia voc. Desde o
incio eu sei como voc . Mas voc nunca me viu e poderia levar
um choque.

- No importa como voc  - respondi - isso no far a menor
diferena.

Eu nunca havia pensado o que acharia da aparncia das pessoas. No
tinha noes preconcebidas, em nenhum sentido, sobre como elas
deveriam ser. Muito menos passou
pela minha cabea que a partir daquele momento a imagem das pessoas
ajudaria no conceito que eu formaria delas, como acontece com as pessoas
que sempre enxergaram
e a quem me juntaria agora. Isso me parecia algo estranho.

Fiquei esperando por Don. Estava usando culos escuros, pois meus
olhos ainda no estavam acostumados  luminosidade e por isso deviam
ser protegidos no incio.
Fiquei andando de um lado para outro da enfermaria, ainda maravilhada
com as cores que via, embora um tanto enfraquecidas pelo uso dos
culos. Mesmo a brancura
dos lenis e fronhas nos leitos da enfermaria me impressionava. Eu
olhava para os vasos de flores nas mesinhas-de-cabeceira e pensava:
"No acredito na evoluo.
Essas flores foram sempre assim, perfeitas em cada detalhe, mas
esperando para que eu as visse, feitas especialmente para mim." Era
irracional, mas era assim que
eu me sentia.

Sentei na cama, com as malas j prontas, enquanto imaginava como seria
Don - tentando formar seu rosto pelas descri.166

es que havia recebido ao longo dos anos. Mas no achei bom. E
a ento escutei a porta da enfermaria sendo aberta ela fazia um
rudo caracterstico - e ouvi os
passos de Don aproximando-se. Pensei: "Meu Deus,  ele. Chegou o
momento." E olhei para cima. Vi um estranho dirigindo-se para mim e nem
por um segundo o associei
a Don. Pensei rapidamente: "Cabelo castanho, pele bronzeada, bonito", e
em seguida: " Don!" Mas no conseguia dominar aquela idia, Ele
era muito mais charmoso
e bonito do que eu poderia imaginar. Num relance vi seu terno
azul-marinho, muito elegante, e a gravata com bolinhas e pequenas flores
amarelas sobre o fundo azul.
Ao mesmo tempo, pensei que tinha muita sorte por ter um marido que eu
amava no apenas por tudo que no conseguia enxergar, mas por quem
me apaixonei instantaneamente
logo depois de v-lo. Ele se aproximou de mim e disse, sorrindo:

- Ol, flor.

Meu rosto comunicou-lhe tudo que ele precisava saber sobre
* que eu achava de sua aparncia. Eu estava sorrindo de orelha
* orelha quando respondi ao cumprimento dele.

Ele apanhou minha bagagem e disse:

- Vamos embora, Venha dar uma olhada no mundo. Emma est esperando no
carro.

E eu pensei: "Emma, querida Emma, vou v-la pela primeira vez
tambm. Que dia!" No pude deixar a enfermaria logo, pois havia
muitas pessoas acenando para mim e
desej'ando-me boa sorte. Samos pelo corredor de braos dados e fui
me despedir da madre e das enfermeiras. E ento, quando chegamos 
portaria do hospital, foi
como aquele    primeiro choque eltrico de viso. Toda aquela
inundao de luz se repetiu.

O sol me inundou e mais uma vez foi como imaginei a criao do
mundo.  lgico que eu sabia que aquilo acontecia h milhes e
milhes de anos, pelo menos era o que
meu lado racional me dizia, mas mesmo assim eu sentia como se fosse a
Criao, subitamente repetida para mim. Ao mesmo tempo veio a
idia de que pela primeira vez
eu estava vendo algo a que todos j estavam acostumados, e a
impresso que isso causou em minha mente foi maravilhosa.

Alm da luminosidade do dia, vi tambm uma grande rea verde.

O que  aquilo?

167

- Por qu? Aquilo  o gramado.

Gramado? Claro. Tinha de ser. Algo que eu conhecia com a sola dos meus
ps.

- Mas  to verde. No posso acreditar.  sempre assim? Don
respondeu que sim, mas eu me ajoelhei e toquei a grama com a mo para
me certificar de que era aquilo
que eu sentira antes. E era mesmo.

- Mas h tonalidades diferentes de verde. Olhe s ali. At as
folhas parecem diferentes entre si.

Sim,  sempre assim.

 to maravilhoso, to lindo.

Caminhamos at o carro e Don foi um pouco na frente para soltar Emma.
A prxima coisa que percebi foi Emma pulando do carro e o reflexo do
sol batendo em seu plo
enquanto ela corria para mim. Coloquei os braos em tomo dela e vi sua
cauda balanando, fazendo todo seu corpo se mexer. As orelhas
cadas. Eu chorei.

- Oh, Don, ela no  muito bonita?

Todos diziam que ela era marrom, cor de chocolate. E esta era a
principal noo que eu tinha sobre a aparncia dela. Eu sabia
tambm que ela tinha uma mancha branca
no peito e que o nariz e os olhos tambm eram castanhos, mas nada
disso significava muito para mim. Mas agora eu podia v-la! Ningum
havia conseguido descrev-la
adequadamente.

Suas orelhas eram ruivas. Com a luz do sol incidindo nelas, ganhavam uma
tonalidade mais suave. Seu gracioso nariz brilhava. Havia unia faixa
ruiva que ia do nariz
at perto dos olhos e outra, maior, no dorso, esta parte ruiva do
dorso ia clareando na direo das patas e dos flancos, tornando-se
marrom. Eu no tenho como descrever
o efeito que causou em mim v-la, a no ser dizer que ela era mais
encantadora do que eu jamais poderia imaginar. Eu disse:

- Oh, Emma, voc  to bonita! Ningum nunca me disse isso.
Todos falavam que voc era marrom, mas jamais me disseram que voc
tinha diversas tonalidades de marrom.

Sua resposta foi sacudir a cauda mais rapidamente ainda e apanhar uma
das minhas valises e lev-la pela grama. Ns tnhamos ficado sem
nos ver por 1O dias e ela
estava to alegre por me encontrar quanto eu por v-la pela primeira
vez. Foi at o carro com a valise e depositou-a no banco de trs,
onde se

168

sentou tambm, certificando-se assim de que eu no me afastaria dela
novamente. Se ela estava com minha valise, isso significava que eu teria
de ficar com ela!

Entrei no carro e Emma ficou encostando o nariz em mim enquanto eu
afagava sua cabea. Era estranho sentar no carro em que eu j
estivera muitas vezes, mas sobre
o qual no fazia a menor idia, desde o painel de instrumentos at
detalhes da forrao. Era estranho, tambm, observar Don
dirigindo, mudando as marchas. Eu nunca
pensara nisso e fazia uma vaga idia de como era dirigir. Fiquei
olhando para ele e pensando: "Ele no  bonito? No  fabuloso?
Eu tenho muita sorte!" Ele olhava
para mim de vez em quando, mas sem dizer quase nada.

Depois que deixamos o terreno do hospital, passei a maior parte do tempo
olhando pela janela e todos os tipos de coisas despertavam minha
ateno.

- Aquelas linhas cor de laranja ali servem para qu?
- Ah, so linhas amarelas duplas, mas tambm h linhas amarelas
simples. Elas mostram onde se pode estacionar e onde no  se pode.

- Quando foram colocadas ali?
- Esto ali h muitos anos.
- Tem certeza?

- Bem ... elas esto ali h sculos.

Era um pouco enervante ver coisas sobre cuja existncia eu no
fazia a menor  idia.

- Don, olhe,    h vrios tipos de linhas brancas na rua.
- Sim. Essas esto a h mais tempo ainda.

Pensei: "Acho   que ningum jamais me diria que h linhas brancas e
amarelas   nas ruas; ningum pensaria que isso poderia me interessar."
Ao   v-las, fiquei fascinada.
As laterais tambm. Eu no sabia que eram gramadas ou que havia
tantas rvores.

- Don, olhe as rvores. Sempre houve tantas rvores assim?

- Sim. H rvores por toda parte, centenas delas. Mesmo na cidade.

 lgico que eu sabia que havia rvores. Sempre soube da
existncia delas e podia ouvir o barulho que faziam quando ventava.
Mas nunca imaginei que houvesse tantas,
ou que estivessem em toda parte, plantadas nas caladas, em jardins e,
 medida que avanvamos pelo campo em direo a Nottingliam,

169

mais e mais rvores, com formas diferentes. Eu no conseguia
determinar todos os tipos; havia algumas redondas, outras altas e de
diversas tonalidades de verde.

Don explicou:

- Todas as rvores so assim. At um mesmo tipo de rvore, seja
faia, carvalho, castanheiro ou qualquer outra, pode variar de forma.

E eu olhei para todas as rvores que encontrei no caminho.
O sol batia nelas e filtrava-se peles galhos e folhas, lanando
sombras mveis e por isso pareciam feitas em camadas, como uma saia
rodada. Eu via as folhas mexendo-se
ao vento e disse:
- Parecem que esto danando ao vento.

Todas as pessoas despertavam minha curiosidade e tenho certeza de que
Don, apesar de muito gentil, deve ter sentido vontade de rir de mim.

- Puxa - exclamei - olhe aquelas pessoas na calada. Esto todas
usando roupas com cores diferentes.  fantstico. Mas Don no riu.
Apenas disse:

- Quando voc andava de carro antes, no percebia que as pessoas
estavam ali porque no podia ouvi-las.

Ele tinha razo. Eu sabia que havia um sem-nmero de pessoas em
torno de mim, mas, quando no se enxerga, o carro  uma forma de
isolamento; no se sabe quantas
pessoas esto passando na rua a caminho das compras, ou indo para o
trabalho ou indo a um pub ou simplesmente esto de p conversando.
Eu prossegui falando com Don:

- Olhe as casas, so todas diferentes, as cores das portas so
diferentes.

Linhas amarelas, linhas brancas, cartazes, nibus, sinais de
trnsito, lojas. . . era como uma viagem a uni lugar desconhecido, um
lugar que nunca se imaginou existir,
um mundo novo, tudo passando pela janela do carro como um gigantesco
carrossel.

Quando estvamos perto de casa, lembrei-me das minhas flores. Eu tinha
buqus to lindos e braadas de rosas, dlias e frsias. No
hospital disseram que eu poderia
levar algumas flores para casa, mas na excitao de ir embora
esqueci-me delas. Fiquei um pouco aborrecida ao pensar nas pessoas que
tinham levado as flores que
eu, sem querer, desprezara.

- No podemos voltar? - perguntei a Don.
170

-  muito longe e j estamos perto de casa. No faz mal. Mas as
flores me importavam. Outro pensamento, no en
tanto, desviou este ltimo. Meus gatos siameses no estavam em casa.
Pat, uma amiga que criava siameses, levara o macho Lilacpoint. Eu estava
ansiosa para v-los
e, agora que eu sabia que as cores no eram como eu imaginava, queria
descobrir como cada um deles realmente era.

- Oh, Don - perguntei - os gatinhos esto bem? Podemos apanh-los
hoje  tarde?

Mas ele disse simplesmente:

- No se preocupe com os gatos. Est tudo bem. Vamos para casa que
est tudo bem.

A essa altura j estvamos na rua onde morvamos. Parecia-me tudo
mais lindo do que eu imaginara, com as rvores e as rosas nos jardins
das casas. Ento paramos
diante do porto. Saltei e Emma pulou do carro, ficando na minha
frente, balanando a cauda. Quando abrimos a porta, Emma entrou em
casa correndo e foi buscar diversos
presentes para demonstrar como estava contente por eu ter voltado.

Entrei na sala de estar, a minha sala de estar, e a vi pela primeira
vez. Como tudo mais, era diferente da imagem que eu havia feito: j
que na minha cabea as coisas
pareciam um tanto escuras e sombrias, eu no podia imaginar como
aquela sala era adorvel. Fiquei encantada. De repente achei que Don
havia comprado o mais lindo
carpete vermelho para mim, mas quando ajoelhei-me e o toquei percebi que
no. Era o mesmo carpete que sempre tivemos. Ento ele perguntou:

- O que voc acha da lareira?

Era maravilhosa, com as pedras que ele pacientemente havia colocado ali,
em tons amarelo e rosado. A cornija lanava uma discreta sombra sobre
o carpete. Reparei
os enfeites de metal que eu limpava todas as semanas e pela primeira vez
pude ver como reluziam.

Depois ento percebi o maior buqu de flores que se possa imaginar.
Estava em cima da mesa, com cravos, rosas, dlias; todas transbordando
por cima do vaso e dominando
todo o ambiente.

- Don, voc no devia ter feito isso. So lindas. Que
recepo! Por isso voc disse que no fazia mal deixar as flores
no hospital!

171

Eu havia ficado ansiosa no carro  toa. No instante seguinte, minha
outra pequena preocupao desapareceu tambm. Percebi, ao desviar
o olhar das flores, por instinto,
que havia algum mais na sala. Com o canto dos olhos senti algo
mexendose; olhei e vi uma mulher passar pela janela. Eu no fazia
idia de quem era ela.

- Quem ? - perguntei, olhando para ela mas sem reconhec-la (quem,
afinal, eu poderia reconhecer pelo rosto?). Ela comeou a rir, mas
no disse nada e eu me esforcei
ao mximo para identific-la. Em seguida ela falou:

- Sou eu.

Instantaneamente reconheci a voz.

- Pat! - exclamei. - O que voc est fazendo aqui?
- Bem, vim trazer seus gatos.

- Quer dizer, Ming e os filhotes? Que timo.

- No, no apenas Ming e seus filhotes. Trouxe todos os outros
tambm. Achei que voc gostaria de v-los logo que chegasse em
casa.

Pat desapareceu na cozinha e pouco depois Ming surgiu na porta. O que me
chamou ateno de imediato foi a tonalidade de azul dos olhos dela;
depois reparei em outros
detalhes, o focinho preto reluzente, as patas, orelhas. Reagi da mesma
maneira que uma hora antes, ao ver Emina pela primeira vez. Com Ming e
todos os demais gatos,
eu no estava preparada para a variedade de cores e tonalidades que
ningum, nem nenhum livro. jamais fora capaz de me dizer. Eu havia
escolhido siameses porque
os achava macios e elegantes. Mas v-los foi uma revelao e o
maior prazer de todos foi observ-los andando. Pareciam flutuar.

Finalmente Don precisava voltar para o trabalho e fazer as visitas a
seus clientes. E Pat precisava ir embora tambm. Fiquei sozinha em
casa (com os animais) e achei
timo isso, porque assim teria oportunidade de ver tudo que quisesse.
Sentei-me no sof, com Emina perto de mim, e fiquei olhando para ela.
Don dizia sempre que
Emina tinha uma expresso antiquada e eu reparei isso enquanto
estvamos sentadas ali: uma expresso que sugeria grande virtude
moral. Sorri para ela, colocando
minha mo sobre ela para acarici-la. Ela encostou a cabea em
minha mo e pensei: "Ser que ela fazia isso durante esses 10

172

anos, sempre que eu lhe colocava a mo, sem saber exatamente onde ela
estava?"

Era maravilhoso ficar sentada olhando para Emma (tanto assim que mais de
um ano depois eu ainda no havia superado o fascnio de olhar para
as pessoas e os animais)
e observar sua expresso de contentamento, com as orelhas em p e a
ponta da cauda batendo no carpete. Enquanto ficvamos ali, eu pensava
em todas as coisas que
desejava fazer, agora que estava em casa.

Uma das primeiras coisas era olhar-me num espelho. Eu j tinha visto
Don, Emma, Ming e os outros gatos. Mas ainda no tinha me visto! Eu
poderia ter feito isso no
hospital, acho, .1

mas no quis. Preferi deixar essa expenencia pessoal para quando
estivesse s, pois eu me sentia um pouco apreensiva. No fazia
idia do que esperar. Uma parte da
minha mente dizia: "Vamos logo, acabe com isso. Isso tem de ser feito e
esperar no alterar o resultado." A outra parte insistia em que eu
esperasse. Suponho que
tenha ficado no sof por cerca de 15 mi nutos, acariciando Emma e
reunindo coragem para fazer o que precisava ser feito.

Quando eu no enxergava, nunca liguei muito para a existncia de
espelhos, e a casa, logicamente, no era cheia deles. Acho que havia
um no banheiro para Don poder
barbear-se. Enquanto eu estava sentada ali, repassando essas idias,
fiquei olhando ao redor da sala. Alm dos espelhos, eu nunca havia
pensado muito na existncia
de quadros nas paredes. Eu sabia que eles estavam ali, mas os objetos
com os quais a pessoa cega no entra constantemente em contato
atravs do tato no ficam muito
vivos em sua mente. Pelo menos foi assim comigo. Don costumava pintar em
suas horas de folga e havia algumas de suas telas na parede. Achei-as
intrigantes e lembro-me
de ficar olhando para elas, tentando identificar o que era cada coisa
que havia na tela.

Um dos trabalhos dele era uma cpia do quadro de Rembrant Homem com
Capacete Dourado. Fiquei fascinada pelo ouro e pelo complicado trabalho
no capacete.  esquerda,
lembrei, havia uma paisagem marinha. Quando fui olhar para essa tela,
deparei-me pela primeira vez com uma dificuldade que surgiu naqueles
primeiros dias depois
de ter recebido alta. Era o problema de transmitir ao crebro a
realidade de uma imagem atravs dos olhos, fazendo-a sobrepor-se a uma
realidade condicio
173

nada pelo tato ou pela descrio verbal. Alguns objetos que via pela
primeira vez eu podia identificar imediatamente, embora no soubesse
por qu. Mas com outros
eu no tinha a menor noo do que pudessem ser at toc~los.
No pude fazer idia da paisagem marinha. Quando Don trouxe-me uma
xcara de ch na manh seguinte,
no fiz idia do que fosse at segur-la.

Mas voltemos ao problema do espelho. Finalmente, depois de olhar
vrios quadros, sentada ao lado de Enima, fui at o banheiro e l
fiquei diante do espelho. Diante
de mim. Vi, da mesma forma como aconteceu quando Don entrou na
enfermaria, mas de um modo um pouco mais aflitivo, uma pessoa totalmente
estranha. No sabia o que
pensar. Os lbios daquela pessoa mexiam-se    quando eu mexia os meus,
e os olhos piscavam se eu piscasse.  Aparentemente, estes eram os
nicos pontos de contato
entre a  imagem no espelho e eu. Depois de algum tempo, passei a achar
que eu no deveria esperar mesmo um reconhecimento imediato. Como eu
poderia de repente
formar uma idia a meu respeito? Sobre o cabelo pensei: "No est
mal, no est mal,  mais ou menos da mesma cor do plo de
Emma." Depois fiquei olhando para o
meu nariz. Coloquei a mo sobre ele porque no podia acreditar.
Senti-o como sempre o sentira antes. ,No tinha crescido. Mas v-lo
foi um choque terrvel. Parecia
um grotesco nariz de palhao, dominando todo o rosto. Por que
ningum nie falara sobre o nariz? Don, mamae, meus amigos e todas as
demais pessoas deviam      saber
disso mas no disseram nada por delicadeza. Fiquei to frustrada que
no quis olhar inais. Senti-me muito deprimida     por ter um nariz
to grande assim e levei
muito tempo para      acreditar que no havia nada de mais com ele.

Para afastar a idia do nariz, fui at o quarto e abri o
guarda-roupa para ver as roupas que minhas amigas haviam me ajudado a
comprar ou que eu havia comprado sozinha,
depois que a vendedora me descrevia cada pea. Algumas eram
horrveis. Havia cores que no combinavam e outras muito berrantes e
que no se coadunavam com meu gosto.
Fiquei surpresa com alguns vestidos de que anteriormente eu no
gostava: a textura da fazenda no me agradava mas achei-os muito
bonitos. Era uma sensao estranha
- eu tinha usado todas aquelas roupas sem saber como elas realmente
eram. Mas agora o empolgante era a perspectiva de poder sair e escolher
minha vesti174

menta e iniciar um novo guarda-roupa. Aquilo alegrou-me muito. apesar do
nariz.

Voltei para a sala de estar, sentei-me e olhei tudo ao redor novamente.
Adorei as cortinas, o carpete e o papel de parede. Era tudo to
colorido e parecia to novo.
Eu havia morado ali durante tantos anos, mas era como estar numa outra
casa. No tinha nada a ver com a casa que eu imaginava; era um lugar
mais brilhante, mais
espaoso e mais confortvel.

Comecei a sentir fome, especialmente porque no havia almoado.
Teria de sair e comprar alguma coisa para o ch. Estava ansiosa para
fazer isso. Como eu me sentiria?
As lojas no ficavam longe, eu as conhecia bem; ficavam na esquina.
Queria v-las. Apanhei a sacola de compras no saguo e me dirigi
para a porta da frente. Emma
sentiu que iramos sair e ficou toda satisfeita. Mas ao chegar 
porta parei. Como faria? Estava apreensiva. Pensei primeiro em levar
Emma na coleira. Mas achei
melhor que nessa primeira vez ela fosse na guia e me levasse. Depois,
quando eu estivesse acostumada a sair, poderamos dispensar a guia.

Apanhei a guia no cabide e Erama ficou imediatamente alegre, pulando e
latindo muito. Seu contentamento era grande porque depois de tanto tempo
ns duas sairamos
juntas novamente. Seria para ela como nos velhos tempos, embora para mim
as coisas tivessem mudado. Pedi para Erama me levar s lojas e ela
puxou-me pelo porto
e l fomos ns. Mas logo que comeamos a andar pela calada de
repente comecei a ver o pavimento correndo sob meus ps. Foi algo
to inesperado e assustador que
pedi que Emma parasse. Logo me recuperei e comeamos a andar outra
vez. Mas ento comecei a ver a cerca das casas vindo em nossa
direo e as rvores pareciam voar,
dando a impresso de que nos jogariam no cho. Olhei para baixo
novamente e vi a calada e a sombra dos postes vindo para cima de mim.
Eu no estava me sentindo
bem. Mais uma vez pedi a Erama que parasse. Eu sabia que aquilo era
ilgico. Sabia que quem estava andando era eu e no o poste, ou a
calada, ou as sombras. Mas
visualmente parecia o contrrio. Resolvi fazer mais uma tentativa.
Aconteceu a mesma coisa. Fiquei em pnico. Eu precisava parar para me
tranqilizar, para provar
a mim mesma que eu  que estava andando. Mas cada vez que parvamos,
Emma sentava-se e olhava para mim com aqueles grandes olhos castanhos
cheios

175

de curiosidade. Ela queria saber o que estava acontecendo; depois de 12
anos juntas, por que eu estaria me comportando assim? No fim de algum
tempo, achei que a
melhor soluo seria eu fechar os olhos e deixar que Emma me
conduzisse como sempre. E foi assim que finalmente chegamos s lojas,

Emma parou. Abri os olhos e estvamos na porta da mercearia. Fui
imediatamente invadida por uma massa de cores, e isso, juntamente com o
alvio de ter chegado l,
fez com que eu pensasse: "Valeu a pena o sacrifcio." Fiquei
maravilhada ao ver as frutas, legumes e flores na mercearia, e para
grande surpresa minha vi que no
havia duas mas iguais, apesar da predominncia do vermelho, nem
duas batatas iguais, nem cenouras nem nada que estivesse ali  mostra.
Como podia haver tantas
nuances e variedades de cor?

Alm disso, havia uma poro de coisas que eu no conseguia
identificar. Mais uma vez apresentou-se o problema de no relacionar
minhas impresses tcteis com as
impresses visuais. Talvez eu j tivesse forado a cabea demais
aquele dia. Ver era maravilhoso, mas era preciso, de certa maneira,
aprender a ver corretamente.
Na loja, onde    as pessoas me conheciam bem e ficaram contentes pelo
sucesso da cirurgia, ningum se importou com o fato de eu ter de tocar
em tudo para reconhecer
as coisas. Havia algo sobre o balco que eu no sabia dizer o que
era, por mais que tenha tentado. Eu via a cor vermelha, a cor verde e
uma forma determinada. Era
tudo que aquilo significava para mim. No me ocorria nenhuma
descrio. Ento coloquei a mo e descobri o que estava vendo:
eram folhas e flores. Era uma planta.
Eu no conseguia entender por que no identifiquei imediatamente o
que era aquilo. Era uma poinstia. Em seguida apontei para alguma
coisa na prateleira e perguntei:

O que  aquilo? Aipo.

E ali? Beterraba. E continuei perguntando. Ao final, comprei tomates
porque

tinham a cor mais linda de toda a mercearia.

No caminho de volta, decidi manter os olhos abertos, o que provocou um
incidente estranho. Eu estava novamente nervosa, mas resolvi persistir,
quando vi um rapaz
vindo em nossa direo. Como sempre, eu estava conversando com Emma
e disse:

176

- Vem algum a, Ema, tenha cuidado.

No tenho idia do que ela fez com esse comentrio
desnecessrio, mas ao dizer isso pensei: "Agora preciso agir, preciso
desviar do rapaz. Mas como? Como fazer isso?"
No me ocorreu que eu estava perdendo minha confiana em Emma.
Pensei: "Vou desviar para a direita e assim o evitamos." Mas quando o
rapaz estava em cima de ns,
eu me afastei para o lado,  direita da calada. No mesmo instante.
Emina decidiu que o melhor seria desviar para a esquerda. Soltei a guia
e calmos todos no cho,
embolados com a guia e tudo - enquanto o rapaz demonstrava ter passado
por um grande susto. Senti-me pssima com o incidente e percebi, pela
expresso de Emina,
que ela no havia entendido o que acontecera. Ela bocejou, certamente
no por enfado e sim por embarao.

Continuou olhando para mim com uma expresso ansiosa, zombeteira, que
devia querer dizer: "Por que afinal voc fez isso? Em 1O anos voc
nunca fez nada igual. O
que houve?" Eu disse a ela:

- Oli, Ema, sinto muito, eu no devia ter colocado a guia em voc.

Conclu que havia esperado muito dela. O que desejara, na verdade, 
que ela ficasse a meu lado at que eu tivesse coragem para sair
sozinha. Isso no era justo.
A partir de ento, sempre que saamos eu colocava apenas a coleira
em Emma e aprendi a cuidar de mim.

Apesar de tudo, chegamos em casa e senti muito prazer em poder esvaziar
a sacola de compras e ver a preparao de uma refeio. Uma
coisa que eu comecei logo a perceber
 que se precisava de muita concentrao para se olhar para os
objetos. Era algo novo para mim, essa concentrao e esforo
mental envolvidos em enxergar; eu no
esperava por isso. Pensei que uma vez recuperada a viso, eu poderia
enxergar e que tudo estaria resolvido. Mas no era bem assim. Era como
de repente receber um
brao extra e ter de se esforar para acostumar-se a tirar o melhor
proveito dele. Mas era algo excitante tambm.

Quando olhei para o interior do armrio da cozinha a primeira vez,
deparei-me com uma caverna cheia de latas, pacotes e potes que eu no
conhecia visualmente, mas
que j usara antes. Tinham ganho uma nova vida. Apanhei um pacote
vermelho, amarelo e branco e pensei: "O que ser isto?" Logicamente
que

177

estava escrito SAL no pacote mas, embora eu tivesse lido durante muitos
anos, antigamente, recuperar essa capacidade levou algum tempo e a
palavra SAL a princpio
era apenas uma arrumao de letras com formas diferentes. Eu
conseguia lembrar de algumas palavras impressas e era capaz de
escrev-las quando ainda no enxergava.
Mas ver uma palavra e querer que o crebro atribusse um significado
a ela era algo diferente e muito difcil, no incio, embora tudo
tenha voltado a minha mente
mais tarde.

Mas para comear, eu identifiquei o sal pelo mtodo antigo paladar -
e fiz
uma correlao com a cor da embalagem. As caixas de cereais eram
amarelas.ou brancas
com desenho, a lata de feijo era azul-turquesa e assim por diante.

No incio era tudo descoberta e eu no me importava. Na verdade,
gostei de ir para a cozinha naquela primeira tarde que passei em casa e
gostei mais ainda da primeira
refeio que fiz, com os vermelhos e verdes da salada me encantando,
e at de jogar gua sobre as cenouras: o modo como a gua brilhava
e escorria, captando a luz
e formando uma minscula quedad'gua na pia, fascinou-me. Depois que
arrumei a mesa para o ch e estava esperando por Don, fui at o
jardim, meu adorado jardim.
Senti-me orgulhosa dele, enquanto caminhava por ali, tendo Emma correndo
perto de mim!

Quando era cega, havia dias em que eu literalmente odiava as rvores
do jardim, pois os galhos sempre se enroscavam em meu cabelo, e se eu
fosse andar um pouco sobre
a grama, o que acontecia muito pouco, precisava ter sempre em mente a
presena e disposio das trs macieiras para no me chocar
contra elas. As macieiras, na verdade,
no passavam de obstculos a serem evitados. Agora no apenas elas
pareciam incapazes de qualquer mal, mas tambm me pareciam lindas. No
final do jardim ficava nosso
salgueiro. Eu no me cansava de olh-lo. As folhas eram verdes de um
lado e cinzas do outro. Por um instante achei que meus olhos no
estavam vendo direito. Ningum
jamais me dissera que as rvores podiam ter folhas cinzas. Foi ento
que olhei para o cu pela primeira vez e vi como as nuvens
avanavam, passando l no alto, grandes
novelos brancos contra o cu azul. Ouvi o carro parar e depois o
rudo do trinco do porto. Era Don.

Ele foi se juntar a mim no jardim e perguntou:

178

- Como passou a tarde? O que voc fez?
- Fiquei olhando tudo.

- O que est olhando agora?

- Bem, para dizer a verdade, estou esperando o pr-do-sol. Don sempre
descrevia o pr-do-sol para mim e ningum o teria feito melhor, ou
de modo mais vvido. Mas
ficar com ele, ali no jardim, enquanto o sol se punha e as cores
comeavam a mudar em frao de segundo, deu-me a certeza de que
no havia substituto para a viso.
Ler sobre qualquer coisa ou ouvir uma descrio (embora no queira
desmerecer o que Don fazia) eram substitutos. E at aquele dia eu
tivera apenas o pr-do-sol de
segunda mo.

Naquela' sexta-feira ficamos ali e vimos o sol se pr, juntos.
O sol desapareceu e as nuvens     e o cu ficaram manchados de dourado
e prpura. Foi perfeito; para acabar aquele dia nada teria sido
melhor.

179

capitulo dezesseis

Uma Nova Vida

Durante os primeiros segundos, depois que acordei na manh seguinte,
tudo me pareceu normal. No havia diferena alguma das outras
manhs, das milhares de vezes
em que me levantei. Diante de mim havia uma nvoa meio acinzentada.
Depois lembrei-me. Eu enxergava! Bastava abrir os olhos, pois eu
enxergava! Era a primeira manh
de uma nova vida. Mas em meio  sonolncia, conjecturei: isso 
mesmo verdade? Ser que devo abrir os olhos?

Na noite anterior, embora cansada, eu no queria deitarme. Pareceu-me
um desperdcio gastar oito horas com os olhos fechados. Fiquei deitada
sentindo-me muito feliz,
o dia mais feliz de toda minha vida. Emma deitara-se na sua cestinha,
nos ps da cama, e eu fixara-me no papel de parede, de onde no
conseguia desviar os olhos.
Era to bonito, cheio de flores num fundo cor-de-rosa. Don deitara ao
meu lado e lembro que ele disse:

-  Podemos ir a qualquer lugar que quisermos.

Eu achava realmente que o mundo, finalmente, era meu. Mas ainda estava
olhando para o papel de parede quando ele desligou a lmpada.

Agora abri os olhos. Vi imediatamente que o papel de parede ainda estava
l. Eu podia ler, podia levar Emma para passear, podia ver tudo que eu
conhecia por me contarem
mas que na verdade no conhecia bem. Achei que a experincia que eu
estava vivendo deveria se comparar  de um astrnomo ao descobrir um
novo planeta ou  de um
explorador ao chegar ao topo de um plat e ver, a seus ps,
quilmetros e quilmetros de um
180

-4---1^10--
territrio inexplorado. Enquanto eu ficava devaneando, o sol invadiu o
quarto atravs das cortinas e vi que Enuna ainda estava enrolada na
sua cestinha.

Neste instante Don mexeu-se na cama e disse que ia se levantar e
preparar o ch, o que fez com que eu voltasse a cosas mais
prticas e imediatas. Enquanto eu estava
olhando para Enuna, ela tambm   se levantou. Saiu da cestinha,
espreguiou-se com os olhos ainda semicerrados contra a claridade do
ambiente, mas em seguida  olhou
para mim, cheia de afeio. Deu seu costumeiro pulinho  de bom-dia e
depois subiu em nossa cama, com a cauda abanando. Eu ouvira isso todos
os dias, ao longo dos
anos, mas nunca tinha visto o que acontecia. Era um ritual dirio, em
que ela tinha de desempenhar seu papel do que Don chamava de "Dana da
Cama", em que ela enfiava
o focinho sob as cobertas, com as patinhas de trs no ar e a cauda
abanando. Ao ver isso pela primeira vez, juntamente com o som a que j
me acostumara, recostei-me
e ri muito. Era muito engraado.

Quando Don entrou no quarto com o ch eu lhe perguntei:
- Quanto tempo ela levar para saber que eu posso enxergar?

Emma ainda no compreendera a nova situao e eu ficava imaginando
se ela perceberia a mudana aos poucos ou de uma s vez. Ento
algo estranho se deu. Eu estava
observando Don servir o ch e comear a se vestir quando reparei nas
pernas dele. Eu no as tinha olhado antes.

- Don, suas pernas.
 1
- O que h com minhas pernas?

- Elas no so um pouco estranhas? - Comecei a rir, porque ele ficou
me olhando de modo estranho.

Pobre Don, ficou sem ao. Ele olhou para as pernas com

1 muita dignidade e ficou observando-as.

- Minhas pernas so perfeitamente normais.
- No podem ser,

- Mas so.

- Mas h alguma coisa errada com elas. Elas no parecem pertencer ao
resto do seu corpo.

Ele mais do que depressa vestiu as calas para cobrir as pernas e
escond-las do meu olhar crtico: eu jurava que elas estavam fora de
proporo. No fazia a menor
idia de como as pernas deveriam ser, mas qualquer que fosse minha
imagem,

181

as pernas de Don no combinavam com ele. Quando me levantei, logo em
seguida, parei de rir. Vi que minhas pernas tambm pareciam estranhas,
muito estranhas e desproporcionais.

Durante a refeio, descobri mais alguma coisa. Preparei bacon, ovos
e tomates. Fiquei pensando quanto eu havia perdido de prazer por no
poder ver a comida, e como
ver os alimentos aumentava o apetite. Sentamos e coloquei meu garfo no
bacon e por alguma razo os dois no se encaixaram. A
coordenao Motora estava alm de mim
e por isso, apesar de admtir aquilo como um retrocesso temporrio,
algo imprevisto, tive de voltar ao meu modo antigo de comer, ou seja,
ter de apanhar a comida
com o garfo e a faca. Deixei de olhar para o prato e passei a apenas
sentir o gosto da comida.

Enquanto comamos, Don perguntou:

- Aonde voc gostaria de ir hoje? - Ele conseguira uma semana de folga
no trabalho e queria me levar para um passeio de carro. Antes que ele
dissesse mais alguma
coisa, respondi:

- Que tal Newstead. Abbey, que fica perto daqui? Newstead Abbey, com
suas florestas, lagos e jardins, fica a 2O minutos de carro de
Nottingliam, junto a Mansfield.
Foi a residncia de Lord Byron. Na dcada de 30, foi doada 
Cmara de Nottingliam. Estive multas vezes l quando era cega e
sempre achei um lugar muito tranqilo.
Eu podia praticamente sentir a atmosfera da velha abadia e imaginava
Byron escrevendo poemas debaixo das rvores ou correndo a cavalo pelas
alamedas. Costumava andar
por l e sentir as rvores, sabendo que havia grandes massas de
rododendros, e ouvia as cachoeiras. Estava ansiosa para ver aquilo tudo.

Havia um lago que se alongava como um grande espelho, com
galinhas-d'gua e cisnes flutuando junto com suas imagens refletidas.
Finalmente chegamos s cachoeiras.
O sol estava brilhando e batia em cheio na gua, transformando-a numa
cascata de diamantes que danavam e giravam sobre as rochas. As cores
iam mudando ao longo
da queda. Eu no conseguia tirar meus olhos daquele espetculo e Don
quase teve de me arrastar para que eu fosse ver as flores que ele havia
descoberto: dlias e
crisntemos, num esplendor de diferentes tonalidades de amarelo,
marrom e escarlate. Para mim, era como se todas as cores do mundo
estivessem concentradas ali. Em
seguida, reparei numa
182

parede de pedras, uma parte da abadia, e fui at l para olhar. A
parede estava cheia de cores, rosa, amarelo, branco, cinza, marrom, com
musgo e lquen desenvolvendo-se
nas rachaduras, tudo cheio de muitos detalhes.

Eu me entregava toda s sensaes visuais. Mas havia mais uma
coisa que eu precisava ver. O monumento que Byron mandara fazer para seu
co da Terra Nova, Boatswain.
Chegamos  pequena construo de pedra, que ficava no final de
alguns degraus. Emma correu at l, muito interessada. E eu poderia
ler, finalmente, o que Byron.
havia escrito sobre seu co. Estava gravado na pedra que Boatswain
possua "Beleza sem Vaidade, Coragem sem Ferocidade e todas as
Virtudes do Homem sem os seus Vcios".
Eu gostaria de ter escrito isso. Mas como elogio a Emma.

Todos os dias amos a lugares diferentes, e pela manh eu sempre
saa no jardim para ver as coisas. Certa manh, quando estvamos
quase saindo, chamei Don.

- Venha ver este pssaro.

Ele veio correndo, pensando talvez que estivesse acontecendo alguma
coisa estranha.

- Olha s, o passarinho pousado naquela rvore.

- Estou vendo - disse ele, confuso - mas o que h com ele?

- No, no h nada, mas veja s, ele est pousado l no
galho.

- Sim - ele respondeu pacientemente - estou vendo. Ele no conseguiu
entender o porqu da minha excitao nem eu deveria esperar isso
dele. Tive de lhe explicar.
Eu sempre soube, porque haviam me contado ou eu tinha lido, que os,
passarinhos pousavam nas rvores. Sempre percebi a presena de
pssaros perto de mim. Era capaz
at de saber a diferena do canto de alguns pssaros. Conhecia o
cantar do melro e o trinado do pardal. Mas minha mente nunca foi capaz
de associar a idia de rvores.
Jamais consegui juntar os dois. Pode parecer loucura, mas  verdade.
Embora tivessem me dito isso vrias vezes, eu no conseguia fazer a
unio. E l estava eu realmente
vendo um passarinho na rvore.

Na ltima manh de nossas frias, Don teve uma excelente idia.

183

- Que tal irmos a Yorkshire, a Flamborough Head?

Eu sabia que o lugar era considerado lindo e por isso mal pude esperar
para entrar no carro e sairmos. Estava ansiosa para ver o mar pela
primeira vez.

Foi uma viagem comprida, mais de 15O quilmetros atravs do campo,
passando pelas Dukeries, regies carbonferas e cidades industriais,
onde se encontram vrios
solares ducais. E gradualmente subindo as verdes e ngremes colinas de
Yorkshire Wolds. A estrada era toda margeada por vastos campos. De vez
em quando passvamos
por uma igrejinha situada num pequeno declive; logo depois estvamos
no alto, vendo l embaixo a ondulada paisagem verdejante. Lembrei-me
das lies de contorno
nas aulas de Geografia, mas naquela poca no conseguia entender o
que o professor queria dizer.

Seguimos at o final da estrada, l em cima onde ficava o farol de
Flamborough Head, com sua brilhante torre branca. Saltamos do carro e
Emina saiu correndo  nossa
frente. Pouco depois de ouvir um grande estrondo, avistei o mar. Eu
jamais imaginara aquele movimento permanente, tanto brilho, tanta
foia. O mar parecia reunir
foras, ficando calmo durante algum tempo de silncio, depois
voltando a bramir, lanando-se violentamente contra o sop dos
penhascos, enquanto que no semicrculo
formado pela costa a gua parecia em ebulio. Na primeira vez que
isso aconteceu, segurei o brao de Don. Tive a sensao de que o
penhasco estava tremendo e que
se desagregaria diante daquele ataque. Mas quando a onda afastou-se do
sop do penhasco, percebi que aquilo vinha acontecendo h sculos
e que eu estava segura.
Emma tambm adorou Flamborough. Correu muito e nos ajudou quando
finalmente fomos at a praia e recolhemos seixos e conchas. Ela
entrava e saa correndo da gua,
sacudindo-se toda, parecendo muito feliz. Apanhei todos os tipos de
pedrinhas que encontrei na praia e as levamos para casa como
lembrana.

Mas, dentre todas as lembranas daquela semana, havia um toque de
tristeza tambm. Eu tive tempo para arrumar todos os armrios e
gavetas, ler antigas cartas, livros
e revistas velhas, e ver fotografias. Foi quando estava vendo as fotos
que me ocorreu que havia certas coisas que eu no sabia sobre os anos
em que era cega. E preferia
continuar ignorando-as. Havia fotos
184

de minha famlia que pareciam mais velhas do que na verdade eram.
Encontrei instantneos de Ohpas, meu gatinho siams que tinha
morrido, e gostaria de no ter visto
nada daquilo. Havia tambm muitas fotografias de Emma, todas timas,
desde a idade de cinco semanas, algumas delas enviadas para mim por
Paddy Wansborough, em que
dava para ver como ela devia ter sido um filhotinho bonito, esperto.
Outras fotos mostravam Emina com mais idade, cheia de vigor e muito
bonita, como continua at
hoje. O problema era que, olhando uma foto atrs da outra, pude ver o
processo de crescimento e envelhecimento de Emma. Eu sabia que ela
estava quase com 11 anos,
mas jamais pensava nela com essa idade. A idade dela no representara
nada para mim at o momento em que vi essas fotografias, o que me
deixou abatida, muito embora
ela ainda no tivesse plos grisalhos e continuasse muito bonita.
Mas tive de encarar o fato de que, para uni co, Emina estava
envelhecendo.

E tristeza no era a nica sensao desagradvel. Durante a
semana, sa para fazer compras em Nottingham, o que serviu para que eu
percebesse que deveria aprender
a usar a viso: qualquer esperana que eu tenha tido de que a
simples recuperao da viso tornaria minha vida automaticamente
fcil desfez-se por completo e de
maneira terrivelmente dolorosa. Desci do nibus e sa da
estao. Dizer que fiquei chocada era faltar com a verdade. Fiquei
assustada com meu comportamento. Estava
com Emina na coleira e quando deixamos a estao de nibus, alm
do barulho e da sensao de pressa que eu j conhecia e com a qual
realmente contava, entrei em
contato com a causa daquilo tudo: as pessoas, milhares delas, todas se
movenclo, e carros e nibus e ciclistas circulando, tudo misturado
numa grande' confuso,
dando a impresso de uma mltipla luta corpo a corpo. Eu no
conseguia acreditar que houvesse tantas pessoas assim e nenhuma delas
pareceu prestar ateno em Emma
ou em mim. Por que, afinal, fariam isso? Eu no era mais cega e Emina
no estava usando a guia de um co-guia. Eu sempre confiara em Enima
para me levar por entre
os congestionamentos de pessoas, mas agora sentia-me empurrada e
acotovelada e percebi que no estava fazendo nenhuma tentativa para
sair do caminho.

Foi assustador, mas conseguimos e logo em seguida olhei para cima
casualmente e vi um edifcio muito alto, no novo cen
185

tro de Nottingham. Jamais pensei que houvesse uma constru-,,o to
alta assim, ou to ameaadora. Parecia balanar. Eu sabia que as
nuvens estavam muito acima do
prdio, mas parecia que eles  que se moviam e no as nuvens. Um
pouco tonta, finalmente consegui olhar para a frente e separar as coisas
em duas categorias: as
que se moviam e as que no se moviam, da mesma forma que Enuna fizera
isso por mim durante aqueles anos todos. Emma,  claro, ia caminhando
na minha frente e embora
ainda no estivesse acostumada a andar comigo sem a guia,
especialmente no centro, parecia-se com qualquer outro cachorro
passeando na colera. Durante a maior parte
do percurso. Porque chegou um momento em que ela sentiu que eu estava em
apuros e ento voltou imediatamente ao papel que sabia desempenhar
melhor. lamos atravessando
uma rua controlada por sinal luminoso. Estava esperando pelo sinal verde
e pelo apito, da mesma forma que aguardava que os carros parassem, pois
ainda confiava muito
na audio; na metade da travessia perceb que havia alguma coisa
em nosso caminho; no pude identificar o que era. A imagem estava
l, mas meu crebro no traduza
aquela imagem num conceito. Parei no meio da rua, diante do obstculo.
Ento Emma veio me salvar. Ela estava a meu lado, mas neste instante
adiantou-se e puxou-me
para a esquerda pela coleira. Eu a segui. Ela foi me puxando at
chegarmos do outro lado da rua. Quando j estava na calada,
voltei-me e olhei para aquele intrigante
obstculo de um ngulo diferente e ZZ

descobri o que era: um daqueles trailers compridos. Estava vazio e tinha
parado sobre a faixa de pedestres.

No nibus que me levou para casa, pude ver pela primeira vez as
diversas expresses dos passageiros, o que para mim era
uma fonte contnua de divertimento: uns
com a aparncia feliz, outros com o rosto tristonho; alguns acho que
gostaria de conhecer, mas de muitos eu gostaria de ficar bem longe. Em
tudo e por tudo eu estava
desapontada com a aparncia das pessoas. Se tivessem a uniformidade
que eu imaginava quando era cega, pelo menos teriam uma certa beleza,
pois nunca imaginara os
seres humanos feios, grotescos e at mesmo repulsivos. Na minha frente
sentou-se uma mulher cujo pescoo e papada caam sobre o decote.
Depois entrou um homem careca.
A calvcie, em par
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ticular, causou-me um grande choque ento, embora agora j me tenha
acostumado a ela.

Fiquei, logicamente, surpresa pelo fato de minha famlia e meus amigos
serem muito diferentes do que eu havia imaginado. Quando fui atender a
porta certa vez, deparei-me
com um homem (isso foi antes de eu ver as fotografias de meus parentes).
No tinha idia de que era meu irmo Graham at ele comear a
falar comigo. E quando minha
me foi me visitar, olhei para ela e disse:

- Seus cabelos esto brancos. Quando aconteceu isso? Eu agia sem tato
e de maneira descorts, mas no fazia isso de modo deliberado. Era
apenas a surpresa com a
realidade.

Levou algum tempo para eu me acostumar  idia das expresses
faciais. Olhava para Don de vez em quando e pensava: as pessoas no
tm apenas um rosto, tm uma centena.
No mundo dos cegos, h apenas uma obscura idia do que seja um
rosto. No se pensa na possibilidade de os rostos mudarem com a
alegria, a tristeza ou por qualquer
outro motivo. E meu rosto tambm estava mudando. Durante aquela
primeira semana, nossos  amigos Eddy e Mike Blain foram nos ver e,
depois de estarem  conosco por
mais de meia hora, Mike disse:

- Voc mudou.

- O que voc quer dizer com isso?
- Bem, o seu rosto mudou.

- Meu rosto? Como?

- Na verdade, no sei. Mas est diferente... No sei, mas acho que
parece mais vivo, Sheila. Voc est usando expressoes. E de repente
percebi que ele tinha razo
e que a leve rigidez

que eu sentia no rosto no tinha nada a ver com a operao, como
cheguei a pensar; era causada pelo uso dos msculos da face. que eu
nunca usara antes. Acho que
as crianas aprendem as expresses com os pais e com outras
crianas. Mas como eu jamais havia visto um rosto de modo ntido o
bastante para imit-lo, estava recuperando
o tempo perdido. Fiquei contente por Mike me ter dito que meu rosto
estava mais vivo.

Antes da operao, quando saa com Don. para ir  casa de awigos
ou para ir a um pub beber alguma coisa, mesmo estando rodeada de gente,
precisava que Don falasse
diretamente comigo para que eu me sentisse perto dele; ou pelo menos que

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conseguisse ouvir sua voz. Caso contrrio, era como se estivesse
isolada. Depois que comecei a enxergar, era maravilhoso poder olhar ao
redor de uma sala cheia de
gente e poder localiz-lo instantaneamente e, independente do nmero
de pessoas, sorrir para ele e receber seu sorriso como resposta.

O tempo pareceu voar, e logo terminou aquela semana maravilhosa e Don
precisou voltar ao trabalho. Finalmente eu tambm voltei ao servio.
Emma estava ficando um
pouco mais acostumada  coleira, mas deve ter sido estranho para ela
fazer a costumeira viagem matinal por Nottingham sem ser a responsvel
por mim. Ela ainda estava
um tanto confusa e de vez em quando olhava para mim, antes de sairmos,
como se estivesse pensando: "Onde est minha guia? No compreendo."
Na hora de sair para o
trabalho, fui at a porta e fiquei pensando um momento: "Acho que aqui
 o lugar dela, mas a porta parece estranha". Era como se eu nunca a
tivesse visto. Mas logo
que coloquei a mo   na maaneta, descobri que era a porta certa,

O interior do prdio, tambm, parecia um lugar onde eu nunca   havia
estado, completamente diferente da idia que eu fizera dele. Quando vi
a mesa telefnica em
que trabalhara por tantos  anos, mal acreditei nos meus olhos. Minha
mquina braile ainda   estava l, pronta para ser usada. No havia
pensado em braile  naquelas
semanas. Eu me sentia como uma arqueloga que estivesse descobrindo
uma relquia do meu passado h muito escondida. Emma no pareceu
dar importncia a isso. Foi
para sua cestinha e acomodou-se.

No consegui trabalhar do novo jeito. Era difcil operar a mesa
telefnica visualmente. Acabei aprendendo, mas no princpio voltei a
trabalhar pelo tato. Da mesma
forma, era difcil escrever recados em vez de usar minha mquina
braile. Em casa comecei a aprender a ler novamente e a escrever
tambm. Mas foi tudo muito lento.
Uma vez mais, meu crebro no associava imediatamente o significado
correto s formas que eu via no papel. No entanto, apesar de ter sido
duro, nada pde diminuir
a alegria genuna de recuperar a capacidade de ler, e eu passava meu
tempo livre cercada de livros e revistas.

Continuei trabalhando na garagem durante algum tempo, at que decidi
escrever este livro. A medida que o tempo passava, comecei a aprender a
operar a mesa telefnica
visualmente e a

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escrever todos os recados e, como tudo na vida acontece depressa. velhos
hbitos e costumes, uma vez deixados de lado, so logo esquecidos.
Lembrei-me do meu passado
de forma dramtica e penosa quando chegou o momento de treinar minha
substituta. Era a minha amiga Kath, que ia para o trabalho guiada por
Rachel, sua cadela-guia.
Tive de trein-la na mesa telefnica e ao v-la trabalhar era como
se eu estivesse vendo o meu fantasma.

Era uma sensao estranha e no podia acreditar que alguma vez eu
tivesse sido assim. Mas as coisas voltavam a mim de todas as formas.
Kath pegou minha caneta e
o bloco e riu.

No servem para mim - disse ela.

E lembrei de como me sentia antes: no gostava de admitir que  essas
coisas existiam, coisas que eu no podia usar. Ao mesmo tempo, havia o
lado divertido. Rachel
e Emina tinham de dividir a mesma cesta, pelo menos elas tentavam,
embora ficasse inuito apertado. A pobre Emina deixava a cestinha e
ficava olhando para mim sem
entender nada, e eu interpretava aquele olhar como querendo dizer: "Ei,
o que est acontecendo? Gosto de Rachel, mas estive aqui durante
tantos anos e agora ela
chega e quer tirar minha cesta!" Depois de algum tempo, ela estava to
contrariada que resolveu deitar no carpete, aos meus ps, a despeito
de minhas explicaes.

Mas o treinamento no foi motivo de divertimento para mim. Eu tinha de
lembrar como operar a mesa telefnica por tato e treinar Kate para
tal, e quando ela se sentou
Ia a primeira vez tive de fazer as demonstraes pelo tato, a mo
dela seguindo a minha pelos indicadores em braile, para que ela soubesse
onde ficavam os nmeros
e os comutadores. Tive de indicar-lhe o lugar das listas em braile e,
enquanto o fazia, ocorreu-me subitamente como as pessoas com viso
reagem aos cegos. Sabia
muito bem como deviam ter olhado para mim. Contudo, mesmo com minha
experincia, no sabia como prestar mais ajuda a Kath.

Queria ensinar-lhe a fazer as coisas de um modo mais rpido porque eu
enxergava. Via o que estava acontecendo. Quando algum ligava via logo
qual o nmero, mas ao
mesmo tempo va Kath correndo a mo pela mesa, procurando sentir o
movimento do indicador para atender  ligao. Eu me sentia

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to frustrada com isso que tinha vontade de lhe dizer: "No, voc
est no lado errado, a chave  a de cima." Mas sabia que, se o
fizesse, no a ajudaria. Tudo isso
me abatia muito e desde que sara do hospital nada havia me tocado
mais do que aquela situao. Sentia mais intensamente porque Kath
era uma pessoa cega muito capaz,
alm de ser minha amiga, e eu no podia suportar quando as pessoas
falavam com ela e ela no as enxergava, ou quando ficava tateando 
procura da xcara de ch.
Mas a vida segue seu curso. Enima percebeu no momento adequado que eu
enxergava e isso aconteceu, como eu havia imaginado, como resultado de
um incidente especial.
Ela ainda continuava com seu velho hbito de esperar pacientemente que
os gatos acabassem de comer,  noite, e, tendo aperfeioado o
mtodo de esgueirar-se pelo
cho da cozinha sem que eu ouvisse, comer as sobras que porventura
eles tivessem deixado. Eu s ficava sabendo o que ela havia feito
quando ouvia o barulho das tigelas
vazias sendo arrastadas, mas a j era tarde demais para fazer
qualquer coisa. Certa noite, vi quando Ming veio da cozinha depois de
acabar de comer. Como sempre,
havia deixado alguma coisa. Reparei que Emnia, de modo dissimulado,
dirigia-se para a tigela da gata. Ela j estava pronta para colocar o
focinho na tigela quando
gritei:
- Emma, saia da!
Foi como se algum    tivesse dado um tiro perto dela. Voltou-se e
olhou para mim   com uma expresso que eu nunca vira antes: assombro,
choque talvez, diria at
que sua expresso sugeria um encontro com o sobrenatural.
- Sim - disse eu - eu enxergo. Voc ia limpar a tigela, no ia?
Ela se apro-imou de mim e colocou o focinho em minhas mos enquanto
abanava a cauda, como se quisesse dizer: "Bem, o que est havendo?
No estou entendendo nada."
Mas acho que entendia e ficou sabendo, a partir de ento, que eu podia
ver. Depois disso, quando saa na coleira, ela comeou a puxar, a
latir para outros cachorros
e a parar para cheirar os postes: coisas que a correta, compenetrada e
operosa Enima nunca sonharia fazer. Mas agora ela no precisava
trabalhar nem, devido a seus
11 anos, seria guia de outra pessoa. Conquistara sua liberdade. Quando
estava fora da coleira, era uma
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#beleza v-Ia correndo por toda parte com o focinho cheirando tudo,
parando para investigar todas as rvores e cada pedacinho dos
gramados, com a cauda bem em p.
H certos aspectos de Emma que nunca cheguei a conhecer. Corno, por
exemplo, suas orelhas subindo e descendo quando ela corria. Adoro sua
energia e seu interesse
pela vida e ela parece apreciar a alegria que sinto em poder v-Ia.
Outras coisas tornaram-se claras para mim com o passar do tempo. Algo
que eu nunca havia visto era um arco-ris. Dori. certa vez correu para
mim durante um temporal
e disse, muito alvoroado:
- Venha c., Sheila, venha ver uma coisa.
Mas quando sa no jardim o cu havia mudado; tudo havia
desaparecido, a no ser uma leve risca de cor violeta no lugar onde
estivera o arco-ris. Ele ficou desapontado
e eu tambm. Ainda estou esperando para ver um arco-ris.
Deixando de lado o arco-ris, agora sei realmente o que  o Natal.
Antigamente eu sempre me sentia triste na poca do Natal e frustrada
porque sabia que a cidade
estava toda decorada com luzes, rvores de Natal e grandes desenhos
iluminados de Papai Noel, que eu sempre desejei ver. Nas lojas havia
muitas coisas que mame
descrevia para mim, mas que jamais pude apreciar nas vitrines. Podia
esticar a mo e tocar em tudo mas no era absolutamente a mesma
coisa. No entanto (Don achava
isso estranho), eu sempre enfeitara minha casa. Tinha minha noo de
espao e sabia exatamente onde cada coisa estava e assim imaginava o
ambiente enfeitado. Costumava
sentar-me, gostando da idia de saber que a casa estava decorada e que
eu havia feito tudo aquilo. Todos aqueles anos em que fiz decorao
para mim e ia s lojas,
sem poder ver os presentes que estava comprando, desapareceram como se
nunca tivessem existido. Poder enxergar e aproveitar o Natal ao
mximo, mais que qualquer
outra coisa, resumia o que enxergar representava para mim.
Comprei mais artigos de decorao do que fazia antes e juntei-os aos
que j tinha em casa. Consegui uma enorme rvore de Natal e pendurei
enfeites por toda parte.
Don chegou em casa com algumas lmpadas coloridas e quando as acendeu
- azul, laranja, verde - era como se eu tivesse seis anos outra vez,
s que muito melhor. E que prazer senti em poder escrever
191
#os cartes de Natal e de saber, depois de abrir os que recebia, quem
os havia enviado. No dia de Natal foi maravilhoso ver Don abrir seus
presentes. Fosse uma camisa
ou uma loo para aps a barba, eu havia escolhido cada um
pessoalmente.
Agora mais um ano se passou, um ano em que me tornei mais acostumada e
prtica com o que posso fazer coii. x viso. Mas ainda no perdi
meu senso de fantasia. Quando
ouu .- gum na rua reclamando sobre o preo da batata ou dizendo
que o carvo vai aumentar novamente, gosto de lembrar como elas so
felizes por terem a capacidade
de ver o cu e as nuvens.
Don e eu nos consideramos particularmente felizes, No ltimo Natal,
nossa famlia aumentou. A 21 de dezembro tive uma menina, Kerensa Emma
Louise, que agora tem
Oois meses e meio. (0 nome do meio foi escolhido, obviamente, por um
motivo cor de chocolate.) Fomos abenoados com uma menininha muito
linda. Don e eu somos mais
felizes do que podamos sonhar e s esperamos que um pedido nosso
seja atendido: que Kerensa possa enxergar.
192
                Fim do livro




Livro enviado por Andr Megre Carvalho         Bom Jesus do Itabapoana,
04 de maro de 2002.
